A cineasta Dandara Ferreira fala sobre o processo de filmagem e os aprendizados a partir do documentário Anatomia do Caos, em cartaz nos cinemas
Por Claudia Rocha, compartilhado de Focus Brasil
Foto: A diretora Dandara Ferreira Foto: Divulgação
Em meio ao turbilhão de sentimentos como angústia, medo, incertezas, consequências do isolamento social vivido por conta da pandemia de covid-19, a cineasta baiana Dandara Ferreira acompanhava o cotidiano dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada no Senado em abril de 2021, e resolveu fazer um filme. O resultado da grande quantidade de material pode ser visto nos cinemas, no documentário “Anatomia do Caos”.
Diretora de biografias como “Meu Nome é Gal”, sobre Gal Costa, e “Vou tirar você desse lugar”, sobre Odair José, ela conta que o documentário recém-lançado é resultado de uma inquietação com a necessidade de registrar um momento histórico importante, que teve como resultado mais de 700 mil brasileiros mortos.
Segundo Dandara Ferreira, Anatomia do Caos, além de revelar bastidores da atuação parlamentar, também é uma ferramenta política de memória e justiça e contribui para o processo de elaboração de um luto coletivo, que segue como ferida aberta, de acordo com a cineasta. Confira a entrevista:
O Anatomia do Caos é um filme que mergulha no tema da política com profundidade, mas seus outros filmes também passam por questões relacionadas. Qual a sua relação com a política? Como surgiu esse interesse?
Eu nasci meio que em um ambiente político. Meu pai é sociólogo [Juca Ferreira]. Então, desde pequena, na minha casa, eu sempre acompanhei o dia a dia de uma atuação partidária, então, sempre teve a questão política muito próxima. Eu sempre gostei, desde pequena também, acho que porque eu sempre estive próxima ali do universo político, sempre gostei. Na época que eu fui fazer vestibular, na verdade, eu sonhava em ser diplomata. Só que ao mesmo tempo eu sempre tive esse lado ligado à cultura, eu sempre fiz teatro desde pequena. Então, eu pensava se iria para o lado da política, relações internacionais ou cinema, acabei optando por cinema porque, conversando com Celso Amorim, sabia que caso depois eu quisesse partir para diplomacia, eu poderia me formar em qualquer curso que depois eu poderia tentar fazer Rio Branco, mas acabou que minha vida foi seguindo outro rumo e eu não fui para um lado político partidário, mas eu acho que, assim, cinema também é uma forma de fazer política, né? Todos os meus filmes querendo ou não tem uma questão política. Esse, claro, é o mais explícito. Mas, quando a gente fala de Gal, por exemplo, era uma mulher que enfrentou a ditadura, uma mulher tímida que enfrentou com a questão do corpo. O meu outro filme, que será lançado no segundo semestre, sobre o Odair José, também fala sobre um ator político dessa época, da ditadura. Muitas vezes, quando falamos sobre música de protesto, a gente acaba se referindo sempre a Gil, Caetano, Chico, mas o Odair teve uma participação muito importante, principalmente, por falar com as camadas mais populares.
Como foi seu primeiro impacto em relação à pandemia? Em 2020, muita gente acreditava que seria algo rápido e pouco duradouro quando as primeiras informações começaram a circular.
Olha, no primeiro momento eu era dessas pessoas que achava que em 15 dias a gente iria voltar para vida normal. Estava fazendo meu mestrado na UNB, eu estava em Brasília. Não cheguei nem a ter aula porque chegou a notícia dos primeiros casos, aí a UNB resolveu cancelar a primeira semana. Eu moro em São Paulo, voltei achando que era um período curto, que depois a vida iria voltar ao normal, iria estabilizar e desde então eu nunca mais voltei. Acabei passando a minha pandemia em casa e, ao mesmo tempo, também foi um momento pessoal também um pouquinho complicado, não só pela questão da pandemia, de tudo que a gente estava vivendo, aquela instabilidade. Mas, pessoalmente, eu estava em um momento de transição, eu estava vivendo de um jeito meio improvisado, com minhas coisas na casa do meu padrasto, estava em uma fase de devolver uma casa alugada, então na hora que vem a pandemia bateu uma questão de ‘onde é minha casa? onde é minha referência?’. Eu moro em São Paulo, mas sou de Salvador. Foi um momento meio de crise, queria entender meu espaço, meu lugar, fora toda a incerteza que a gente estava vivendo pela questão da pandemia.
