Foucault e a “arte de não ser governado”

Compartilhe:

Em duas conferências, recém-publicadas no Brasil pela Ubu Editora, filósofo francês investiga a ideia de crítica a partir do prisma kantiano e reivindica: é preciso exercê-la como um “gesto de inservidão voluntária”. Leia um trecho e concorra a exemplares

Por Raíssa Araújo Pacheco, compartilhado de Outras Palavras




Foto: Imagem reproduzida no site Reflexiones Marginales

Atualmente, no universo dos críticos, há um sentimento geral de “morte da crítica especializada”. Parece que saímos da era que reservava esse gênero aos “profissionais da crítica” e entramos em um momento que privilegia o conteúdo com aspecto amador e gerado por usuários comuns. Mas, e se fossemos além desses parâmetros e pensássemos na ideia de crítica como um ato de insubordinação a tudo o que está posto?

Ainda nesse sentido, que é então a crítica? Quem a faz ou deve fazer? E qual é o seu lugar?

Bebendo da reflexão kantiana, Michel Foucault debate a questão em duas conferências: “O que é a crítica?”, de 1978, e “A cultura de si”, de 1983; fazendo paralelismos entre filosofia e liberdade.

Graças aos esforços da Ubu Editora, as palestras agora podem ser lidas pelo público brasileiro na recém-lançada obra O que é a crítica.

Outras Palavras e Ubu Editora irão sortear dois exemplar de O que é a crítica, de Michel Foucault entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 9/3, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!

Nelas, Foucault aborda o tema tendo como base o texto de Kant O que é Aufklärung? ou O que é Esclarecimento?. A partir do escrito, o filósofo define a crítica como um “movimento pelo qual o sujeito se dá o direito de interrogar a verdade sobre seus efeitos de poder e o poder sobre seus discursos de verdade; a crítica será a arte da inservidão voluntária, da indocilidade refletida.” Nesse sentido, para o autor, a filosofia passa a ser uma “atitude crítica” marcada por um modo de vida atento e insurgente, uma espécie de “arte de não ser governado”.

O francês também segue a tradição de outros de seus trabalhos e flerta com a historiografia, traçando uma genealogia da ideia de “crítica” para, a partir de uma visão histórica, refletir as formas pelas quais se dá a subjetivação na modernidade.

Utilizando o pensamento kantiano como uma ferramenta para pensar a atualidade, Foucault nos dá insumos para nos apropriarmos de algo que parece que vem caindo em desuso em nosso tempo: o pensamento crítico e a habilidade de ousar questionar e perscrutar o que se apresenta como forma dada, mandamento ou cartilha.

O volume é organizado por dois especialistas da obra foucaultiana, Henri-Paul Fruchaud e Daniele Lorenzini, que agraciam o leitor com uma introdução que situa os textos no percurso intelectual do filósofo, além de notas críticas que esclarecem referências históricas e conceituais, permitindo ao leitor compreender a articulação dos conceitos mobilizados na obra.

Além disso, seguindo a linha editorial da coleção, a brochura conta ainda com as delicadas ilustrações do artista cearense Leonilson.

Confira, logo abaixo, um trecho da introdução. Boa leitura!


INTRODUÇÃO

Daniele Lorenzini e Arnold I. Davidson

O pensamento de Michel Foucault atravessou uma série de transformações, mas com uma mesma voz, sempre reconhecível. O problema é, portanto, como apreender, de uma só vez, essas mudanças e essa voz filosófica tão singular. Cinco anos separam as duas conferências que integram o coração desta edição e que aparentemente são muito diferentes entre si. Há entre elas, no entanto, ao menos um ponto fundamental em comum, cujo valor e significado merecem ser explorados em detalhe, e que justifica uma primeira aproximação: a referência que Foucault faz ao texto de Kant “Was ist Aufklärung?”, [1] tanto ao refletir sobre o âmbito do projeto crítico kantiano quanto ao redefini-lo radicalmente para retomá-lo como seu próprio.

Essa referência atravessa os textos e as intervenções de Foucault entre 1978 e 1984, [2] mas, na maior parte dos casos, aparece de forma discreta, espaçada, sem que nenhuma análise sistemática lhe seja consagrada. Isso com exceção de dois “momentos”: em 1978, quando, após ter evocado o texto de Kant e a questão da Aufklärung na introdução à tradução para o inglês de O normal e o patológico, de Georges Canguilhem, [3] Foucault dedica-se demoradamente ao texto kantiano durante uma conferência à Sociedade Francesa de Filosofia, cuja edição crítica apresentamos aqui em primeira mão; e em 1983, quando Foucault dedica a esse texto, por um lado, a aula inaugural de seu curso O Governo de Si e dos Outros no Collège de France [4] – parte da qual será retomada e republicada sob forma de artigo em 1984 [5] – e, por outro lado, um ensaio que aparecerá nos Estados Unidos também em 1984. [6]

