As Mulheres das Canções

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Por Lourenço Paolillo, poeta e cronista

Vários compositores se reúnem para comemorar a vida, trocar experiências, jogar conversa fora. A certa altura, têm a ideia de relembrar canções que invocam mulheres. Antigas namoradas, paixões que se apagaram, casos de amor mal resolvidos.





Cada um segurando o seu violão, Gilberto Gil pede licença para ser o primeiro. Quer reverenciar seu conterrâneo e fonte de inspiração Dorival Caymmi. Sedutor, seu ídolo cantou muitas mulheres: Juliana, Gabriela, Dora, Marina, Doralice, Adalgisa, Tereza, e ainda Dona Chica e…Mãe Menininha de Gantois.

E Gil opta pela mais cantada:
“Marina, morena, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor,
Não pinte esse rosto que eu gosto, Que eu gosto e é só meu,
Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”…

Paulinho da Viola comenta:
Gil, você escolheu logo Caymmi, que com seu charme cantou todas as mulheres do mundo!

E Paulinho se decide por Gabriela:
“Chega mais perto, moço bonito
Chega mais perto, meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol”…

Chico César, que desde menino trabalhava numa loja de discos na sua pequena Catolé do Rocha, Paraíba, comenta:
Já que estamos na Bahia, vou lembrar a música que Caetano Veloso compôs pra sua irmã caçula, Irene:
Eu quero ir, minha gente
Eu não sou daqui
Eu não tenho nada, nada
Quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada
“…

Chico recorda que Caetano a compôs na época da ditadura, e que, exilado em Londres, tinha muita saudade da família e de sua Santo Amaro da Purificação.

E ainda o paraibano brinca com Paulinho:
Você não cantou nenhuma mulher!

Paulinho:
Claro que cantei! Até me casar cantei muitas.

Caetano sobre Irene:
Pois é, eu tinha 26 anos. Acabo de completar 84!

Quem também entrou nos oitenta é o Ivan Lins. Certo, Ivan?

Sim, eu também era bem jovem quando compus Madalena, em parceria com Ronaldo Monteiro de Souza:

“Ê Madalena
O meu peito percebeu
Que o mar é uma gota
Comparado ao pranto meu”…

Ivan se dirige a Chico Buarque:
Chico, você não fica atrás do Caymmi. Também cantou muitas mulheres: Angélica, Bárbara, Ana de Amsterdã, Madalena vai pro Mar, Carolina, Geni.

Angélica é a mais triste, diz Djavan. E lembra:
“Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar”…

Sim, foi composta em parceria com Miltinho, homenagem póstuma à estilista Zuzu Angel, que lutou até a morte para desvendar o desaparecimento do filho Stuart Angel durante a ditadura.

A maioria das músicas do Chico traz versos tristes, comenta Caetano:
“Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo”…

Chico entra na conversa:
Quando me juntei ao Edu Lobo pra compor a trilha do Grande Circo Místico, surgiu Beatriz:
“Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ah! diz
Quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz”…

Muito linda! Exclama Milton Nascimento. Deve ter muita Beatriz por aí por causa dessa música.

E Chico:
Mas nada se compara à sua Maria, Maria!
“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria, mistura a dor e a alegria”…

Zeca Baleiro:
Maria será eternamente o nome mais cantado, mais louvado. Maria é Nossa Senhora.
Tem a Maria do Ary Barroso:
“Maria
O teu nome principia
Na palma da minha mão
E cabe bem direitinho
Dentro do meu coração”…

Tem Maria no Carnaval:
“Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria”…

Essa é do Luiz Antonio e do Jota Júnior.

Falando em Carnaval, logo o grupo lembra da Aurora, do Mário Lago e Roberto Roberti:
“Se você fosse sincera
Ô-ô-ô-ô Aurora
Veja só que bom que era
Ô-ô-ô-ô Aurora
Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado para os dias de calor”…

Gente, é mulher que não acaba
mais, diz Lenine.
Uma lindona é Luísa. E pensar que o Tom Jobim se inspirou nos cabelos loiros de Vera Fischer!
“Vem cá, Luísa, me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Me dá tua boca e a rosa louca
Vem me dar um beijo e um raio de sol”…

A noite escorre sem fim. Juntos cantarolam a canção mais romântica de Juca Chaves:
“Na alameda da poesia
Chora rimas o luar
Madrugada e Ana Maria
Sonha sonhos cor do mar
Por quem sonha Ana Maria
Nesta noite de luar”.

