Fala, Zona Oeste! Viva Guinga!

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva a passear pela Zona Oeste do Rio e nos cutuca para ouvirmos o grande Guinga.

Pé na estrada!




Lá pelos inícios dos 2000, me formei em Letras e fui morar na Praça Seca, num apartamento que minha família até hoje mantém. É um apartamento simples, muito aconchegante, situado à Rua Pedro Telles, rua que desagua na rua Maricá.


Não sei por que me bateu um espírito desbravador, ou será que sei? Talvez pela separação, naquele espírito de tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor, foi uma época em que andei muito a pé.

Conheci da Praça Seca as ruas que se chamam Telles, inúmeras. Conheci, por tabela e canela, os bairros vizinhos, como o Campinho e a Vila Valqueire. Ai, Quiririm! Ai, Luiz Beltrão! Quem te vê que tem compre. Eu saía da Praça Seca e ia até depois da Praça Saiki, passava pela Rua das Rosas. Lá no Valqueire tem muita flor que se cheire.


Enfim, sem lenço nem documento, sem Google Maps nas mãos, contando só com a curiosidade, eu ia. Quem em sã consciência iria pegar dinheiro lá no Banco Santander, agência Campo dos Afonsos? O flanêur aqui. Não fiz isso uma vez, nem duas vezes, nem três vezes, mas diversas vezes, a ponto de quase se tornar uma rotina.


Outro aspecto digno de nota é que eu, para ir ao trabalho em Realengo, pegava dois ônibus. Um da Praça Seca até a Avenida Marechal Fontenelle, e de lá, o 745 ou o 746. Eu preferia pegar o 745, pois, apesar do percurso mais longo, ele passava por dentro do Campo dos Afonsos.


Na Rua Marechal Soares Andrea, trabalhei durante quase dez anos como professor de inglês. Eu ficava encantando com a loja de macumba, com os trajes em exposição, com os aromas do defumador que se espalhavam. Aí era perto também da Rua Capitão Teixeira, onde moravam meu cumpay Zé Café e minha comadre Laurê. Aqueles conjuntos da Cohab, ali, da Capitão Teixeira. Depois na casa da árvore, em outro capitão ou em outra patente.


Depois amarrei minha mula em Bangu, trabalhar na Cultura Inglesa, já conhecendo o bairro porque eu frequentava, primeiramente, as festas de aniversário do camarada Raul Borges na Rua Volga.


Obviamente, em Bangu tem o senhor M ali na Rua Boiobi. Depois vem Júlio, com o clube de cinema que mal durou dois Fellinis, tem toda essa conversa. Se eu o chamo até hoje de Giuliano Gemma, eu o faço em nome de nossa amizade e de nosso interesse em comum pela sétima arte.


Pois é, “Catonho”, esta canção do Guinga, foi o estopim de uma grande rede de memórias que eu tenho dessa região: revi no cineminha da cabeça o salto de paraquedas, os aviões decolando, aquele pôr do sol alaranjado, a estrada que vai ao cemitério, os conjuntos, as oferendas e os urubus de Sulacap.


Fica por aquelas bandas a Estrada do Catonho, que dá título à canção. Trata-se de uma estrada que liga Sulacap à Jacarepaguá. Tu sobe, faz umas curvinhas, passa pelo Rancho das Morangas, depois desce pela estrada que vai dar antes da Taquara. De Zona Oeste a Zona Oeste. O Catonho era muito utilizado para se ir à Barra da Tijuca, pelo menos até a abertura da Transolímpica em 2016.


Estamos falando de cruzamentos de regiões da cidade, em sentido figurado e por vezes quase literal. Estamos falando de uma cidade que deixa para trás modos de vida – no caso, uma região quase rural que passa por um período esquecida e que por encanto e por ganância se torna um lugar de passagem para regiões mais valorizadas. Aliás, que se proclamam fazer parte da Zona Sudoeste…


Talvez pelo que foi exposto acima, minhas lembranças incluídas, “Catonho” dê voz a um eu-lírico que é um sujeito de outro tempo, esse sujeito que viu esses lugares quando ainda não eram nem urbanizados, nem fatiados, nem loteados. Livres desses entraves, o olhar abarcava uma natureza estranha, paisagem de pó de estrada, fazenda de algum senhor.


“Catonho” é uma canção de alguém que procura se reconhecer e ser reconhecido nomeando o que existia antes naquele lugar. Traz à baila aquela sensação estranha de comparação quando, por exemplo, se tem lado a lado a mesma paisagem em períodos históricos distintos – duas imagens do centro do Rio, por exemplo.

De modo que é uma canção muito, muito potente, uma canção extraordinária, também devido a esse esforço de reconhecer como era um lugar antes da urbanização. Urbanização entre diversas aspas. Urbanização que destrói para construir suas saídas.


Segue o poema em homenagem à Praça Seca, distinta região da Zona Oeste do Rio de Janeiro, citada na canção.

PRAÇA SECA

Uma parte de mim
Ficou na Praça Seca
Feito minha mãe e eu,
Numa sessão no Cine Baronesa
Eu me pergunto será que ali ainda tem os pardais
Talvez à toa à tarde entre os sinais? Quem sabe?

Uma parte de mim
Ficou na Praça Seca
Galinha que corre mas já sem cabeça
Ficou na luz do acrílico lustre lilás
Nuns ratos zanzando em terrenos baldios
No dia em que mascamos cacos de vidro

Uma parte de mim
Ficou na Praça Seca
Feito obra de igreja
Não tem quem acabe
Seu são José Operário
Barão dos pobres e dos otários
Nos proteja das balas perdidas no itinerário

Sobre o Autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970. Educação

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