Nesse sentido, a rotina de trabalho da CPI da Covid era vista com muita atenção pela população, né? Lembro que foi um período de boom dos podcasts, por exemplo, porque as pessoas passaram a consumir muito mais conteúdo, já que não saíam de casa. Esse acompanhamento foi bem diferente do habitual de uma CPI sobre outros temas. Como você viu isso?
É, eu, por exemplo, na época da pandemia, fiquei um pouco viciada em assistir Big Brother, algo que eu nunca fui na vida. Eu via com uma amiga, cada uma em sua casa, a gente comentava, enfim. E aí quando o Congresso aprova a CPI, a gente terminou o Big Brother, e meio que nosso novo Big Brother, nosso novo reality foi a CPI. Então, no começo, eu acompanhei com essa amiga também, ela é produtora de cinema. E eu, na verdade, já queria fazer alguma coisa sobre a pandemia. Achava que tinha que ser documentado o que estava acontecendo, sabia que era um material importante, historicamente mesmo. Primeiro, cheguei a cogitar em fazer alguma coisa relacionada aos entregadores, que tiveram um papel muito importante. Durante a pandemia, eram personagens importantes, mas que às vezes as pessoas esqueciam que estavam ali na rua para poder todo mundo ter comida, mas não foi para frente. E aí quando a gente começa a assistir a CPI, eu comentei com essa amiga: ‘cara, vamos vamos filmar isso, vamos acompanhar’. Ela achou a ideia boa, mas logo de cara ela falou que era inviável porque a gente estava vivendo um período de pandemia e ela como produtora não iria correr o risco de colocar a equipe em Brasília, porque naquele período inclusive não tinha vacina ainda. Eu falei que eu iria mesmo assim porque a minha intuição dizia que tinha alguma coisa importante ali que precisava ser documentada. Até então nem sabia ainda exatamente o que era porque a história estava sendo contada naquele mesmo momento, eu não tinha nenhum distanciamento histórico, mas minha intuição dizia que eu deveria ir, que ali tinha alguma coisa importante, era uma investigação em curso que seria importante. Acabou que para mim foi mais fácil porque tenho família em Brasília. Ao mesmo tempo, era a primeira vez que realmente eu estava saindo porque em 2020 fiquei só em casa. Era um momento que não havia vacina, então ia morrendo de medo. Mas, eu fui, e não peguei covid, ainda bem.
E sobre a organização do material? Imagino que deu bastante trabalho porque, como você disse, as coisas estavam acontecendo e você tinha ido ali sem uma ideia estruturada, além disso, tinha um grande número de personagens, dados, informações e possibilidades de abordagem. Fala um pouco do fio narrativo.
Sim, deu muito trabalho. Como a história estava sendo contada ao mesmo tempo que eu estava filmando, eu saía filmando loucamente tudo, porque eu não sabia sabia qual seria o final dessa história, não sabia o que era importante, o que não era, então tudo para mim era importante, então, eu filmava tudo. Estamos lançando esse projeto cinco anos depois, mas praticamente foi um ano inteiro só para organizar o material que eu filmei, para catalogar, para poder organizar e uns três anos de montagem. Tinha muita imagem, e poderia ir por vários recortes. Acabei focando em três atos. O primeiro ato é sobre gabinete paralelo, o segundo ato é sobre corrupção e o terceiro ato é sobre as fake news, o negacionismo. São três pilares importantes para a gente falar da irresponsabilidade do então presidente na época, da irresponsabilidade da gestão dele durante a pandemia.
Puxando o gancho sobre responsabilidades nesse período da pandemia, qual a sua opinião sobre o lançamento do filme em um ano eleitoral onde esse assunto deve voltar à tona.
