Como estes 3 livros retratam a vida noturna LGBTI+ de SP

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Clubes e festas se tornaram espaços de liberdade e acolhimento para a comunidade a partir dos anos 1990O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.

Por Giovanna Castro, compartilhado de Nexo Jornal




FOTO: DJ se apresentando – HamZa NOUASRIA/Unsplash

As pistas paulistanas ferveram com novos gêneros de música eletrônica e uma maneira inédita de fazer festas nos anos 1990. A comunidade LGBTI+ esteve no centro dessas transformações, criando espaços de liberdade e acolhimento para o público.

A criação desses locais foi antecedida por eventos como o levante do Ferro’s Bar, nos anos 1980, analisado pela escritora Julia Kumpera, e a popularização dos clubes e da música eletrônica, acompanhada pelos jornalistas Camilo Rocha e Erika Palomino.

Os três escritores participarão d’A Feira do Livro, que acontece entre 30 de maio e 7 de junho na Praça Charles Miller, em São Paulo. Ao Nexo, eles falaram sobre as mudanças na noite paulistana no fim do século 20 e o papel da comunidade LGBTI+ nesse cenário.

A luta para frequentar espaços

O Ferro’s Bar foi inaugurado em 1961 na rua Martinho Prado, no bairro da Bela Vista, entre a chamada “Boca do luxo”, região de alto poder aquisitivo, e a “Boca do lixo”, associada à prostituição e ao tráfico de drogas. 

Aberto de segunda a segunda, o local – que surgiu para atender a uma demanda de funcionários da TV Excelsior – era frequentado no almoço por famílias e trabalhadores. De noite, transitavam por lá militantes de esquerda, artistas e a comunidade LGBTI+, em especial mulheres lésbicas.

O Ferro’s era rodeado por outros bares voltados para a comunidade LGBTI+, que haviam surgido na região próxima aos bairros do Bixiga e da Consolação entre os anos 1960 e 1970.

“A Marisa Fernandes, uma ativista lésbica de São Paulo, diz que os bares nos quarteirões próximos ao Ferro’s formavam o ‘quadrilátero das lésbicas’. Era muito comum que as mulheres se encontrassem no Ferro’s para depois ir para outras baladas próximas”, disse ao Nexo Julia Kumpera, autora de “O levante das lésbicas: uma história do Ferro’s Bar” (2026).

O Ferro’s era um dos locais em que circulava o “Chanacomchana”, boletim com pautas voltadas para mulheres lésbicas produzido de maneira independente pelas ativistas do Galf (Grupo de Ação Lésbica Feminista) a partir de 1981. 

Na época, a região onde o bar ficava era alvo de batidas policiais. No começo dos anos 1980, o delegado José Wilson Richetti empreendeu uma série de abordagens nos bares do centro, sob um discurso de limpeza moral da região, contra a prostituição e a “vagabundagem”, com o objetivo de controlar comportamentos considerados desviantes.

Por conta disso, mulheres lésbicas eram alvo de preconceitos ou expulsas do Ferro’s sem motivo, segundo Kumpera.

“O Ferro’s era frequentado por lésbicas, mas os donos do bar nunca quiseram emplacar que esse era um bar lésbico. Isso deixava a situação ambígua, porque, ao não encabeçar a ideia de um bar lésbico, o local se protegia de sofrer ataques.”

A tensão entre o bar e as frequentadoras atingiu o ápice em 23 de julho de 1983, quando ativistas do Galf foram impedidas de continuar distribuindo o “Chanacomchana”.

Poucas semanas depois, no dia 19 de agosto, militantes do Galf, políticos e jornalistas se mobilizaram contra a ação. Eles ocuparam o local e pediram pelo fim das expulsões e violências recorrentes. 

Conhecido como o “Stonewall lésbico brasileiro”, em referência à rebelião LGBTI+ que aconteceu nos Estados Unidos em 1969, o episódio deu origem ao Dia do Orgulho Lésbico, celebrado na mesma data.

“Isso foi um marco fundamental na história do movimento lésbico no Brasil. Também está ligado à ideia de democracia. Naquela época, havia discussões sobre o retorno das eleições, e o levante do Ferro’s foi lido como uma reivindicação pelas liberdades democráticas, por poder frequentar espaços e se manifestar politicamente”, afirmou.

‘Montação’ e liberdade nos clubes

Elementos essenciais para a cultura da noite surgiram nos anos 1980, segundo Camilo Rocha, autor de “Bate estaca: como DJs, drag queens e clubbers salvaram a noite de São Paulo” (2024). Entre eles, a ideia do DJ como criador, não apenas reprodutor de músicas alheias, e da conexão entre moda nas ruas e nas pistas.

Essas mudanças acompanharam a perda de força da música disco e das danceterias e discotecas, extremamente populares nos anos 1970. No lugar, surgiram os clubes, espaços underground voltados para a imersão dançante, e seus frequentadores, os clubbers.

