Barretos 2026: quando a “festa da família” vira palco de violência, intolerância e selvageria
Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí
Brigas, boneco enforcado e agressões: o outro lado da Festa do Peão de Barretos
A Festa do Peão de Barretos gosta de se apresentar como uma celebração do campo, da música sertaneja, do rodeio e dos valores do interior brasileiro. É um evento gigantesco, tradicional, capaz de movimentar milhões de reais e reunir artistas, empresários, políticos e milhares de visitantes.
Mas algumas das imagens que viralizaram durante a edição de 2026 mostram um lado muito menos romântico do chamado “Barretão”.
Não se trata de condenar uma festa inteira pelo comportamento de alguns de seus participantes. Seria injusto afirmar que milhares de pessoas que vão a Barretos para assistir a shows e rodeios compartilham das mesmas atitudes. Mas também seria ingenuidade tratar como simples coincidência a sucessão de cenas de violência, intolerância política, agressões e descontrole registradas dentro do mesmo ambiente.
Uma das cenas mais chocantes envolve Juliano Ferro (PL), prefeito de Ivinhema, em Mato Grosso do Sul. Ferro está em período de cinco dias de férias e decidiu aproveitar parte deles na Festa do Peão. Em vídeo publicado nas redes sociais, aparece participando de uma brincadeira com um manequim feminino. As imagens provocaram críticas justamente pelo simbolismo de violência contra a mulher. O prefeito rejeitou essa interpretação e atacou veículos de imprensa que repercutiram o episódio.
Juliano Ferro, prefeito de Ivinhema, MS pelo PL mesmo partido de Flávio Bolsonaro, deixou a cidade para curtir a Festa do Peão de Barretos por duas semanas achou divertido pegar uma boneca que representa uma mulher, arrancar a cabeça dela e passar por cima com um carro. pic.twitter.com/Gu6h9r6dbY
— Julio Freiress (@JFreiress_) August 27, 2026
A questão ultrapassa a brincadeira individual. Quando uma autoridade pública resolve transformar em diversão uma cena interpretada por tantas mulheres como representação de agressão feminina, é legítimo perguntar que mensagem está sendo transmitida. Um prefeito pode tirar férias, beber, dançar e se divertir. Evidentemente. O cargo público, porém, não entra de férias junto com seu ocupante.
Outra gravação é ainda mais perturbadora.
No camping da Festa do Peão, homens foram filmados espancando e simulando o enforcamento de um boneco identificado como “petista”. O objeto também carregava referências políticas e a minorias. Não se trata mais de uma vaia, de uma palavra de ordem ou de alguém manifestando sua preferência eleitoral. É a representação simbólica da eliminação física de um adversário político.
Que ABSURDO isso! No camping da festa de Peão de Barretos, simularam um linchamento e enforcamento de um petista. pic.twitter.com/bsgTBsbJmM
— Julio Freiress (@JFreiress_) August 26, 2026
Isso é muito grave.
Democracia é justamente o direito de votar contra o PT, contra Lula, contra Flávio Bolsonaro ou contra qualquer outro candidato. Enforcar simbolicamente quem pensa diferente pertence a outra lógica: a da política transformada em ódio.
Essa politização do Barretão ficou explícita também quando Flávio Bolsonaro participou do evento em 22 de agosto, acompanhado de aliados. Enquanto o candidato discursava sobre o agronegócio, parte do público respondeu com gritos de “Fora Lula”. Nada há de ilegítimo nisso: protestar contra um presidente é direito democrático. A fronteira é ultrapassada quando a manifestação política deixa de ser crítica e passa a flertar com representações de violência contra adversários.
E a violência não ficou apenas no terreno simbólico.
Uma mulher de 47 anos foi detida depois de uma confusão no Parque do Peão. Segundo o boletim de ocorrência, ela teria inicialmente agredido uma vendedora e, quando uma policial militar tentou intervir, deu um tapa no rosto da PM. O caso foi registrado como lesão corporal, resistência e desacato.
