Filme “No dia que te Conheci”: uma história de amor e de conhecimento

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva ao cinema pelas mãos do amigo cineasta Zeca Ferreira. Veja o que César viu do filme “No dia que te Conheci”.

Beija-Flor, 11 de agosto de 2026.




Caro Zeca Ferreira, acabei de assistir ao filme a que você se referiu recentemente numa postagem no Facebook. É esse “No dia que te conheci”, de André Novaes. Eu achei o filme muito bom, um filme que parece ter a cara do Brasil e das suas periferias, a cara de Minas Gerais. A Filme de Plástico tem essa pegada para falar da nossa gente. Eu me incluo nessa “nossa gente” porque eu sou professor de rede pública.

Eu convivo com o movimento pendular, com o morar longe, com o tempo perdido nas conduções, com a paisagem das rodovias, com os murais das personalidades negras etc. Tudo isso me chamou muito a atenção, porque me é familiar.


Enfim, as externas do filme: o bairro, as ruas da periferia, como as periferias se parecem! E como é difícil se mover pela cidade. Como é difícil estar doente, doente de falta de amor também, de solidariedade, de descobrir algo em comum.


Acho que os atores estão particularmente maravilhosos, rolou uma química bacana entre os dois. Mas esse enredo também é muito bom, e as locações foram muito felizes para contar essa história que no fundo é uma história de amor e de reconhecimento, de saber que há esperança na vida, que a gente precisa ser amado, que a gente precisa ser desejado, que é o desejo que nos faz seguir em frente, apesar de todos os problemas e de todas as dificuldades.


Tem uma fala do filme que me chamou muito a atenção: quando Zeca e a Luisa estão conversando no carro, e ela sublinha que eles eram os únicos negros da escola. É uma fala que nos faz pensar no que significa o ingresso dos trabalhadores na escola, como a escola é importante, como é importante ter escola para todos.


O Zeca é um cara que gosta de livros, gosta de crianças e gosta de falar de livros, e a Luísa é secretária escolar, quer dizer, são duas pessoas que estão ali no ambiente escolar. Ambos estão na batalha do dia a dia, no corre como se tem dito.


Tem um lance da doença em si, dessas novas formas de sofrimento que não poupam ninguém. E tem a vergonha. Doença mental ainda carrega um estigma danado.
Tudo isso me pegou bastante. Mas o que mais me pegou mesmo, confesso, foi o lado urbano das externas, foi ver a cidade de Belo Horizonte, ver aqueles recantos de Belo Horizonte, ver a mobilidade urbana de Belo Horizonte, ver o centro de Belo Horizonte, ver as pessoas caminhando para tomar uma cerveja num lugar que no Rio seria, sei lá, uma Lapa, uma Madureira, um Catumbi, um Estácio, lugares que têm boteco, têm essas coisas para tomar uma cerveja e bater um papo. Um lugar de paquera e de encontro.


E é bacana a topada, é especialmente um toque de requinte, de crueldade e de humor. Porque no dia em que Zeca consegue acordar na hora, acaba dando uma topada e machucando o dedo. Mas no dia anterior ele topou com uma pessoa que o compreende. A vida é também um remendar-se.


Falei de externas, mas também gostei da casa dele, dos azulejos, porque parece uma casa mesmo, uma casa onde mora gente de verdade. Nesse sentido é um filme muito direto. As pessoas se reconhecem nele.


Por derradeiro, não se furte a recomendar mais filmes – e que sejam brasileiros! Você falando desse cardápio que está escondido na Globoplay me fez pensar em outros filmes para nos abrir os olhos. Fico aguardando sugestões suas.
Grande abraço,
Cícero

Filme: No dia que te conheci
Direção: André Novaes
Ano: 2023
Elenco: Renato Novaes e Grace Passô
Onde: Globoplay

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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