Joanne Mota, compartilhado de Fórum 21
A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em uma nova fase de tensão — e, desta vez, a disputa não se limita às tarifas comerciais. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
A poucos meses das eleições presidenciais de outubro, Washington e Brasília trocam sinais cada vez mais explícitos sobre soberania, interferência política e os limites da influência norte-americana sobre a maior democracia latino-americana. O governo Luiz Inácio Lula da Silva tenta responder sem romper os canais diplomáticos, mas também sem aceitar que a pressão externa se transforme em tutela.
É nesse cenário que a decisão de postergar a aprovação do novo embaixador dos EUA, a abertura do processo de reciprocidade comercial e a aproximação com o México ganham significado político.
Segundo o argentino Ámbito, Lula afirmou que só analisará a indicação de Daniel Pérez para a embaixada norte-americana depois das eleições de 4 de outubro. O nome escolhido por Donald Trump já recebeu aprovação do Senado dos Estados Unidos, mas ainda depende do agrément — o consentimento formal do país que receberá o diplomata. A questão, portanto, não é simplesmente protocolar. Lula questionou o fato de Washington ter anunciado o indicado antes de obter a anuência brasileira, além de colocar em dúvida a urgência do governo Trump depois de mais de um ano de vacância do posto.
A decisão ganha outra dimensão diante das acusações feitas pelo governo brasileiro de que setores da administração Trump estariam tentando interferir no processo eleitoral brasileiro. Lula afirmou que pretende conversar diretamente com o presidente norte-americano para pedir que os Estados Unidos não se intrometam nos assuntos internos do Brasil. A mensagem é cuidadosamente calibrada: Brasília não anuncia uma ruptura com Washington, mas estabelece uma fronteira. Relação diplomática, sim; ingerência, não. A soberania nacional volta ao centro do discurso presidencial justamente quando a eleição brasileira passa a interessar cada vez mais à política externa norte-americana.
No campo econômico, o movimento é semelhante. O governo brasileiro iniciou formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica para responder às tarifas impostas por Washington. Lula resumiu sua posição com uma frase que rapidamente ganhou circulação internacional: o Brasil precisa mostrar que “não é pouca coisa”. A formulação pode parecer coloquial, mas contém uma mensagem geopolítica bastante precisa: o país pretende negociar com os Estados Unidos a partir de uma posição de Estado soberano, e não como um mercado periférico obrigado a aceitar unilateralmente as decisões da potência dominante.
A palavra-chave, contudo, é reciprocidade — e não retaliação automática. O procedimento aberto pelo governo ainda exige consultas aos setores econômicos atingidos e avaliações sobre quais medidas poderiam ser adotadas. A cautela tem uma razão concreta: uma escalada tarifária indiscriminada também poderia atingir empresas brasileiras dependentes de insumos norte-americanos e pressionar preços internos. O próprio comportamento do mercado revela o custo potencial da crise. Nesta sexta-feira, o dólar chegou a R$ 5,22, enquanto o Ibovespa acumulou a nona sessão consecutiva de queda. (Correio da Manhã)
Economia na disputa
É justamente esse componente econômico que aparece no olhar da imprensa financeira internacional. A Bloomberg destacou a queda dos ativos brasileiros diante da crescente preocupação dos mercados com as eleições e com a possibilidade de uma vitória de Lula. O mercado, como de costume, apresenta suas próprias ansiedades como se fossem uma espécie de lei natural.
Mas há uma questão política por trás da volatilidade: investidores não observam apenas números fiscais ou projeções de juros; também precificam a disputa pelo projeto de país e os riscos associados à crescente tensão entre Brasília e Washington. A economia, nesse caso, aparece como palco e instrumento de uma disputa muito mais ampla.
