Chico 8.2

Compartilhe:

Por Luis Pimentel, jornalista e escritor

Dezenove de junho é dia de reencontrar esta crônica, na caixinha de lembranças e de afetos. Gosto dela como gosto do aniversariante do dia, o nosso Chico Buarque de Holanda sem demanda. Não se trata de homenagem, porque a palavrinha anda muito gasta e, como dizia o bom e velho Jamelão, “não enche barriga”; se trata de uma tietagem mesmo.




Chico é imbatível: faz as canções que gostaríamos de fazer, escreve os livros que gostaríamos de escrever, declara o que gostaríamos de declarar e, quando veste sua alma com as idiossincrasias femininas, diz coisas que adoraríamos ouvir de algumas mulheres.


É assim, há quase seis décadas. Desde A banda que tocou para os que estavam à toa ou o Pedro Pedreiro que esperava o trem que não vinha, naqueles anos cinzas da segunda metade do século passado, quando os só trens traziam o que havia de pior, que Chico nos encantava com o domínio mais puro e perfeito da poesia que parecia perdida.

Depois nos encheu de orgulho com suas provocações sutis e inteligentíssimas ao regime militar que a todos nós oprimia. Não tínhamos voz nem talento para o enfrentamento; Chico tinha. Estávamos todos ali, com ele, por meio dele, também repetindo que o pior ia passar e que amanhã seria outro dia. E parece que Chico nos ouvia. Pois a cada dia compunha mais, duelava mais, nos representava mais e melhor, nos enchia de brios e de esperanças.


Chico Buarque de Hollanda, o menino da Maninha, que lembrava da jaqueira e ajudou a varrer tanta erva daninha chega aos 82 anos neste 19 de junho cultivando o sorriso que é quase grife – não se vê uma sombra de ódio nem de revanchismo em seu olhar – e o talento que impressiona a cada investida artística.

Tive a felicidade de entrevistá-lo durante quatro horas, juntamente com os demais editores e colaboradores da revista Bundas, no dia de seu aniversário de 56 anos, no ano 2000. Luis Inácio Lula da Silva era apenas um contumaz perdedor de eleições e se preparava para vencer a primeira, o Brasil vivia um interminável e cínico império tucano, e Chico já apontava para o que esperava que um governo socialmente comprometido viesse a fazer:

– Não é possível que não se possa dar escola, sapato no pé, comida, hospital, atendimento básico, que não se possa fazer no Brasil algo parecido com o que se faz em Cuba, que é um país tão pobre – nos disse.
Diante da pergunta de um dos tietes-entrevistadores (não há quem não se sinta tiete ao seu lado), “como você se sente, sendo o Chico Buarque”?, a resposta desconcertante:
– Eu não penso nisto. Tenho mais o que pensar.
Ao chegar em casa, a pergunta inevitável:
– Que tal a entrevista?
– Boa.
– Como é o Chico?
– Maneiro.


Pois me veio à mente certa noite no Carnaval de 1998, quando me preparava para ver o poeta pisar o chão de esmeraldas da Sapucaí, homenageado pela Estação Primeira de Mangueira. A caminho do desfile, parei em botequim do Estácio onde grupo animadíssimo batucava e entoava versos que diziam assim: “Página infeliz da nossa História/Passagem desbotada da memória”.


Molequinho de uns 11 ou 12 anos, na porta do boteco, repetia a letra, tintim por tintim.
– Sabe de quem é esse samba? – perguntei a ele.
– Claro. Chico Buarque – respondeu.
– Gosta do Chico?
– Pô!
– Que acha dele?
– Maneiro.
E é o que ele é.

Obs. Título do Bem Blogado

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Tags

Compartilhe:

Posts Populares
Categorias