‘Alba, a beata comunista’: autobiografia reúne memórias da militância religiosa e comunista

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A trajetória política e profissional de Alba Correia é marcada pela dedicação e pelo empenho pessoal na luta contra a ditadura militar

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Foto: Alba Correia entrega manifesto a Tancredo Neves; José Costa e Benedito de Lira observam | Arquivo.

Por Geraldo de Majella*

A professora Alba Correia (1938) é uma histórica militante e dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Alagoas. A autobiografia Alba, a beata comunista, organizada pela jornalista Cíntia Ribeiro, é uma fonte valiosa para a história da esquerda no estado.

Aos 88 anos, a serem completados no dia 13 de maio, Alba integra uma geração de militantes católicos que se dedicou à educação e à organização de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Na primeira metade da década de 1960, essa atuação incluiu a formação de sindicatos rurais, como parte das ações da Igreja Católica nos anos que antecederam o golpe militar de 1964.

Nesse contexto, a Igreja Católica dispunha, em sua estrutura, de diversos setores voltados à organização e mobilização de operários e estudantes, com forte atuação na formação social e política, especialmente entre leigos. Esses movimentos integravam a chamada Ação Católica e exerceram grande influência na formação de militantes no Brasil. A Juventude Operária Católica (JOC) reunia jovens operários urbanos, enquanto a Juventude Estudantil Católica (JEC) organizava estudantes do ensino secundário, ambas orientadas pelo método “ver, julgar e agir”, que estimulava a leitura crítica da realidade.

Já o Movimento de Educação de Base (MEB), criado no início dos anos 1960, tinha como foco a alfabetização de jovens e adultos, especialmente no meio rural, utilizando, inclusive, rádios educativas. Mais do que ensinar a ler e escrever, essas iniciativas buscavam formar consciência social e estimular a organização popular, influenciando diretamente trajetórias de militância política no país. Muitos de seus participantes, como no caso de Alba Correia, migraram posteriormente para movimentos populares e partidos de esquerda.

Após o golpe militar de 1964, a Ação Popular (AP) — organização política de esquerda originada de setores da militância católica — instalou uma base no então distrito de Pariconha, à época pertencente a Água Branca (AL), onde desenvolveu atividades de organização e formação política como forma de resistência à ditadura. Militantes da AP, como Aldo Arantes, ex-presidente da UNE, perseguidos pela repressão do regime, foram deslocados, junto com suas famílias, para atuar em atividades de organização política no meio rural. Alba Correia e outros militantes alagoanos, na clandestinidade, também apoiaram as ações desse núcleo estruturado em Pariconha.

A decisão da AP de adotar o marxismo-leninismo e se vincular à China transformou a antiga estrutura católica em uma organização revolucionária, a Ação Popular Marxista-Leninista (APML), no final da década de 1960. Em 1973, uma nova mudança de rumo ocorreu com a fusão da APML ao PCdoB. Essas transformações foram acompanhadas por Alba Correia, que, aos 88 anos, permanece uma ativa militante comunista.

Com a redemocratização, os partidos comunistas foram legalizados em 1985, durante o governo Sarney. No ano seguinte, em 1986, Alba foi candidata a deputada estadual pelo PCdoB, ainda utilizando a legenda do PMDB, já que o processo de legalização do partido em Alagoas só seria concluído em 1987, com a formalização das filiações de sua militância.

A trajetória política e profissional de Alba Correia é marcada pela dedicação e pelo empenho pessoal na luta contra a ditadura militar e na transição para a democracia. Sua atuação se estendeu do período mais repressivo do regime à chamada Abertura Política, quando a militância de esquerda e comunista voltou a ocupar espaços públicos. Participou de momentos importantes desse processo, como as eleições de 1978, a campanha pela Anistia, as eleições para governador em 1982 e a eleição de Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, que derrotou o candidato apoiado pelos militares, Paulo Maluf.

Em todos esses momentos, a professora Alba teve atuação destacada, tanto no movimento sindical dos professores quanto no movimento feminista em Alagoas.

Não é necessário, do ponto de vista da honestidade intelectual, concordar com o ideário de Alba Correia e dos comunistas para reconhecer sua relevância como militante política em Alagoas. Trata-se de uma trajetória marcada pela integridade e pela dedicação às causas da justiça social, da democracia e do socialismo.

*Historiador e jornalista

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