“Escrever é fácil, você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias” (atribuído a Pablo Neruda).
E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, conversa com a gente sobre a Inteligência Artificial e a Literatura, baseado em entrevista do escritor Ian McEwan, autor de “Máquinas como eu: E gente como vocês”.
Saiu na Folha de São Paulo uma entrevista com o romancista Ian McEwan. Eu o conheço dos tempos da pós-graduação, embora não tenha lido nada dele nem antes nem depois. Quer dizer, conhecer o autor pelo nome não é exatamente conhecer a obra do autor.
A entrevista tem um quê de publicidade, uma vez que faz parte da divulgação do lançamento de um romance do autor traduzido para a nossa língua, mas também toca em questões muito pertinentes para o nosso tempo, como me parece ser o caso do uso da inteligência artificial na literatura e em outros ramos do saber e da vida.
Outra questão digna de nota diz respeito aos prós e contras do mundo atual – porque, se afinal vivemos em tempos de possibilidades concretas de destruição do planeta, também temos a chance de preservá-lo, de reconstruí-lo, de dar o passo atrás.Quem dera que o pensamento tecnológico não sufocasse o pensamento ecológico.
Algumas considerações que Ian McEwan fez na entrevista sobre a inteligência artificial já foram feitas por Gilberto Gil em sua célebre canção “Cérebro eletrônico”. O ser humano é o ser que sente, que sofre, que goza – ingredientes indispensáveis neste caldeirão que é o fazer literário. É o “só eu que posso” da letra do Gegê que dá o tom de uma letra que é também um ensaio sobre o impacto das tecnologias nas nossas vidas.
É certo que estamos nos primórdios da inteligência artificial; mas, por enquanto, o que é produzido por ela ainda é bastante medíocre (no sentido de mediano, pouco inspirado), apesar de muito divertido. Cabreiramente, é para esperar para ver. Fiat Prompt, Fiat Lux.
Já puxando a sardinha para a minha brasa, que é a da literatura, gostaria de dizer que há um enorme tesouro do pensamento humano acessível pela literatura, seja ela com “l” maiúsculo ou não. É de lá onde a humanidade também nos lança flechas, petardos, Petrarcas.
Tudo isso me preocupa e me faz pensar. Sou alguém que durante algum tempo alimentou a veleidade de ser ou parecer ser um literato, entendido como alguém que conhece do riscado e que convive com a literatura, suas obras e suas teorias. Fico pensando que, apesar de ter razoável bagagem, talvez eu não saberia escrever uma mísera redação para o ENEM. No máximo o que eu conheço me serviria para pinçar um repertório.
É realmente muito curioso que candidatos do ENEM tenham que escrever sobre temas dificílimos “against the clock” usando termos técnicos, conectivos, vocabulário e linguagem adequados, evitando a primeira pessoa e opiniões pessoais etc. Vendo de fora, uma correção de redação me parece mais pontuação de ginástica olímpica do que qualquer outra coisa, haja vista o grau de dificuldade.
Se as pessoas aprendem a escrever assim? Claro! Muito da vida se aprende a partir de treino e observação. Uma passo a passo ajuda muito. Escrever se aprende se escrevendo. Melhor que uma redação pelo I.A. é praticamente certo. A questão, entretanto, abre caminho para outra, que resumo adaptando uma frase genial de Oswald de Andrade. Cadê a contribuição milionária de todos os erros? E de todas as histórias?
Encerro este texto com uma anedota. Pode-se pensar nela como verdadeira. Uma professora de português dava aula para um aluno na sala dos professores. Os dois interpretavam um poema que se referia praticamente verso a verso a poemas de Drummond. Só que a professora ignorava um elemento composicional que talvez fosse um grande trunfo do poema.
Guardei a minha viola besta na sacola e não interferi na aula da professora. Fiz bem? Fiz certo? Não sei, mas para mim foi como executar um duplo twist escarpado.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