Lula e Sheinbaum
Enquanto a pressão norte-americana aumenta, Lula também movimenta outra peça importante do tabuleiro: a integração latino-americana. Em conversa por videoconferência, a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum e o presidente brasileiro discutiram comércio, conjuntura internacional e, sobretudo, a cooperação entre Petrobras e Pemex. O argentino Página/12 classificou a conversa como de “importância estratégica”. O adjetivo não é exagerado. A aproximação entre as duas maiores economias da América Latina cria possibilidades de cooperação em energia, refino, exploração, comércio e investimentos — áreas particularmente sensíveis em um cenário de disputa pela soberania sobre recursos estratégicos. (Página|12)
A parceria entre Petrobras e Pemex merece atenção especial porque ultrapassa a lógica imediata de uma troca comercial. O acordo firmado em junho prevê cooperação na exploração e produção de petróleo, inclusive em águas profundas, aproveitando a experiência brasileira em operações offshore. As empresas também avançam em entendimentos envolvendo refino, processamento e comercialização de derivados. Em um momento no qual Washington tenta ampliar sua capacidade de pressão sobre governos latino-americanos, a construção de cadeias de cooperação entre empresas estatais da região representa uma alternativa concreta à velha lógica de dependência. Não se trata de substituir uma dependência por outra, mas de ampliar as possibilidades de decisão soberana.
Sheinbaum também fez questão de reconhecer resultados do governo Lula, mencionando crescimento econômico, geração de empregos, redução do desemprego, valorização do salário mínimo e melhora das condições de vida. A manifestação ocorre às vésperas da eleição brasileira e adquire, portanto, evidente dimensão política. Ao mesmo tempo, Lula levou à conversa uma proposta de Janja para uma iniciativa internacional de combate ao feminicídio, enquanto os dois presidentes reafirmaram apoio ao multilateralismo e à candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral da ONU. A agenda mostra que a articulação Brasil–México não está restrita ao petróleo: envolve também democracia, direitos humanos e uma determinada visão sobre a ordem internacional. (Página|12)
Eleições no Brasil
É nesse ambiente que começa oficialmente uma das eleições mais importantes da história recente brasileira. A agência italiana ANSA destaca que Lula e Flávio Bolsonaro lançarão suas campanhas neste domingo em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente. Lula escolheu Vila Euclides, no cinturão industrial paulista — território ligado à sua trajetória sindical e à origem política do PT. Flávio, por sua vez, aposta em Copacabana, símbolo das grandes mobilizações bolsonaristas. Não é apenas uma escolha logística: são duas imagens de Brasil colocadas em disputa.
O cenário internacional, portanto, já se mistura com a batalha eleitoral doméstica. De um lado, Lula procura apresentar a eleição como uma escolha entre um Brasil soberano, socialmente inclusivo e capaz de dialogar com diferentes polos do mundo e um projeto alinhado à extrema direita internacional. De outro, Flávio Bolsonaro tenta transformar segurança pública, combate ao crime e uma agenda econômica de redução do Estado em eixos de mobilização, ao mesmo tempo em que mantém aproximação política com setores do governo Trump. A disputa deixa de ser apenas sobre quem ocupará o Palácio do Planalto: envolve também qual será o lugar do Brasil no mundo.
A sequência dos acontecimentos revela, assim, uma espécie de cerco político em formação. A pressão comercial de Washington, as acusações de interferência eleitoral, a disputa diplomática em torno do embaixador, a reação dos mercados e a entrada definitiva da eleição no calendário internacional acontecem simultaneamente. A resposta brasileira tem sido apostar em três frentes: negociação com os Estados Unidos, defesa dos instrumentos de reciprocidade e diversificação das relações internacionais, especialmente na América Latina. É uma estratégia que exige equilíbrio, porque soberania sem capacidade econômica pode virar apenas retórica; mas dependência econômica sem soberania política transforma qualquer negociação em submissão.
O que está em jogo, portanto, é maior do que a temperatura das relações entre Lula e Trump. A eleição brasileira ocorre em um momento de reorganização das forças políticas e econômicas internacionais, no qual países do Sul Global buscam ampliar sua margem de autonomia diante das grandes potências. A aproximação com o México, a defesa da Petrobras e dos ativos estratégicos, a utilização da reciprocidade comercial e a resistência à interferência externa apontam para uma tentativa de reposicionar o Brasil nesse tabuleiro. Em Brasília, a mensagem parece ser cada vez mais clara: o país quer negociar com Washington, mas não quer receber ordens. E, enquanto os mercados fazem suas apostas, a sociedade brasileira se prepara para decidir nas urnas que projeto de país pretende colocar de pé.
Até a próxima!
Jornalista, pós-graduada em Mídia, Política e Sociedade; Mestranda na Área de Comunicação, Cultura Digital e Tecnologia, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universade Federal do ABC (UFABC); pesquisadora do Grupo Observa da UFABC; e membro do Grupo de Trabalho “Cultura e Sociedade”, da Fundação Maurício Grabois.







