Por Lourenço Paulillo, poeta e cronista
Há dias em que somos Tarzan, saltando de cipó em cipó, com destreza. Ou o Super Homem, que se lança no ar em missões heroicas. Ou simplesmente um garoto robusto que celeremente escala a velha goiabeira para alcançar a fruta madura.
Há dias, ao contrário, em que somos uma formiguinha, tentando proteger-se da tempestade debaixo de uma folha. Ou o “pequenino grão de areia”, da canção eternizada por Dalva de Oliveira.
Há dias em que nos emparelhamos com a majestosa águia. Visão aguçada, poderosa, altaneira. E dias em que somos um indefeso sapinho, uma lagartixa.
Há dias em que o sol brilha tão forte que nos ofusca, outros em que nuvens de chumbo nos perseguem.
Dias de perdas e de ganhos, como diz Lya Luft.
Há dias em que desafiaríamos as ondas de um surfista campeão. E aqueles em que nos esconderíamos num buraquinho de siri da praia.
Dias em que nos inspira o sorriso de uma criança, em outros a vista embaçada nada vê.
Dias de brisa, dias de tufão. De pequenas conquistas, pequenos desejos realizados, a chegada de um amigo distante. De decepção, amargura, a partida de um ente querido.
Assim corre a vida. Nunca linear, plana, lagoa serena. Nunca monótona, talvez por isso mágica, inquietante, generosa, às vezes traiçoeira, pregadora de peças.
Há o dia de alegremente comemorar os quinze anos do neto. E o da profunda tristeza de ver inúmeras crianças, famílias inteiras dizimadas pelas abjetas guerras.
São amores, desamores, paixões, desilusões, graças recebidas, promessas nunca cumpridas. São cantos, desencantos, silêncios, verdades, mentiras, saberes, sabores, dissabores.
Podemos estar lá no alto e subitamente despencar, e novamente ascender.
Não temos escolha. Nem sempre seremos aquela “pluma tão leve que o vento vai levando pelo ar”, dos versos da música de Vinícius de Moraes e Tom Jobim.
Nem um saltitante sabiá, à procura de uma sementinha entre as folhas secas do chão.
Temos que estar travados a algo que nos impeça de despencar, machucar, como numa montanha russa.
Notas:
- Um pequenino grão de areia, ou Estrela do mar – 1951 – canção de Marino Pinto e Paulo Soledade.
- Perdas e Ganhos, 2003, livro de Lya Luft.
- A Felicidade, Vinícius de Moraes, Antônio Carlos Jobim.
- Roda Viva – 1967 – música de Chico Buarque.