Ainda em 1983, no dia 12 de abril daquele ano, na Universidade da Califórnia em Berkeley, Foucault decide iniciar a conferência pronunciada como parte das “Regent’s Lectures” [7] – que também publicamos aqui pela primeira vez – com uma breve discussão do texto de Kant sobre o Iluminismo, a fim de, conforme diz, “explicar por que me interesso pelo tema da ‘cultura de si’ enquanto questão filosófica e histórica”. [8]

As duas conferências que apresentamos aqui, “O que é a crítica?” e “A cultura de si”, constituem, portanto, dois “polos” através dos quais se torna possível interrogar a evolução do pensamento de Foucault entre 1978 e 1983. Pode-se refletir, então, sobre o que mudou em sua leitura de “Was ist Aufklärung?” (nas suas mãos, uma verdadeira caixa de ferramentas), mas também sobre os elementos de continuidade que levam Foucault a invariavelmente inscrever sua própria perspectiva histórico-filosófica, bem como seu trabalho presente e passado, na esteira da questão da “crítica”. Segundo Foucault, tal questão, inaugurada por Kant em seu texto sobre o Iluminismo, não pode nem deve ser identificada com a célebre empresa crítica propriamente dita. A referência a Kant só se mantém decisiva para Foucault, e isso desde sua tese complementar sobre Antropologia, [9] porque Foucault lança luz sobre um outro Kant, ou ao menos sobre uma via “kantiana” alternativa àquela da Crítica, para retraçar a genealogia da sua própria prática filosófica.

UM TÍTULO INDECENTE OU KANT OU VERSUS KANT

O ano de 1978 é crucial no percurso intelectual de Foucault. O curso no Collège de France Segurança, Território, População inaugura o tema da “governamentalidade”, [10] que, sob a forma do problema do “governo de si e dos outros”, será o coração das pesquisas foucaultianas até 1984. É nesse mesmo curso que, ao refazer a história da ideia de governo dos homens, Foucault se detém naquilo que denomina “poder pastoral” ao propor um estudo minucioso que culmina na análise de cinco “contracondutas” pastorais da Idade Média. [11  E é em janeiro de 1978 [12] que, pela primeira vez, Foucault evoca e comenta (mesmo que brevemente) o texto de Kant sobre a Aufklärung: na introdução à tradução para o inglês do livro de Canguilhem O normal e o patológico, ao sublinhar a importância dessa obra para o pensamento francês do pós-guerra, Foucault se pergunta sobre as razões do profundo vínculo entre a reflexão que o livro propõe e o presente. Ele defende que a história das ciências, na França, foi o contexto no qual a questão do Iluminismo – isto é, a questão não apenas da natureza e do fundamento do pensamento racional, mas de sua história e geografia, de seu passado e atualidade – foi reativada como forma de examinar “uma razão cuja autonomia das estruturas traz consigo a história dos dogmatismos e dos despotismos”. [13] Assim, é primeiramente para inscrever, nesse gênero de reflexão, o trabalho de Canguilhem que Foucault descreve o momento de inauguração, no fim do século XVIII, de um “jornalismo filosófico” [14] que, ao se propor analisar o “momento presente”, forneceu à filosofia “toda uma dimensão histórico-crítica” da qual serão herdeiros Jean Cavaillès, Alexandre Koyré, Gaston Bachelard e Canguilhem (assim como os filósofos da Escola de Frankfurt). [15]

Outras Palavras e Ubu Editora irão sortear dois exemplar de O que é a crítica, de Michel Foucault entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 9/3, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!

No início do mês de abril de 1978, Foucault viaja ao Japão para uma longa estada, [16] durante a qual oferece uma série de importantes conferências. [17] Logo depois de retornar à França, em 27 de maio de 1978, Foucault apresenta a conferência “O que é a crítica?” para a Sociedade Francesa de Filosofia. Muitas circunstâncias fazem dessa uma palestra inigualável na produção intelectual foucaultiana, a começar pelo título. Foucault inclusive pede desculpas por não ter encontrado um título para sua conferência e explica na sequência que gostaria de tratar sobre “O que é a crítica?” (daí o título escolhido em 1990, na ocasião de publicação do texto no Bulletin de la Société française de Philosophie). Contudo, confessa que tinha um título que o “assombrava”, mas que, no fim das contas, ele não queria ou não ousou escolher porque teria sido “indecente”. [18] Esse título indecente é, naturalmente, “O que é a Aufklärung?” [19] – título que, em 1984, Foucault não hesitará mais em utilizar. É legítimo, então, interrogar-se quanto às razões dessa hesitação, ou melhor, quanto ao “jogo” que Foucault propõe aos membros da Sociedade Francesa de Filosofia. [20]