“Deus, Pátria e Família”: Mulher da tapa na cara de policial durante mais uma briga registrada na Festa do Peão de Barretos. pic.twitter.com/nPavdrVpcW
— Lázaro Rosa 🇧🇷 (@lazarorosa25) August 26, 2026
Até artista virou alvo.
Durante sua apresentação, Natanzinho Lima teve o cordão de ouro agarrado por uma pessoa no meio do público. O acessório não chegou a ser levado, mas o vídeo mostra o puxão sofrido pelo cantor quando atravessava a arena.
O cara tentou roubar o colar de ouro do cantor Natanzinho.
— Julio Freiress (@JFreiress_) August 23, 2026
Olha o tipo de gente que estava xingando o Lula nessa festa aí do peão de Barretos. pic.twitter.com/EcG4RUhrjr
Talvez nenhum episódio, porém, sintetize melhor o problema do que a confusão envolvendo os influenciadores César Rincon, Miguel Mendes e Kelly Fazendeira.
O desentendimento terminou com agressões e um trailer depredado. Rincon admitiu nas redes sociais ter usado um cinto para agredir Miguel. Também reconheceu que integrantes de sua equipe destruíram o trailer e posteriormente anunciou que arcaria com os prejuízos. Depois da repercussão, deixou a festa e pediu desculpas. A própria organização informou que estava apurando o caso.
Kelly Fazendeira resumiu o problema em uma pergunta incômoda: diante do que aconteceu, onde estava a segurança?
O influenciador César Rincon foi acusado de agressão após uma confusão na Festa do Peão de Barretos. Miguel Mendes e Kelly Fazendeira disseram que Rincon e seu grupo invadiram o trailer onde estavam e destruíram o local. pic.twitter.com/H1jUZ555D5
— Daniel Neblina (@danielneblina) August 26, 2026
A pergunta não deve ser respondida apenas em relação àquela briga.
Barretos precisa perguntar que tipo de ambiente pretende vender ao Brasil.
É o ambiente do esporte, da música sertaneja e da cultura do interior? Ou aquele em que agressividade, machismo, bebedeira levada ao limite, violência política e demonstrações de força passam a ser tratados como parte folclórica da experiência?
Existe ainda uma contradição difícil de ignorar.
Boa parte do discurso político associado ao universo conservador que ganhou visibilidade na festa fala insistentemente em família, ordem, respeito, autoridade e bons costumes. Mas família não combina com representação de violência contra mulher. Ordem não combina com briga generalizada. Respeito não combina com agredir policial. Bons costumes não combinam com depredar o patrimônio alheio. E democracia certamente não combina com simular o enforcamento de quem vota diferente.
O problema de Barretos 2026 não é haver gente de direita na festa. Nem haver bolsonaristas. Nem pessoas gritando contra Lula. Tudo isso faz parte de uma sociedade democrática.
O problema começa quando intolerância passa a ser confundida com coragem; brutalidade, com masculinidade; humilhação, com brincadeira; e violência política, com liberdade de expressão.
🚨 BARRETOS VIROU UMA DAS MAIORES VITRINES DO BOLSONARISMO.
— O Jornaleiro (@ojornaleirobr) August 23, 2026
Não é de hoje. Bolsonaro transformou a Festa do Peão em palco político, o agro abraçou a estética, o sertanejo entrou no pacote e, em 2026, Flávio, Tarcísio e Nikolas repetiram a fórmula.
Só que neste ano a vitrine… pic.twitter.com/Q3d21OtXXr
A Festa do Peão de Barretos é grande demais para fingir que as imagens que viralizaram não dizem nada.
Elas não representam necessariamente todos os que estavam ali.
Mas representam alguma coisa.
E talvez o retrato mais constrangedor deixado pelo Barretão de 2026 seja justamente esse: em meio a chapéus, botas, caminhonetes, camarotes milionários e discursos sobre “valores”, algumas pessoas pareciam empenhadas em demonstrar que civilidade, respeito às mulheres, tolerância política e convivência democrática eram artigos dispensáveis.
Se Barretos pretende continuar se apresentando como uma vitrine do Brasil rural, precisa decidir também qual Brasil deseja colocar nessa vitrine.