Bom, ele não foi planejado para ser lançado esse ano. Eu imaginava, inclusive, que, na verdade, esse filme poderia ser lançado nas eleições passadas, mas foi inviável do ponto de vista da quantidade do meu material. Mas, acho que, na verdade, ele está sendo lançado no melhor momento possível. Um ano de eleição é sempre um ano importante, um ano no qual a gente vai tomar várias decisões que não são só para os próximos quatro anos, mas por muito tempo. Então, eu acho que o filme serve também como uma reflexão para a gente entender o que aconteceu no nosso país durante esse tempo, em um governo negacionista. Minha intenção com o filme não é mudar ninguém, não quero convencer ninguém, mas eu acho que ele tem um papel importante de reflexão mesmo. Eu acho que ali, no filme, está tudo muito claro o que aconteceu. Sobre o pensamento de um governo, e que ainda é o governo que está é é tentando voltar, né? O Flávio Bolsonaro é uma continuação do pai. Então, eu adoraria que o filme fosse acessado pelo máximo de pessoas possível porque eu acho que ele é importante para a gente, como sociedade, para gente poder pensar sobre o que a gente quer, né?
Você comentou em algumas entrevistas que esse filme trata de resgatar valores de memória e justiça, e não apenas um registro de bastidores. Como você amarra esses dois conceitos na perspectiva histórica?
Essa referência se dá porque o filme é sobre memória, responsabilidade e fala sobre democracia. Uma sociedade que esquece rapidamente suas tragédias corre o risco de repeti-las. O filme não explica a pandemia, mas tenta explicar como um país chegou a naturalizar uma tragédia. A CPI é a porta de entrada do filme, mas o filme é sobre o nosso país. Acredito que a memória é uma das coisas mais importantes pra gente cuidar da nossa democracia. Se nós, enquanto sociedade, enquanto país, não trabalharmos nossas memórias, fica muito difícil progredir. A importância dessa memória acaba, muitas vezes, esquecida. Acho que o cinema tem essa importância de manter a memória viva. Ao mesmo tempo, falo de justiça porque, como o filme mostra, foi algo que não houve. Ninguém foi punido, ninguém foi responsabilizado por seus atos durante a pandemia. Bolsonaro foi preso pela tentativa de golpe, mas não houve nem, ao menos, um pedido de desculpas. Acho que a sociedade brasileira precisa de reparação, de pedido de desculpas sobre o que aconteceu durante esse período. É tudo muito absurdo, como a gente esquece. Como é possível tocar a vida como se nada tivesse acontecido, sendo que a gente perdeu mais de 700 mil brasileiros. E segundo a doutora Margareth Dalcolmo, esse número é três vezes maior, inclusive. São famílias, o que ocorreu foi uma questão terrível de banalização da morte, e isso é uma das coisas mais terríveis, esse rebaixamento do valor da vida.
Durante o período da pandemia, a atuação política foi muito difícil. Os movimentos sociais, por exemplo, que são uma ferramenta de pressão, tinham uma tarefa enorme nas frentes de solidariedade nos territórios, além do fato de que realizar atos de rua era um risco grande de contágio naquele momento. Nesse sentido, o que podemos dizer da atuação da política institucional? Como você avalia o funcionamento dos trabalhos da CPI?