E Tom Jobim
lembra da música de Capiba, que fez o pequenino Caetano sugerir aos pais o nome da então recém-nascida irmã:
“Maria Bethânia, tu és para mim
A senhora do engenho
Em sonhos te vejo
Maria Bethânia
És tudo o que tenho”…

Em seguida todos cantam Emília, do Wilson Baptista e Haroldo Lobo:
“Quero uma mulher
Que saiba lavar e cozinhar
E de manhã cedo
Me acorde na hora de trabalhar”…

A roda vai pegando
fogo! É a vez de Luiz Gonzaga entoar sua própria composição, com Humberto Teixeira. Ele é o único com sanfona:
“Kalu, Kalu,
Tira os óio de riba d’eu
Kalu, Kalu,
Não me tente se você me esqueceu”..

E quem não conhece Conceição, do Jair Amorim e Dunga?
“Conceição
Eu me lembro muito bem
Que vivia no morro a sonhar
Com coisas que o morro não tem”…

Tom recorda que se juntou a Billy Blanco pra falar da disputada Teresa da Praia:
“É a minha Teresa da praia
Se ela é tua, é minha também
O verão passou todo comigo
O inverno pergunta com quem”…

E a Maringá, na verdade Maria do Ingá, que virou nome de cidade e imortalizou
Joubert de Carvalho:
“Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante
Que mais dava o que falar
Maringá, Maringá,
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste”…

E o que dizer da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago?
“Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher
Às vezes passava fome a meu lado
E achava bonito não ter o que comer”…

Nesse momento pinta o romantismo outra vez, afinal já vai longa a madrugada. Nada como a Laura, de João de Barro e Alcyr Pires Vermelho:
“Laura, um sorriso de criança
Laura, nos cabelos uma flor
Oh! Laura
Como é linda a vida
Oh! Laura
Como é lindo o amor”…

A longa noite vai findando. Festivamente, todo o grupo, como um afinado coral, decide que o fecho de ouro deve ser a Rosa, do Pixinguinha:
“Tu és
Divina e graciosa
Estátua majestosa
Do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida
É preferida pelo beija-flor”…

Como num ritual, todos os compositores, com seus violões e Luiz com sua sanfona, seguem caminhando….quase flutuando… pra ver o sol nascer da linha do horizonte do mar.

Lourenço Paulillo
13 de setembro de 2026.

Ano do lançamento e intérprete original das canções, na ordem citada na crônica:

  • Marina: 1947, Francisco Alves
  • Modinha para Gabriela: 1975, Gal Costa
  • Irene: 1969, Caetano Veloso
  • Madalena: 1971, Elis Regina
  • Angélica: 1978, Quarteto em Cy e Miltinho
  • Carolina: 1967, Chico Buarque, Cynara e Cybele
  • Beatriz: 1983, Milton Nascimento
  • Maria, Maria: 1978, Milton Nascimento
  • Maria: 1932, Sílvio Caldas
  • Lata d’Água: 1952, Marlene
  • Aurora: 1940, Joel & Gaúcho
  • Luísa: 1981, Tom Jobim
  • Por quem sonha Ana Maria: 1960, Juca Chaves
  • Maria Bethânia: 1946, Nelson Gonçalves
  • Emília: 1941, Vassourinha
  • Kalu: 1952, Dalva de Oliveira
  • Conceição: 1956, Dircinha Batista, e no mesmo ano Cauby Peixoto
  • Teresa da Praia: 1954, Dick Farney e Lúcio Alves juntos
  • Maringá: 1932, Gastão Formenti
  • Amélia: 1942, Ataulfo Alves
  • Laura: 1957, Jorge Goulart
  • Rosa: 1917, Pixinguinha. Versão apenas instrumental, sob o nome Evocação. Apenas em 1937 ganhou letra, que, segundo o próprio Pixinguinha, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som – RJ, é de autoria de Otávio de Souza, jovem mecânico carioca do Méier ou Engenho de Dentro. No entanto, dada a erudição da letra, alguns pesquisadores tendem a atribuí-la a Cândido das Neves, conhecido como Índio, e parceiro de Pixinguinha em outras composições.
    Tornou-se então Rosa, originalmente na voz de Orlando Silva.

Fonte de Pesquisa:
Coleção “História da Música Popular Brasileira”, editor Victor Civita, copyright 1970 Abril S.A. Cultural e Industrial.
E meu ” baú pessoal de memórias”.

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