Ausência de memória e ação de influenciadores, o combo que ameaça a democracia

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Na arquitetura da desinformação, a falta de memória dá espaço a narrativas mentirosas. E as mentiras, na boca dos influenciadores, viralizam e ressignificam a realidade

Compartilhado da Rede PT de Comunicação




Por Eliara Santana (*)

A ausência de memória, do ponto de vista coletivo, é uma construção articulada pelos mesmos promotores de desinformação. A manutenção da memória é algo fundamental para a democracia, para o funcionamento institucional porque, entre outros atributos, ela possibilita que se façam conexões entre fatos e acontecimentos e possibilita compreender o papel de atores políticos e influenciadores que redesenham os fatos e aplicam a regra “dois pesos e duas medidas” em vários contextos.

A falta de memória coletiva impulsionada pela desinformação, pelo contrário, impõe narrativas inverossímeis que viralizam e distorce aspectos históricos fundamentais. Um exemplo são os diversos “cursos”, em alguns portais, que recontam acontecimentos históricos essenciais à memória nacional – como a ditadura militar ou a pandemia – e impõem narrativas mentirosas com falseamento de dados e fatos.  

Como já sabemos em relação a tudo o que se refere à sistematização da desinformação, nada é aleatório ou por acaso. É bastante conhecida a fala popular de que “brasileiro não tem memória”. A máxima pode até ser considerada verdade, mas não é algo que deva ser tomado como constitutivo do cidadão, pois não integra o que é “ser brasileiro”.

Essa máxima popular é uma instrumentalização, uma construção da arquitetura da desinformação, uma vez que a não preservação da memória coletiva e política pode ser algo muito benéfico ao projeto de poder da extrema direita na medida em que há um apagamento da memória coletiva e uma reescrita da história em bases que agradam a esse grupo e impedem que se forme uma reflexão crítica sobre o país, seus desafios principais e as formas de enfrentamento. No rescaldo da ausência de memória, tudo se mistura e é diluído. 

“O mito da caverna”, de Platão, que faz parte do livro “A República”, ajuda a ilustrar o que essa “não memória”, o que essa névoa que encobre os sentidos é capaz de fazer. No relato, de modo extremamente resumido, pessoas estão presas numa caverna desde a infância e veem somente sombras projetadas, que são tomadas como a única realidade possível. Podemos considerar que é dessa forma que age o arcabouço da desinformação, projetando sombras sobre os acontecimentos para ludibriar e manter presos os cidadãos.

E esse processo conta com inúmeros recursos tanto em termos de estratégias – manipulação de fatos, ressignificação da realidade, mentiras que viralizam – quanto em termos de “mão de obra especializada”.

E é aí que entra uma figura que tem ganhado muita proeminência e destaque no Brasil: o influenciador, que já conquistou, no imaginário nacional, mais credibilidade que os jornalistas.  

Papel dos influenciadores 

As campanhas coordenadas de desinformação usam, cada vez mais, influenciadores para divulgarem inverdades, alimentarem narrativas falsas e darem pesos diferentes a acontecimentos, contribuindo para a instituição de falsas memórias forjadas a partir da mentira repetida e reafirmada.

Nesse sentido, é importante revelar que existe, no Brasil, em pleno funcionamento desde 2025, um Instituto de Influenciadores, com CNPJ e coordenador – Deusélis Filho, que é assessor parlamentar em Brasília. Na página dele e na página do Instituto há manifestação a favor de Flávio Bolsonaro e convocações para atos no 7 de setembro, assim como gritos de ordem pedindo “fora, Lula” e “fora, Moraes”.

Na última semana, três reportagens dinte e conturbado que vivemos no Brasil e no mundo, o combo ‘ausência de memória coletiva + ação seletiva dos influenciadores’ é extremamente danoso à democracia e às instituições. 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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