Flávio Dino dá o alerta enquanto o ‘terrivelmente evangélico’ André Mendonça se enrola com Vorcaro

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Há uma estratégia destinada a apresentar o STF como se fosse um dos grandes problemas nacionais, explorando medos e desconfianças da população com objetivo eleitoral

Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí




Ministros André Mendonça e Flávio Dino

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), resumiu em poucas palavras um dos aspectos mais graves da crise que tomou conta da Corte às vésperas das eleições de 2026: a tentativa de transformar o próprio Supremo em personagem da disputa eleitoral.

Na avaliação de Dino, há uma estratégia destinada a apresentar o STF como se fosse um dos grandes problemas nacionais, explorando medos e desconfianças da população com objetivo eleitoral.

Para o ministro, trata-se de uma “manipulação dos medos” visando à obtenção de votos, comportamento que classificou como incompatível com a seriedade e a lealdade que deveriam orientar o debate público.

A advertência ganha ainda mais peso diante dos acontecimentos envolvendo o ministro André Mendonça, indicado ao Supremo pelo então presidente Jair Bolsonaro em 2021 e apresentado pelo próprio Bolsonaro como alguém “terrivelmente evangélico”.

O que acontece agora no STF coloca novamente em discussão uma questão antiga e delicada: até onde vai a atuação jurídica de um magistrado e onde começa uma atuação capaz de produzir consequências políticas e eleitorais?

André Mendonça e os Bolsonaro: episódio dos 51 imóveis

Os questionamentos envolvendo Mendonça e a família Bolsonaro não começaram em 2026.

Em novembro de 2023, o ministro arquivou um pedido para que Jair Bolsonaro e seus filhos fossem investigados pela aquisição de 51 imóveis com pagamentos em dinheiro vivo, em negócios realizados entre 1998 e 2022 e que, segundo levantamento jornalístico, movimentaram R$ 18,9 milhões.

Mendonça argumentou que não existiam elementos suficientes para determinar a abertura da investigação. O pedido havia sido apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG).

A decisão beneficiou diretamente Jair Bolsonaro e integrantes de sua família, entre eles Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência da República.

Para os críticos do ministro, episódios como esse ajudam a explicar por que sua atuação atual é observada com atenção redobrada justamente quando decisões tomadas no STF passaram a produzir efeitos no centro da campanha presidencial.

2 de setembro expõe relação de Mendonça com Daniel Vorcaro

A quarta-feira, 2 de setembro de 2026, acrescentou novos capítulos à história.

Logo pela manhã, vieram a público mensagens e áudios extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicando a articulação de um encontro reservado com André Mendonça.

O próprio ministro confirmou que recebeu Vorcaro em março de 2025. Segundo Mendonça, aquela teria sido a única reunião entre os dois e o assunto tratado teria sido uma questão envolvendo precatórios de interesse do Banco Master. O magistrado sustenta que se limitou a ouvir o empresário e que posteriormente atuou contra os interesses defendidos pelo banco.

Mas as mensagens divulgadas revelaram um ambiente de proximidade muito mais informal do que uma simples audiência convencional.

O advogado Ciro Rocha Soares, responsável por aproximar Vorcaro de Mendonça, aparece em mensagens relatando encontros com o ministro e chegou a enviar ao banqueiro uma fotografia ao lado de Mendonça enquanto dizia estar “trabalhando” para ele. Ciro também foi apontado por políticos e advogados como um dos apoiadores da indicação de Mendonça ao STF em 2021.

O nome do ministro apareceu ainda em relatos envolvendo uma visita à alfaiataria de luxo de Vasco Vasconcellos, frequentada por empresários e autoridades. Mendonça confirmou que esteve no estabelecimento, embora conteste versões sobre as circunstâncias da visita.

Daniela Lima revela novo episódio: não foi um encontra, foram vários e Vorcaro foi ouvido sem presença da PF

Durante a tarde, mais uma informação aumentou a temperatura da crise.

A jornalista Daniela Lima, do UOL, revelou que Daniel Vorcaro prestou depoimento na semana passada ao gabinete de André Mendonça sem a presença da Polícia Federal. E que não aconteceu apenas um encontro entre o advogado de Vorcaro e Mendonça, mas vários. A jornalista não especificou quantos

Segundo o gabinete do ministro, a oitiva foi solicitada pela defesa de Vorcaro, conduzida por um juiz auxiliar e acompanhada pelo Ministério Público Federal. A ausência da PF teria ocorrido em razão das alegações do banqueiro de que vinha sofrendo “graves intimidações”. O depoimento foi gravado em vídeo e permanece sob sigilo.

O episódio amplia os questionamentos justamente porque Mendonça é hoje o relator das investigações do caso Banco Master e está no centro de uma disputa interna que envolve também o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República Paulo Gonet e a cúpula da Polícia Federal.

O alerta de Flávio Dino

É nesse cenário que a declaração de Flávio Dino ganha dimensão política.

O Brasil já assistiu a uma experiência traumática em que integrantes do sistema de Justiça ultrapassaram os limites de suas funções e, posteriormente, ingressaram diretamente na política. Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, protagonistas da Lava Jato, terminaram suas trajetórias institucionais mergulhados no campo político que ajudaram a fortalecer.

Agora, às vésperas de uma eleição presidencial polarizada, o STF volta ao centro da arena política.

André Mendonça chegou à Corte pelas mãos de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência. Alexandre de Moraes tornou-se um dos principais alvos políticos do bolsonarismo. E Mendonça, justamente neste momento, conduz movimentos que atingem Moraes enquanto sua própria relação com Daniel Vorcaro passa a ser revelada.

É esse ambiente que torna especialmente atual o alerta de Flávio Dino.

Quando investigações, decisões judiciais, vazamentos e disputas internas de uma Corte constitucional começam a ser utilizados para fabricar heróis, vilões e narrativas a poucas semanas de uma eleição, o problema deixa de ser apenas jurídico.

Passa a ser também político.

E, como advertiu Dino, transformar o Supremo em combustível eleitoral, explorando o medo da população para conquistar votos, não é um comportamento sério nem leal.

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