E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, entra em campo para falar de um craque na amplitude da palavra, que fez o jogo da vida como meta pela perfeição na dignidade. Coisa raríssima nos campos da vida atual.
Daniel, o pai de Benedito, de vez em quando contava para o filho umas histórias de grandes jogadores, mais ou menos como essa aqui:
Aquele velho que joga bola no campinho sem ninguém você sabe quem é? Não? Mas como não? Bem, sempre sem ninguém é exagero, modo de dizer. Quase sempre sem ninguém, treinando como se estivesse em separado. Ele chega cedo, antes do sol. Duas, três bolas, chuteira clássica sem marca, na graxa. Fazendo arcos impossíveis. Acertando a maioria das bolas na gaveta.
Por vezes chega um desavisado e ele pede pra agarrar. E, em geral, depois de aquecido, o que o pobre arqueiro pode fazer é pegar a bola no fundo das redes. Já reparou que a bola quando entra na gaveta faz um zunido? Quando perguntam para ele se ele já foi jogador profissional, ele desconversa.
O realmente bom no Brasil opera com a espontaneidade do amador, o sujeito faz coisas do arco da velha como quem estivesse cortando a unha do pé, ouvindo chorinho no quintal de casa. É assim no futebol e na música. Mas com aquela pinta não dava para não ser do riscado do campo.
Ele fica treinando, sempre treinando com bola. O aquecimento é leve, de gente precavida que conhece o corpo. De vez em quando ele joga bola com outras pessoas, no futebol sub-50 ou sub-60 ou sub-70, joga com a camisa 5, de cabeça erguida, com a barba feita, os meiões levemente abaixados. Ele é bom de bola, dá gosto de ver.
Ele foi um grande jogador. Um jogador que brigou muito com os dirigentes pela sua liberdade. Ele quis negociar o próprio preço, o preço justo pelo seu trabalho, numa época em que se assinava contrato em branco. E claro que sua atitude incomodou, não é? Incomodou a tal ponto que a carreira de jogador, que é curta para todo mundo, foi para ele mais que curta ainda, curtíssima.
Ele acabou procurando outros meios de campo de bancar a vida. Ele acabou jogando em outros times grandes e ins tantos menores, que, com ele, davam gosto de ver jogar. Isso impressiona. Uma liderança como ele eleva o nível do futebol.
Se ele desistiu do futebol? Do futebol enquanto paixão, enquanto jogo, disso ele jamais desistirá. Difícil é a vida e seu ofício. E é por isso que todas as manhãs, quando ele pode, ele acorda bem cedo, veste seu uniforme de treino, a sua chuteira, leva as bolas para o campo, para o campinho, treina passes, chutes, lançamentos, para o assombro de Geraldinos e Arquibaldos.
Às vezes, só ele e as recordações dos grandes jogos. E, de quando em quando, os amigos de bola pintam, os gatos pingados. Alguns estão mais velhos do que ele, alguns se perderam. Não é difícil se perder quando a fama vai embora. É como se fosse a tal da lei da inércia, sabe? Você continua em movimento quando o movimento já parou. A lei da inércia, em alguns casos, é muito mais cruel que a lei do Gérson.
O curioso é que ele se ajuda nos ajudando. Eu explico. Parece que ele tem o dom de, durante as conversas, resgatar a dignidade dessas pessoas. Por isso que, além de grande jogador de futebol, ele poderia ser terapeuta, psicólogo, médico, se é que não foi ou que está sendo.
Ele não tem papo de coach coisa nenhuma. No fundo, no fundo, o que ele diz na preleção ou não resenha é que nós somos iguais; se não somos tão iguais assim, somos parecidos, parecidíssimos. Seus problemas também são os meus. Dá um abraço, amigo.
Tio Ruivo o conhecia bem dos campos, eles se respeitavam. Quando se viam, se exclamavam, trocavam passes e palavras sussurradas, riam os dois, eram amigos de longa data. Ele, o D. Pedro II, que era como a gente o chamava, por gozação, devido àquela de barba branca bem aparada. O velho que nunca dizia seu nome.
Vai lá, filho, pode perguntar para ele se ele é ou não é o Afonsinho.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.
Obs. Na foto, o retratado nesta crônica, junto a ele um certo camisa 10.