Primeiro, é preciso dizer que os movimentos sociais tiveram uma participação importantíssima. O MST alimentou um monte de gente, nem todo mundo ficou sabendo disso, mas eles tiveram um papel importantíssimo de manter muita gente com comida na mesa, o que naquele período era muito complicado. Sobre a CPI as pessoas falam sempre “a CPI não deu em nada”, mas, na verdade deu, né? Acelerou a questão da vacinação, paralisou um sistema de corrupção que estava em curso, que o filme mostra, toda aquela questão da Covaxin. E se eu fosse um juiz da Suprema Corte, inclusive, puniria Bolsonaro e seus colaboradores do gabinete paralelo por esse crime monstruoso com penas maiores do que a punição atual. Não quero diminuir o que ele fez durante o golpe, mas acho que ele tinha que ser responsabilizado, sim, pelo que ele fez durante a pandemia. O relatório da CPI é um relatório muito contundente. Infelizmente, as pessoas não foram punidas, não foram presas, como a gente esperava como resultado. Mas isso depende de outras instituições, como o Ministério Público, o Aras que arquivou. Até hoje, o Flávio Dino fala da tentativa de desarquivar, mas isso ainda não aconteceu. Então, infelizmente, não depende apenas daquele grupo que esteve à frente da CPI, que, inclusive, era um grupo bastante heterogêneo, alguns não eram nem do mesmo campo político e se juntaram por um bem maior, em uma situação que não era normal o que a gente estava vivendo e precisávamos que algo fosse feito com urgência. O trabalho da CPI foi produzir um registro, mas o que as outras instituições fizeram e deixaram de fazer com esse registro, eu acho que é uma outra discussão. É bom dizer que a democracia não depende só das instituições, mas também da capacidade de uma sociedade imaginar a si mesma. E o cinema tem um papel importante nisso porque ele participa dessa construção, das imagens de quem fomos e de quem desejamos ser. Ainda sobre a pergunta anterior, sobre justiça, acredito que isso que falta para lavar a alma e seguirmos em frente, acredito que o povo brasileiro merece essa reparação. O fato de não haver punição não significa que a investigação tenha sido irrelevante. Nem sempre existe uma relação direta entre gravidade de um acontecimento e a velocidade de responsabilização. A história está cheia de exemplos de investigações produziram efeitos anos ou décadas depois. Acho que o que vale a gente refletir é porque uma tragédia dessa magnitude produziu tão pouca responsabilização. Essa história, na verdade, ainda não foi terminada, ainda não foi resolvida. Inclusive acho que a questão da pandemia ainda é um trauma coletivo que a gente ainda não resolveu, ainda tá aí, né? Foram muitas coisas que aconteceram, muitas perdas.
O governo em questão naquela época, ao contrário da CPI, dava sinais de que aquele número de mortes era uma consequência natural da pandemia, como se nada pudesse ter sido feito de diferente. Mas os trabalhos da comissão apontaram para a desinformação proposital, o apoio aos tratamentos sabidamente ineficazes, e a omissão da urgência que o assunto merecia. Em que medida é atual debater esse ponto?
Eu acho que a pandemia ela não acabou simbolicamente no Brasil. A gente saiu de uma emergência sanitária, mas não elaborou ainda coletivamente esse trauma. Acredito que a importância do filme seja justamente a necessidade de lembrar. E eu acho que o filme dialoga totalmente com o presente, na questão da temática sobre desinformação, sobre responsabilidade pública, ataques à ciência, a fragilidade democrática, tudo isso são questões importantes agora no contexto de eleição. Então, acho que entender a pandemia é também entender os desafios que o nosso país ainda enfrenta, né? Não acho que foi só uma questão do passado, a gente ainda enfrenta essas questões, da desinformação, do ataque à ciência, da fragilidade democrática. Sem memória não existe aprendizado.
Sobre a questão do luto coletivo, que você apontou, como está a recepção do filme? Estão sendo realizados debates e exibições em que você está presente para dialogar. Quais comentários você tem escutado?
Olha, sim, eu escuto “poxa, acho importante a questão do tema, mas eu não sei se eu consigo ver o filme”. Mas a recepção dos lugares que eu tenho ido tem sido a melhor impossível. Na verdade, tudo com esse filme aconteceu de uma maneira bastante orgânica. Ainda não consegui rodar o país inteiro, mas, nos lugares onde estive, nos debates, que, na verdade, tem funcionado muito mais como espaços de escuta do público, foi uma experiência importante, das pessoas colocarem para fora as coisas, justamente, nesse sentido de poder trabalhar junto esse luto. Para mim era muito importante que fosse em uma sala de cinema porque eu acho que durante a pandemia a gente viveu períodos de isolamento, muitas pessoas sozinhas. Então, acho que o cinema tem esse espaço do coletivo. Em Manaus, por exemplo, foi uma grande catarse, a experiência de troca com as pessoas. Uma senhora que perdeu um filho, um jovem e ela falou uma coisa bem bonita: ‘olha, eu vi que ia ter esse filme aqui na cidade e eu pensei, eu não queria vir, eu pensei muito em vir, mas eu decidi vir. Gostei muito do filme, achei o filme importante, principalmente, porque eu tô saindo agora dessa conversa fortalecida’. Eu acho que esse é um lugar que o filme dá também. Quando a gente fala de justiça, eu acho que o filme dá esse gás para a gente não desistir e lutar.







