Por Léo Bueno
O que está rolando neste exato momento com relação ao covarde assassinato de Thawanna Salmazo na Cidade Tiradentes é o mais absoluto cinismo.
Cinismo da imprensa e de nós mesmos quando chamamos um covarde assassinato de ‘despreparo’.
Como assim, ‘despreparo’?
Você mata outra pessoa por despreparo se for instrutor de tirolesa e esquecer de fechar o mosquetão na corda. Isso é ‘despreparo’!
Quando você arranca a arma do coldre e atira na barriga de outra pessoa, não foi seu treinamento que falhou. Foi tudo o que veio antes na sua vida, incluindo, e muito, a corporação para a qual trabalha.
E vem a PM e o chefe dela, Tarcísio de Freitas, sempre atenuar a tragédia dizendo que o ‘erro’ policial é uma exceção para uma entidade que protege a sociedade.
Não é. Não protege.
No caso de Thawanna, a tragédia começou quando Weden Soares, o parceiro de ronda da assassina Yasmin Ferreira, bateu com o espelho retrovisor num homem que andava pela rua.
E quando ele próprio não aceitou que a vítima reclamasse.
Tem um padrão aqui. A PM comete abuso de poder, ela se espalha, ela domina o ambiente, exige que todo mundo se encolha ante a presença de meninos que passaram por um curso duvidoso e agora recebem o emblema de ‘autoridade’.
A PM faz isso em muitos lugares. Em Cidade Tiradentes, em Paraisópolis, no Capuava, no Complexo do Alemão. Você sabe o que todos esses lugares têm em comum.
E faz isso desde sempre. Desde 1908, quando ela foi criada para proteger a família real portuguesa dos brasileiros. E nunca deixou de fazer, ancorada em sua estrutura militar.
Não é preciso dizer: quando um homem uniformizado a serviço do Estado pode bater com seu carro em você e você não pode nem reclamar, o Estado está cassando seus direitos. Onde isso acontece, não existe democracia.
Nem é preciso comentar que a ocorrência é a ponta de um iceberg, cuja base é repleta de medo e de uma ocorrência classificada como ‘encontro de cadáver’ por puro cinismo.
E é isso mesmo. Não é despreparo, é cinismo.”







