Invasão de PMs: é importante saber o que houve em uma escola de São Paulo

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Por Cícero César Sotero Batista, professor

Jornal Brasil de Fato: “Um vídeo que veio a público na segunda-feira (22/06) mostrou 12 policiais militares invadindo uma escola de ensino infantil em São Paulo para questionar a direção por causa de uma atividade pedagógica (veja o vídeo no final da postagem).




O caso aconteceu na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Antônio Bento, na zona oeste da capital paulista, em novembro do ano passado, mas as imagens das câmeras dos PMs foram divulgadas nesta semana. Na ocasião, segundo reportagem do g1, o pai de uma aluna de quatro anos teria acusado a escola de “ditar sua ideologia” ao questionar uma atividade sobre cultura afro-brasileira desenvolvida pela escola.

Em março, a Polícia Civil indiciou por intolerância religiosa o pai da aluna, que também é soldado na PM. Segundo ele, a escola estaria obrigando a criança a ter “aula de religião africana”.”

Acho difícil a gente não ter ficado sabendo do incidente entre policiais militares e uma direção escolar em São Paulo. Eu venho por meio desta dar o meu “pitaque” sobre o ocorrido.


Deve-se ter muito cuidado para não se misturar política e religião. Muito cuidado mesmo. Mesmo porque há religiões e religiões. Não é que todas devam ser respeitadas, com cada uma na sua prateleira, é mais do que isso. A religião não deveria interferir na educação, que deveria ser, para todos os efeitos, laica, pública e gratuita.


Como se sabe, não é isto o que ocorre no Brasil. Atualmente a depender do espectro político, passa-se a se defender abertamente uma teocracia. Não se esqueçam de certos lemas. Nem de certas lesmas.


Que se pense em um sujeito como Anísio Teixeira, patrono da educação brasileira, defensor de uma reforma educacional e que se veja que seu maior adversário na década de 1960 foi a igreja católica, cujos interesses foram defendidos por ninguém mais ninguém menos que Carlos Lacerda, pontífice da direita. Que se pensa em um sujeito como Paulo Freire. Qual foi a realidade que ele enfrentou na década de 1960? Que espécie de Nordeste era aquele que gente das Ligas Camponesas enfrentou?
Eu sei é muita coisa para pensar, ainda mais com um Brasil e Japão na segunda.


QUEM NUNCA?
Enquanto professor, testemunhei a transformação de alguns eventos escolares em manifestações religiosas. Tenho pavor do pensamento binário, dos que pregam que há uma guerra santa em curso. De que lado está Deus? Do deles ou do meu?
Um aluno bagunceiro que passa por debaixo das mesas não pode ser repreendido pela fala: “Você está com o capeta no corpo, menino, que porra é essa?”, altamente justificável para a ocasião. São as mesmas crianças que louvam morarem em becos sem número onde nem o Caveirão entra.


Eu sou do tempo em que um pastor evangélico chutou a imagem de uma santa para se promover. Eu achei algo feio, indigno, coisa de quem joga pedras na cruz. Em algumas comunidades de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, quem não for de Deus é convidado a se retirar. Neste último caso me refiro ao documentário “Fé e Fúria”, de Marcos Pimentel.


Eu não sou como o John Lennon, não gostaria de imaginar um mundo sem religiões: acho que o mundo ficaria culturalmente mais pobre. Eu sou de me assombrar com igrejas em Ouro Preto, sou de me encantar com saídas de santo nos terreiros, eu sou de estranhar quando vejo alguém lendo a bíblia no celular, mas é melhor ler do que não ler.


Eu sou eu, eu sou Deus e sou Diabo. Eu sou da legião de Gil, que em uma canção diz algo como “venda o seu peixe e deixe o outro vender seus limões”. A imagem felicíssima de uma convivência menos hostil entre os diferentes.


Algum tempo atrás, houve uma aluna de uma das escolas onde trabalho que fez a cabeça no santo. Como se sabe, durante algum tempo ela só pôde andar com a cabeça coberta. É a obrigação. Ela era danada da breca, bagunceira, faltosa, mentirosa que só ela. Mas sua causa foi defendida pela direção de uma maneira que vale a pena lembrar. A direção estava certa, certíssima.


O grande problema de hoje é misturar alhos com bugalhos, ou bíblias ou com lábias. Há muita gente boa, séria e alegre (sisudez não deveria combinar com religião, que é alegria, prosperidade dignas de um happy day), comprometida com as religiões que cultuam, não importando sua crença nem sua posição na pirâmide social. Nelas sempre botarei fé, sempre ouvirei atento ao que dizem, porque sei que as palavras delas são capazes de tocar meu coração, de me inspirar e de me por na luta.


Amém, amendoim.

Veja o vídeo.

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