E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, pôs os pés na consagrada Portelinha, primeira quadra da gloriosa escola de samba de Oswaldo Cruz e Madureira. Lá esteve para assistir homenagem à querida, terna e eterna Cristina Buarque, pelo grupo Terreiro Grande, de SP, que ela tanto adorava. Bem como a sempre jovial Velha Guarda.
Beija-Flor, 17 de agosto de 2026.
Você já foi à Portelinha? Não? Então vá.
Sábado passado nós fomos. Homenagem à querida Cristina Buarque, em Paquetá conhecida como Maria Christina Ferreira.
Pegamos o Uber aqui na Beija-Flor e fomos. Meia hora de trajeto. Com certeza há outros caminhos, mas o motorista decidiu fazer um trajeto tipo tour por entre as favelas mais faladas do Rio de Janeiro.
Então passamos pela entrada do Chapadão, depois pela da Pedreira, atravessamos a faixa de Gaza – a linha do trem. Seguimos. Todo aquele caminho, até sair em Barros Filho. Saímos por Barros Filho, andou-se um pouco mais, passamos por debaixo da Avenida Brasil, por Honório Gurgel e fomos chegar ao destino, sãos salvos.
Quer dizer, já chegamos ali depois de uma verdadeira aventura: não passava nem um fio de cabelo e com uma sede de camelo. Entramos. Ufa! Encontramos com o senhor M, já de copinho na mão.
A quadra sem luz, a cerveja gelada, versão de cabeça fria, coração quente. Então é essa a Portelinha, a primeira quadra da Portela. As pessoas que nos atenderam, membros da Velha Guarda, todos eles de azul e branco. São pessoas que atingiram outro patamar de sociabilidade, eles sabem quem são e o que representam.
Estiquei o pescoço para ver o ambiente. Alguns adereços, talvez, de desfiles anteriores, uma águia pendurada no teto, um poema e os cobogós que servem para arejar e iluminar o local.
Estávamos ainda às escuras. Fazer xixi, por exemplo, era uma aventura. Teve gente que usou o celular para fazer xixi, para iluminar. Depois arrumaram umas velas, ficou mais engraçado ainda. Parecia, sei lá, centro espírita das antigas.
Lembrei da minha mãe, que botava uma Vela de Sétimo Dia em cima do guarda-roupa, ficava aquela luz assim, baça, por sete dias. Não sei como que ela não botou fogo na casa, haja anjo da guarda.
E ficamos por ali, o samba já ia começar, conversando com o senhor M, com a Deinha, e com a Celinha, até que chegou um momento assim, clareou, não sei que horas eram, mas veio uma luz, sabe, a luz atravessou, passou pelos cobogós, e a quadra, iluminada.
Ah, eu conheci o Ricky, que também é de Paquetá, e que estava elegantemente vestido, esporte fino: vestia uma camisa do Fluminense, um boné, e tal. Realmente o cara foi para, como diziam os americanos, dressed to kill. Flu que tá bem é o time da Cristi a e de toda a família Ferreira Buarque.
E era dia de um jogo importantíssimo para a gente, o Fluminense enfrentaria o Palmeiras. De modo que eu estava de olhos e ouvidos no samba e no jogo.Que samba, meus amigos. Que jogo, meus amigos.
O pessoal da velha guarda da Portela é tão bacana que eles serviram um macarrãozinho com carne moída para os bêbados, comidinha de bêbado, e também botaram para vender cerveja Heineken.
Maritaquinhas, não é? Então, quem não era de Brahma, tinha opção. Preço bom, não era um preço para turista, não, era um preço bem acessível.
Então, foi uma diversão só, uma grande alegria ter conhecido o Ricky, ter ficado numa mesa ali muito perto do pessoal da Cristina, dos netos, eu acho, eles estão muito parecidos, tem um traço bem característico, e eles lá, a criançada lá, fazendo coisas das crianças, aquele ali não era propriamente o evento deles, então pra isso tem um celular, eles ficam de boa, conversando. Vê-se que é uma galera muito próxima, muito unida.
Quanto à qualidade da música e à espontaneidade do evento em si, diga-se que há elegância, e espontaneidade, algo que a própria organização espacial reflete: faz-se a roda como se faz a luz, que voltou a certa hora.
É bonito ter essa sensação, esse poder de tocar junto e de ter que se ouvir mais. Não sei, estou falando de orelhada, mas é a impressão que se tem. E as pessoas muito felizes, a quadra cheia, as pessoas muito felizes, muito satisfeitas, assim como todos nós.
Por derradeiro, um poema-síntese:
Eu tive a honra de conhecer
A quadra da Portelinha
Eu pedi Brahma no bar só porque
Eu fui beber com a Cristina
Ai, quanta gente maneira
Em torno daquela mesa
Salve, Portela querida
Salve, Cristina Ferreira
A Velha Guarda me guarda porque
Não se guarda história em banco
Em volta da quadra a águia a dizer:
Esse planeta é azul e branco
Ai, quanta gente maneira
Em torno daquela mesa
Salve, Portela querida
Salve, Cristina Ferreira







