Datafolha confirma disputa apertada e rejeição elevada a Lula e Flávio Bolsonaro; Cury perde impulso; barreira na crise institucional e Dark Horse volta a atingir o bolsonarismo; Lula e o PT começam a mudar a campanha.
Carlos Tiburcio, compartilhado de Fórum 21
O novo Datafolha ajuda a enxergar o que certamente é a questão mais difícil desta eleição.
Lula continua na frente: 39%, contra 35% de Flávio Bolsonaro. Augusto Cury caiu de 8% para 6%, reforçando a hipótese levantada na primeira coluna de que sua arrancada logo encontraria limites. No segundo turno, porém, permanece o empate técnico: Lula 46%, Flávio Bolsonaro 44%.
Mas o número mais revelador talvez seja outro: Lula e Flávio Bolsonaro são rejeitados agora igualmente por 46% dos eleitores.
A eleição vai se tornando uma disputa não apenas para conquistar votos, mas para reduzir vetos.
No caso de Lula, esse veto mistura fenômenos diferentes: antipetismo consolidado, antilulismo e insatisfação com o atual governo. Não são a mesma coisa — e não podem ser enfrentados da mesma maneira.
O Datafolha mostra o governo com 42% de ruim ou péssimo, 32% de ótimo ou bom e 25% de regular. Mas há outro dado relevante: a desaprovação ao desempenho de Lula caiu de 51% para 50%, enquanto a aprovação subiu de 45% para 47%. É uma oscilação dentro da margem de erro, mas interrompe a trajetória de piora.
O dado reforça uma distinção essencial: rejeição eleitoral a Lula, antipetismo e insatisfação com o governo se misturam, mas não são a mesma coisa. E a parcela ligada à avaliação concreta do governo é justamente aquela sobre a qual a campanha ainda pode atuar mais fortemente.
É aí que está seguramente o eleitor decisivo.
A Quaest já dera outra pista: entre os independentes, num segundo turno Lula-Flávio Bolsonaro, 30% disseram votar branco ou nulo e 10% permaneciam indecisos. É enorme o contingente que rejeita ambos – ou ainda não encontrou razão suficiente para escolher um dos dois.
O Datafolha também trouxe novidades importantes nas disputas estaduais e pelas duas vagas ao Senado. Voltaremos a esse mapa numa próxima edição de O Fio da Eleição, porque ele merece análise própria e terá peso decisivo na composição política a partir de 2027.
CURY ESFRIA, O PROBLEMA FICA
Cury caiu de 10% para 8% na Quaest e agora de 8% para 6% no Datafolha. Não recuou pro patamar inicial, ainda pode oscilar, mas o crescimento explosivo não continuou.
Só que Cury pode ser passageiro; mas a rejeição que permitiu seu crescimento não é.
Se esse eleitor abandonar Cury, nada garante que irá para Lula. Pode migrar para outro candidato, anular, não comparecer — ou, num segundo turno, escolher Flávio Bolsonaro.
DARK HORSE MUDA A CRISE
Há ainda uma circunstância decisiva: o Datafolha não conseguiu medir as revelações mais fortes desta sexta-feira.
Com a retirada do sigilo, documentos da PF mostram que Flávio Bolsonaro é formalmente investigado no caso Dark Horse e apontam sua atuação direta nas negociações com Daniel Vorcaro para obter recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro. A PF fala em reuniões e cobranças de pagamentos; também investiga o papel de Eduardo Bolsonaro na administração de recursos nos Estados Unidos.
Isso muda a situação política do candidato do PL.
Durante quase duas semanas, o bolsonarismo tentou transformar Vorcaro, Moraes e a crise do STF numa arma unilateral contra Lula. Agora vai precisar explicar sua própria relação com o banqueiro.
Mendonça, pressionado por Fachin e pela PGR, acabou retirando o sigilo de dezenas de procedimentos, inclusive Dark Horse (Moraes acusa que a quebra de sigilo ainda é seletiva e direcionada para proteger determinado grupo político). A crise deixou definitivamente de ter um só endereço.
Mas há uma diferença importante: desgastar Flávio não basta para reeleger Lula.
LULA E O PT DIAGNOSTICARAM O PROBLEMA
A reunião extraordinária da Executiva do PT e, depois, a conversa com os partidos aliados – e a entrevista de Lula ao SBT – sinalizaram uma correção de rumo.
A campanha quer ser mais assertiva, aumentar a mobilização, disputar segurança pública, explorar Dark Horse e, ao mesmo tempo, evitar transformar a eleição num Fla-Flu entre ministros do Supremo. Este domingo, 13/09, será um dia nacional de mobilização da campanha de Lula.
Na entrevista ao SBT, Lula imprimiu uma mudança de tom: investigação para todos, defesa das instituições sem defesa pessoal de ministros, transparência no Master, discussão sobre mudanças no Judiciário — e reconhecimento de que o custo de vida continua alto.
Isso com certeza é mais importante do que pode parecer.
Para diminuir a rejeição conjuntural — e transformar essa pequena melhora na aprovação do governo em tendência — não basta dizer ao eleitor que tudo melhorou. É preciso reconhecer aquilo que, para ele, ainda não é suficiente.
O FIO
Dark Horse tem tudo pra interromper a ofensiva do bolsonarismo. A crise institucional começa a ser contida pelo plenário do STF. E Cury parece ter alcançado seu primeiro teto.
Mas nada disso resolve sozinho o principal problema de Lula.
O desafio das próximas três semanas é transformar o voto contra Flávio Bolsonaro em voto a favor de Lula — sobretudo entre quem não é bolsonarista, mas ainda resiste a votar no presidente.
A mobilização deste domingo será um teste importante. Na terça-feira, o STF deve enfrentar sua sessão mais delicada desta crise. E as próximas pesquisas finalmente poderão medir o impacto das revelações sobre Dark Horse.
A eleição continua aberta.
E certamente será decidida pela campanha que conseguir convencer mais brasileiros e brasileiras a deixar de dizer: “nesse eu não voto”, superando os vetos.
(*) Carlos Tibúrcio é jornalista, editor do Fórum 21, diretor da Fatoflix, membro da Coordenação do Barão de Itararé e foi Coordenador da Equipe de Discursos do Presidente Lula e da Presidenta Dilma, de 2003 a 2016.