Sem dúvida, isso tem relação com a torção que Foucault opera na questão kantiana da crítica (transcendental), ao deslocá-la em direção ao que ele chama “atitude crítica”. De fato, segundo Foucault, se Kant abrigou a atitude crítica e a questão da Aufklärung na questão da crítica epistemológica transcendental, seria preciso “tentar fazer agora o caminho inverso”, colocando a questão do conhecimento em relação com a dominação a partir “de certa vontade decisória de não ser governado”. [21] Em outros termos, assim como, em 1969, a questão aparentemente clássica “O que é um autor?” tinha sido o pretexto para operar um deslocamento (escandaloso) do autor-sujeito para a função-autor, [22] em 1978 a questão “O que é a crítica?” abre para Foucault a possibilidade de operar um outro deslocamento (indecente): a questão epistemológico-transcendental “O que eu posso conhecer?” torna-se aqui uma “questão de atitude” [23] – e a crítica é redefinida como “o movimento pelo qual o sujeito se dá o direito de interrogar a verdade sobre seus efeitos de poder e o poder sobre seus discursos de verdade”, tendo como objetivo “o desassujeitamento no jogo [da] […] política da verdade”. [24] Ora, é sempre em Kant, mas em um outro Kant – o Kant de um texto “menor” e marginal como “Was ist Aufklärung?” [25] –, que Foucault encontra meios de operar esse deslocamento. Compreende-se talvez melhor, agora, o que um gesto como esse podia ter de indecente para uma assembleia de filósofos.


NOTAS

[1] Immanuel Kant, “Resposta à pergunta: Que é ‘Esclarecimento’ [‘Aufklärung’]?” [1784], in E. Carneiro Leão (org.), Immanuel Kant – textos seletos, trad. Floriano de Sousa Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1985, pp. 100–16.

[2] Ver infra, pp. 42–43, nota 10.

[3] Ver “Introduction par Michel Foucault” [1978], in de ii, n. 219 [“Introdução por Michel Foucault”].

[4 ] GSA, pp. 8–38 [pp. 3–40].

[5] “Qu’est-ce que les Lumières?” [1984], in de ii, n. 351.

[6] “What is Enlightenment?” [1984], in de ii, n. 339 [“O que são as Luzes?”].

[7] Série de aulas abertas promovidas pela Universidade da Califórnia, ministradas por intelectuais de destaque em diversas áreas do conhecimento. [n.e.]

[8] Ver infra, p. 81.

[9] I. Kant, Antropologia de um ponto de vista pragmático [1798], trad. Clélia Aparecida Martins. São Paulo: Iluminuras, 2006.

[10] STP, p. 111 [p. 219].

[11] Ibid., pp. 119–232 [pp. 255–304].

[12] Ver Daniel Defert, “Chronologie”, in de i, p. 73 [“Cronologia”, p. 50].

[13] Michel Foucault, “Introduction”, in Georges Canguilhem, On the Normal and the Pathological [1966], trad. Carolyn R. Fawcett. Dordrecht/Boston/London: D. Reidel Publishing Company, 1978, p. XII.

[14] Esse tema – do “jornalismo filosófico” –, associado ao texto kantiano sobre o Iluminismo, retorna em artigo publicado em abril de 1979 (ver “Pour une morale de l’inconfort” [1979], in de II, n. 266, p. 783 [“Para uma moral do desconforto”, p. 279]); depois, porém, desaparece inteiramente, talvez por causa das controvérsias que se seguiram às reportagens sobre a Revolução Iraniana. Ver também infra, pp. 43–44, nota 12.

[15] “Introduction par Michel Foucault”, op. cit., pp. 431–33 [“Introdução por Michel Foucault”, pp. 427–29].

[16] Ver D. Defert, “Chronologie”, op. cit., p. 74 [“Cronologia”, pp. 50–51].

[17] Ver infra, p. 33, nota 1.

[18] Infra, p. 34.

[19] Infra, pp. 65.

[20] Esse problema foi abordado por Frédéric Gros e Philippe Sabot em dois preciosos artigos: F. Gros, “Foucault et la leçon kantienne des Lumières”. Lumières, n. 8, 2006, pp. 159–67; P. Sabot, “Ouverture: Critique, attitude, résistance”, in É. Jolly e P. Sabot (orgs.), Michel Foucault: À l’épreuve du pouvoir. Villeneuve-d’ Ascq: Presses universitaires du Septentrion, 2013, pp. 13–26.

[21] Ver infra, p. 65.

[22] Ver “Qu’est-ce qu’un auteur?”. Bulletin de la Société Française de Philosophie, ano 63, n. 3, jul.–set. 1969, pp. 73–104 (republicado in de i, n. 69, [“O que é um autor?”]).

[23] Infra, p. 65. Sabe-se muito bem que, na tradição ocidental, a questão epistemológica-transcendental é digna de tratamento filosófico; a atitude crítica, por outro lado, pode parecer mais um objeto sociológico, que não merece “visão altiva e profunda do filósofo”. Ver “Nietzsche, la généalogie, l’histoire” [1971], in de I, n. 84, p. 1004 [“Nietzsche, a genealogia e a história”, p. 15].

[24] Infra, p. 41.

[25] Hoje em dia, corremos o risco de esquecer o fato de que esse texto de Kant era inteiramente desconhecido quando Foucault resolveu falar dele e de perder de vista, portanto, o valor subversivo de sua decisão, que visava abolir a tradicional distinção entre obras relevantes e irrelevantes. Sobre essa atitude filosófica, que Foucault partilha com Bachelard, ver “Piéger sa propre culture” [1972], in de I, n. 111, p. 1250 [“Armadilhar sua própria cultura”, p. 1].

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Categorias