João Pedro, 14 anos, morre durante ação policial no Rio, e família fica horas sem saber seu paradeiro

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Por Leonardo Coelho do Ponte, compartilhado de El País

Segundo o aplicativo Fogo Cruzado, João Pedro é o vigésimo quarto adolescente baleado no Estado em 2020. Destes, 12 foram alvejados em situações com presença de agentes de segurança e cinco morreram

João Pedro Matos Pinto estava dentro da casa de familiares quando foi baleado.
João Pedro Matos Pinto estava dentro da casa de familiares quando foi baleado.REPRODUÇÃO/TWITTER

O adolescente João Pedro Matos Pinto, 14 anos, foi morto com um tiro na barriga após uma operação conjunta da Polícia Federal e da Polícia Civil no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Resgatado por um helicóptero do Corpo de Bombeiros, o jovem desapareceu por horas e foi encontrado apenas na manhã desta terça-feira (19/5) pela família no Instituto Médico Legal de Tribobó, na mesma cidade.

Um amigo da família ouvido pela Ponte detalhou, sob condição de anonimato, que a ação ocorreu por volta das 15h, na localidade conhecida como Praia da Luz, na Ilha de Itaoca. “O João estava na casa de um familiar com vários parentes jogando sinuca e só sabemos que a polícia entrou atirando na casa”, lembra o conhecido, afirmando ainda que quem fez os primeiros-socorros foi um primo que estava de carro.




Um vídeo enviado à Ponte mostra as paredes da casa com buracos de tiros em vários cômodos e marcas de sangue no chão:

“Ele levou o primo até um campo ali perto e, de lá, ele foi levado pelos agentes por helicóptero. Ele disse que o João estava bem mal”, complementa o amigo da família.

Segundo a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ), o objetivo era cumprir dois mandados de busca e apreensão contra lideranças de uma facção criminosa. Durante a ação, seguranças dos traficantes tentaram fugir pulando o muro de uma casa e teriam disparado contra os policiais e arremessado granadas. Testemunhas ouvidas pela reportagem citaram que as únicas granadas vieram dos agentes das forças de segurança.

Após o fim da operação, parentes de João iniciaram uma peregrinação em inúmeros hospitais da região, incluindo na capital, Rio de Janeiro, sem sucesso.

“A gente ficou sem saber dele por horas. Fomos pra todos os lugares. Ninguém tinha notícia dele”, disse uma tia da vítima, que prometeu que não haverá injustiça para seu sobrinho. “Ele não vai sair como traficante nessa história, nem que seja a última coisa que eu faço”. João era visto como filho exemplar e aluno modelo.

Ao portal G1, Neilton Pinto, pai de João, afirmou que a ação policial foi cruel. “Atiraram, jogaram granada, sem perguntar quem era. Se eles conhecessem a índole do meu filho, quem era meu filho, não faziam isso. Meu filho é um servo de Deus. A vida dele era casa, igreja, escola e jogo no celular”, declarou.

Por volta das 21h30 da segunda-feira (18/5), um primo de João pediu ajuda no Twitter. “Os traficantes entraram na casa e os policiais saíram atirando e atingiu ele na barriga”, diz a postagem.

O jornal O Dia informou que o jovem foi deixado já sem vida no heliponto da Lagoa Rodrigo de Freitas, de onde saem aeronaves para esse tipo de operação. De lá, teria sido levado ao IML de São Gonçalo.

A localidade de Itaoca, em São Gonçalo, é conhecida como ponto de fuga para traficantes do Complexo do Salgueiro, dominado pelo Comando Vermelho, que escapam de operações da polícia em São Gonçalo. Segundo o aplicativo Fogo Cruzado, João é o vigésimo quarto adolescente baleado no Rio de Janeiro em 2020. Destes, 12 foram alvejados em situações com presença agentes de segurança do Estado e cinco morreram.

A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) disse, em nota, que a Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) instaurou inquérito para apurar a morte do adolescente durante operação da Polícia Federal com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo.

Ainda, segundo a instituição, foi realizada perícia no local e duas testemunhas prestaram depoimento na delegacia. Os policiais foram ouvidos e as armas, apreendidas para confronto balístico. Outras diligências estão sendo realizadas para esclarecer as circunstâncias do fato.

A Polícia Federal foi questionada, por e-mail, sobre a operação. Em nota, a Superintendência da PF no RJ confirmou que as informações da Polícia Civil de que se tratava de um cumprimento de mandados de busca e apreensão contra lideranças de uma facção criminosa da região.

“Seguranças dos traficantes tentaram fugir pulando o muro de uma casa, dispararam contra os policiais e arremessaram granadas na direção dos agentes. No local foram apreendidas granadas e uma pistola”. A PF enviou imagens do material apreendido.

Pistolas, munição, eppendorfs (para acondicionamento de cocaína), tijolo de maconha e roupas de camuflagem que a PF afirma terem sido apreendidos em operação.
Pistolas, munição, eppendorfs (para acondicionamento de cocaína), tijolo de maconha e roupas de camuflagem que a PF afirma terem sido apreendidos em operação.DIVULGAÇÃO/POLÍCIA FEDERAL

Sobre o atendimento prestado a João, a PF informa que “ele foi socorrido de helicóptero” e que “médicos do Corpo de Bombeiros prestaram atendimento, mas ele não resistiu aos ferimentos”, sendo levado, posteriormente, ao IML. A Polícia Federal também destaca que “acompanhará e prestará todas as informações e apoio necessário à elucidação dos fatos”.

Matéria originalmente publicada no site da Ponte Jornalismo em 19 de maio de 2020.

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