Visto inicialmente em cidades como Chicago e Berlim, o novo modo de fazer festas foi acompanhado pela popularização de gêneros como o house e o techno, inclusive no Brasil. 

“A cultura clubber ganhou contornos próprios no Brasil. Isso era visto no jeito de se expressar na pista, nas roupas das pessoas, nas gírias que misturavam termos em inglês com o pajubá das travestis e até em muitos flyers e identidades de eventos, que traziam referências da cultura local”, afirmou Rocha ao Nexo

Ao surgirem, os clubes se transformaram em espaços de liberdade. “Era um lugar onde era possível falar, dançar e se vestir do jeito que se quisesse, de maneira segura e livre”, segundo o autor, que também é DJ.

Desde o início, houve trocas entre a música eletrônica e a cultura LGBTI+. Nos clubes, ficaram populares as performances de drag queens. Na moda, ganhou força a “montação”, termo usado para definir as roupas grandiosas e com brilho pensadas para serem vestidas nesses espaços.

Esse entrelace continua hoje — visto, por exemplo, na visibilidade trans, que se projetou em festas como Mamba Negra, Capslock, ODD e N- Bomb —, segundo Rocha. 

As festas como acolhimento

Entre 1992 e 2005, Erika Palomino manteve a coluna “Noite ilustrada” no jornal Folha de S. Paulo. Ela acompanhava as novidades da cena clubber e apresentava aos leitores suas gírias e maneiras de fazer festa.

Seu livro, “Babado forte: 35 anos de cultura jovem no Brasil” (2024), foi publicado originalmente em 1999, mas recebeu uma segunda edição após anos esgotado nas livrarias.

A primeira versão olhava principalmente para a cena noturna em São Paulo e no Rio de Janeiro, mostrando de que maneira a música eletrônica havia mudado as pistas de dança. Já a segunda expandiu o olhar para outros estados, como Bahia e Pernambuco, diversificando as fontes ouvidas, com foco em pessoas LGBTI+, negras e periféricas.

“O que no começo era muito nichado e visto com muito estranhamento começou a gerar interesse a partir de meados dos anos 1990”

Erika Palomino

autora de “Babado forte”, em entrevista ao Nexo

Palomino aponta como marco de uma nova cultura de festa o Hell’s Club, o primeiro afterhours (clube com festas que geralmente começam a funcionar de manhã e seguem até a tarde) de São Paulo, inaugurado em 1994.

“Aqueles hábitos considerados ‘estranhos’, como acordar na manhã de domingo e ir dançar, toda a cultura em volta da música eletrônica, passaram a ser vistos como um reflexo do que podemos chamar de uma ideia de modernidade associada a São Paulo. Uma metrópole que absorve novos comportamentos, movimentos e culturas.”

Para os frequentadores, os clubes eram locais de proteção e de encontro de iguais numa época em que as pessoas ainda tinham que conviver com o estigma e a ameaça da aids, segundo a autora.

“Eles eram espaços agregadores, locais de encontro numa era pré-internet. Também eram espaços de experimentações, em que havia proteção sobre quem as pessoas eram e quem elas queriam ser”, disse ao Nexo.

Ao analisar décadas da juventude brasileira urbana, Palomino viu algumas transformações, como as pessoas tornando-se produtoras — e não apenas consumidoras — de cultura e de movimentos. A autora também registrou o surgimento, a partir dos anos 2010, de uma geração voltada aos coletivos, à ocupação das ruas e à reivindicação do espaço urbano.

“Começou a haver uma ideia da diversão como mobilização, das festas como movimentos políticos e da amizade como ativismo. Esse último ponto é importante, porque o ponto central do livro é sobre a criação de espaços de existência onde antes não havia.”

Um dos exemplos de espaço de resistência está na cena ballroom. Popularizados nos EUA nos anos 1980, esses bailes reuniam homens gays, mulheres transgênero e drag queens em competições de “voguing” (coreografias ágeis e angulares, inspiradas nas poses da revista “Vogue”) e em concursos de beleza com estética alinhada à cultura drag. 

Dançarino de ballroom se dobra para frente enquanto segura um troféu

Cena de ‘Paris is burning’, documentário premiado de 1990 que deu notoriedade à cultura ballroom

Além de um cenário para festas, a ballroom era um lugar de inclusão para pessoas LGBTI+ negras e latinas, acolhidas nas “houses” (“casas”), grupos organizados por veteranas da cena, chamadas de “mães”.

No Brasil, a cena explodiu em popularidade a partir da pandemia de covid-19, quando mais pessoas passaram a conhecê-la, segundo a autora. “Ela se difundiu num momento de extrema adversidade e vulnerabilidade, mas as pessoas se uniram ainda mais. Isso evidencia como as relações de amizade, de comunidade, de proteção e de acolhimento são importantes.”

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