A geração Power Flower que mudou o mundo e o dividiu em antes e depois

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Por Arcírio Gouvêa Neto, jornalista

Apesar desse nome ridículo, a maior geração sobre a terra foi a “Boomer” (numa tradução livre, “Explosão de Bebês”). Por vários motivos, entre eles, a convergência de alguns acontecimentos importantes: a Segunda Guerra Mundial, os surgimentos do rock’n’roll, da comunicação de massa (com o rádio e a televisão propiciando que jovens do mundo inteiro pudessem pensar juntos pela primeira vez na história), a nova linguagem e temas do cinema, um teatro mais existencial, assim como uma literatura mais realista, enfocando temas comuns e triviais do dia a dia, comuns a todos nós. Além das primeiras manifestações da contracultura que culminariam na obra de Andy Warhol; mas, principalmente, devido à alguma junção astral, pairando sobre o planeta.




Foi a geração que mudou o mundo e o dividiu em antes e depois. Quebrou todos os tabus e preconceitos, todas as convenções, desenvolveu uma linguagem própria de comunicação, criou as canções de protesto contra um sistema opressor e falso moralista. Surgiram “Hair”, “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” (vejam a sutileza do título: era um garoto comum como eu, como você, como todos nós e que não queria ir pra guerra, uma guerra que não foi ele quem criou). Tema único no mundo, até então. E tantas outras.

Na literatura, Charles Bukowski dizia, ou melhor vivia, da maneira como deveria ser. Na música, os Rolling Stones davam a medida do que já era uma sociedade de consumo em “Satisfaction”, enquanto os Beatles gritavam a mensagem do século de uma geração pós-guerra e mesmo de uma geração de sempre “Help” ou “Ajude-nos que estamos sozinhos”. Enquanto Roberto Carlos mandava tudo pro inferno.

No cinema: “Ao balanço das horas” O Selvagem” e “Juventude Transviada”, definiam a estética do “jovem rebelde” com jaqueta de couro e moto, além de retratarem o conflito geracional e a rebeldia adolescente da época. Na essência, um grito ecoava no planeta “Não queremos mais ser o que éramos”. Lembrando que antes dos “boomers” não existia diferença entre as roupas de um senhor de 70 anos e um jovem de 15.

E já ia esquecendo de “Je t’aime moi non plus”, onde Jane Birkin e Serge Gainsbourg, entre gemidos e sussurros, protagonizam um casal se amando na cama, algo jamais visto na música, que acabou sendo proibida no Brasil pelos circunspectos senhores “caretas” da ditadura. Era o amor livre, um dos símbolos máximos dessa geração em toda sua plenitude. Também não posso esquecer do nosso Cinema Novo “Deus e o diabo na terra do sol”, “Ganga Zumba”, “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, “Vidas secas”, imortalizando os nomes de Glauber Rocha, Nélson Pereira dos Santos e Cacá Diegues.

Em suma, essa geração foi um vulcão derramando sua lava incandescente sobre a terra. Foi uma geração fantástica, que somente quem a viveu sabe o que representou. O amor pairava no ar e a liberdade galgava os mais recônditos níveis do ser, do qual o maior exemplo foi a filosofia hippie e a Sociedade Alternativa de Raul Seixas, baseada no ocultismo de Aleister Crowley (Lei de Thelema) e que pregava a liberdade individual absoluta, o “faze o que tu queres” e a vivência da própria verdade, desafiando a repressão da ditadura militar com anarquismo.

Onde cabia também os lemas das tribos hippies em expressões como “Paz e Amor”; “Faça amor, não faça guerra”, “Flower Power” (Poder das Flores, criado por Allen Ginsberg, simbolizando a rejeição a não violência e a forca-bruta); “É proibido proibir” (Caetano Veloso); “Turn on, tune in, drop out”(Ligue-se, sintonize-se, desligue-se), cunhado por Timothy Leary, incentivava a expansão da consciência com o uso de drogas psicodélicas e o abandono das normas sociais; e a imortal e antológica “Sexo, drogas e rock ‘n’ roll”, resumindo o estilo de vida libertário e de quebra dos paradigmas de uma nova consciência.

E somente os “boomers” sabem como foi árdua a luta para mudar conceitos e alienações seculares. Com passeatas e protestos sendo dissolvidas a cacetetes e bombas pela polícia, com cabelos compridos sendo mandados cortar pelos delegados da ditadura, pelas minissaias tendo que descer alguns centímetros, mas que não continham as transgressões em cima de transgressões: nas atitudes e nos comportamentos diários; mesmos os mais silenciosos e anônimos diziam baixinho: “É um mundo novo, o velho acabou”.

Esse texto é apenas um esboço e, óbvio, muita coisa ficou de fora em algo tão abrangente e significativo. Inclusive, muita gente poderá não concordar com ele, mas eu o vivi e posso dizer com emoção e ternura “Meninos eu vi”.

Foi uma luta árdua e insana para entregar um mundo melhor e mais humano às gerações que vieram depois. Por isso, quando você mais jovem, das gerações X, Y, Z e Alfa, virem alguém de cabeça branca andando por aí, antes de ter por ele qualquer preconceito, lembre-se que muitos daqueles cabelos brancos são resultado da sua luta para lhe entregar um mundo melhor, mais justo e humano e o trate, então, com muito carinho e respeito.

Enfim, naquele tempo, quem passou pela vida e não viveu; passou pela vida, não viveu.

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