E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva ao Vale do Jequitinhonha, no qual o homem que destrói a natureza faz das suas maldades em nome da grana. Aliás, Jequitinhonha é uma expressão indígena que significa “rio largo e cheio de peixes”. Leia nesta crônica o que estão fazendo com esta região, contradizendo o nome da mesma.
“(Para William Prado, que como eu, como tantos, quer salvar um pouco da beleza do mundo para as gerações futuras)
Em 26 de julho, fomos ao Museu da República em virtude de uma feira peruana que havia por lá. O passeio foi bacana à beça: céu azul de pintor impressionista, música tradicional, ou supostamente tradicional, peruana; muitas pessoas vestindo a camisa do uniforme oficial da seleção: branco com uma faixa vermelha; as pessoas nos quiosques vendendo lenços e artigos peruanos, lhamas de pelúcia e tais – até me interessei por uma sacola com a bandeira do Peru e tal; muita gente com cara de inca; muita gente junta; e o carro-chefe, uma gastronomia muito interessante, à base de peixe.
Inclusive tem o tal do ceviche, que é delicioso, e a tal também de uma cerveja chamada Cusqueña, que eu acabei não comprando; e também esse refrigerante aí, o Inca-Cola, que é da Coca-Cola. Pois é, a Coca-Cola não deixa florescer nenhum outro refrigerante que não esteja sob o seu domínio, o que é uma pena. Monopólio é isso aí! Ocorreu algo semelhante com o guaraná Jesus (Maranhão). Quem não se lembra?
O passeio foi educativo também, porque, além de tudo que mencionei, havia uma exposição da fotógrafa, creio que mineira, Isis Medeiros. A exposição se chama do “Zona de Sacrifício: do ouro ao pó”, e trata da destruição no Vale do Jequitinhonha causada pela mineração.
Pois bem, no Vale do Jequitinhonha, ao norte de Minas Gerais, há uma cidade onde está sendo extraído o tal do Lítio, que é um minério indispensável para a produção de baterias para os carros elétricos. Em resumo, para você ter o carro elétrico, precisam extrair o lítio.
E tome progresso. O lítio já foi responsável pelo assoreamento do rio, que banhava a região que era, assim, uma fonte de subsistência da população. Tremenda malandragem: a empresa vende a propaganda como sendo uma empresa de energia limpa, verde e tal, mas extração é extração, e a poeira, esse resíduo, o rejeito do lítio, entra na casa das pessoas a todo instante e provoca doenças respiratórias.
Ficamos Cecília e eu assistindo, por dez minutos, a um vídeo mostrando a cidade, as personagens da cidade, e como a cidade vai sendo varrida do mapa devido à mineração. Ela foi tão varrida do mapa que esqueci o nome dela.
É impressionante. É doloroso, não é? Pena mais uma vez, o Vale do Jequitinhonha, que tem uma cidade assim próxima, acho que é a Araçuaí, que para onde é escoada toda a produção agrícola e cultural da região. E o lítio no meio do caminho (veja texto sobre a exploração do lítio e os malefícios causados à população de Araçuaí no link abaixo, Agência Pública).
Eu fico pensando nisso. O Vale de Jequitinhonha, imortal na voz de Paulinho de Pedra Azul Cantor, que é perto da Universidade de Diamantina, toda aquela região que é pobre, mas que também tem uma força cultural imensa, está sob risco, mais uma vez, de extinção. Acabou o Lítio, fica o lixo. Isso me dói demais.
E pela primeira vez eu assistia tudo isso com a Cecília, sentadinhos os dois no banco de madeira de igreja do interior. Sem querer, a gente chegou até a interromper o percurso da exposição. Para prosseguir, os visitantes tinham que passar por nós e por um cortinado, e o pessoal passava meio com vergonha de nos ver ali tão atentos a tudo.
Acabou que a gente quis assistir completamente ao vídeo, para entender em que pé está a situação. É aquela coisa, a empresa se acha a tal benfeitora devido à propaganda. Enfim, leva o progresso à comunidade? Sim, leva. O problema é o que ela leva junto.
Só isso explica como a empresa reagiu à seca que sua atividade causou ao rio: como é boazinha, humana, ela teve o desplante de distribuir caixas d’água de mil litros. Então, para as pessoas com três famílias, sei lá, 15, 20 pessoas em cada casa, mil litros não dá para o mês, não é?
É assim. Minas Gerais, um dos Brasis mais lindos do mundo, sempre trazendo essas recordações horríveis. Ver a exposição nos faz lembrar de Mariana, de Brumadinho, do livro do José Miguel Wisnik, o “Maquinação do Mundo”, que fala do embate entre Drummond e a Companhia da Vale do Rio Doce. É sempre cruel dizer: Não há mais o Pico do Cauê!
Pela primeira vez eu assistia a isso tudo ao lado da minha filha. Pela primeira vez Cecília com idade suficiente (12) para entender que se destrói tanto para se construir algo tão pouco poluente como é a princípio um carro elétrico.
Depois do vídeo, ficou mais fácil entender a proposta da autora. Denúncia. Papel da arte. Todas as fotos. Inclusive as chapas de pulmão. Entendi. Estou com ela para o der e vier. Estou com os moradores dessa pequena cidade. Estou com o Chico, que acho que é o rapaz que mal consegue respirar no vídeo.
Eu não quero mudar de planeta.”
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







