Angela Carrato, jornalista
1. RENATA DESLUMBRADA NA NOVA YORK IRREAL
Pela primeira vez na história das Copas do Mundo, três países vão sediar o evento: Estados Unidos, México e Canadá.
A abertura acontecerá nesta quinta-feira, no estádio Azteca, na cidade do México, a capital mexicana. No entanto, a edição do Jornal Nacional desta segunda-feira (8/6) foi quase toda dedicada a badalar Nova York, onde, no sábado, a Seleção Brasileira estreará jogando contra o Marrocos.
O mais razoável não seria ter enfocado o México, suas tradições e as belezas da sua vibrante capital, que reúne 22 milhões de habitantes e uma história que pode ser considerada síntese da América Latina?
Mas o JN só tem olhos para Nova York, como se o mundo começasse e terminasse nessa cidade, campeã mundial da desigualdade.
Para cobrir os 37 dias da Copa do Mundo, o JN despachou para lá, onde as emissoras do Grupo Globo terão seu QG, a âncora Renata Vasconcellos, oito equipes de reportagem, comentaristas e analistas de futebol.
Renata parecia uma estagiária deslumbrada, visitando aqueles velhos e batidos cartões postais de Manhattan e achando o máximo encontrar num deles um bar onde garçons e garçonetes são também cantores.
Os locais escolhidos por ela para mostrar a cidade não tinham quase nada a ver com a Copa do Mundo e, menos ainda, com a realidade de Nova York.
Aquela cidade, exaltada por Frank Sinatra, só existe na imaginação da Renata e dos editores do JN.
A Nova York real, que concentra o maior número de bilionários, é a mesma em que 25% da população vive na miséria. Na Nova York real, a maioria das pessoas ocupa espaços exíguos e luta com tremenda dificuldade diante de um custo de vida altíssimo e de aluguéis exorbitantes.
Não por acaso, o atual prefeito, o muçulmano Zohran Mamdani, que tomou posse há seis meses, tem na taxação de imóveis de alto luxo, um dos compromissos de campanha que o levaram à vitória.
Crítico contundente de Donald Trump, do sionismo, do imperialismo e das guerras bancadas pelos Estados Unidos, Mamdani não foi sequer mencionado, numa tentativa de não desagradar patrocinadores e à própria Casa Branca.
Para além de paixão nacional, o futebol é uma galinha de ovos de ouro para a família Marinho.
Curiosamente, a política antiimigração de Trump, a truculenta ICE, já fez a primeira vítima antes mesmo do início da Copa, com a proibição para o árbitro somali, Omar Artan, entrar no país.
O JN apenas registrou o fato.
Essa irreal reportagem sobre Nova York e a Copa durou mais de meia hora, ocupando todo o primeiro e grande parte do terceiro blocos desta edição.
Não foi por falta de tempo que Renata ou alguém das oito equipes deixou de informar ao público que cada ingresso para assistir aos jogos está custando em média US$ 5 mil, não incluído hospedagem, alimentação e o deslocamento para os estádios.
Já o ingresso para o encerramento do torneio não sairá por menos de R$ 70 mil, transformando uma festa que deveria ser popular em algo profundamente elitizado.
Quando a Copa foi no Brasil, em 2014, o alto preço dos ingressos foi motivo de muita crítica do JN ao governo de Dilma Rousseff, mesmo o evento sendo responsabilidade de uma entidade privada.
Óbvio que não ocorreu à deslumbrada Renata mencionar nada disso e nem apontar os riscos reais da ICE aproveitar a Copa do Mundo para prender ilegalmente e deportar imigrantes.
Trump e o Tio Sam, que representam um perigo real para o mundo, que estão tentando recolonizar a América Latina e o Brasil, foram tratados de foa totalmente acrítica pelo telejornal da família Marinho.
O nome disso é ganância regada a altíssimas doses de subimperialismo.
2. INAUGURAÇÃO DA TORRE DA BASÍLICA DA SAGRADA FAMÍLIA, EM BARCELONA
O papa Leão XVI está na Espanha onde inaugura, na quinta-feira, a torre mais alta da Basílica da Sagrada Família.
Com 144 anos de existência, a Basílica é um projeto do conceituado arquiteto catalão Antônio Gaudí, cujo centenário de morte se comemora em 2026.
O papa Leão XVI está aproveitando a viagem para grandes encontros com os católicos espanhóis e para reafirmar o compromisso do Vaticano com os direitos humanos, o combate às guerras e opressões.
Tudo isso somado à inauguração, sem dúvida justifica uma reportagem. Só não justifica que o JN tenha transformado o assunto em uma espécie de visita turística à Basílica, consumindo preciosos minutos que poderiam ser dedicados a assuntos mais relevantes para os brasileiros.
É importante não se esquecer do sincericídio cometido pelo fundador do Grupo Globo, Roberto Marinho: tão importante quando o que mostramos é o que deixamos de mostrar.
Foram muitos os assuntos que esta edição do JN escondeu do público. No plano nacional se destacam pelo menos dois: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tentando jogar para depois das eleições de outubro a discussão do fim da jornada 6×1, já aprovada pela Câmara dos Deputados, e o derretimento da pré-candidatura do extremista de direita Flávio Bolsonaro.
3. A VITÓRIA DA ESQUERDA NO PERU
No plano internacional, a principal notícia desta segunda-feira, ignorada pelo JN, foi a vitória do candidato de esquerda Roberto Sánchez, na eleição para presidente do Peru.
Sánchez venceu a extremista de direita, Keiko Fujimori, que disputava pela quarta vez.
Mesmo não tendo feito declaração direta de apoio a Keiko, Trump dava como certa a sua vitória, com a mídia corporativa local, as agências de notícias internacionais e a turma das big techs jogando abertamente contra Sánchez.
Por uma margem apertada de votos, ele tecnicamente já é o vencedor.
O final da apuração ainda leva alguns dias, pois o sistema não é eletrônico. Mas os votos que faltam apurar, do interior e da região da Selva, são tradicionalmente contrários ao fujimorismo e não modificam o resultado.
O JN solenemente ignorou tudo isso, em mais uma prova de subserviência a Trump e tentativa de esconder como a América Latina começa a se rebelar contra governos tutelados pelos Estados Unidos.
Esse é também o motivo pelo qual as manifestações populares que têm tomados as ruas das principais cidades na Bolívia, Argentina, Chile e Equador não são notícia no JN.
É igualmente o motivo pelo qual a campanha eleitoral para presidente na Colômbia não está sendo coberta pelo JN.
Lá, o segundo turno, marcado para 21 de junho, será disputado entre o extremista de direita, Abelardo de la Espriella, e o candidato de esquerda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, Iván Cepeda.
O JN ignora a América Latina, pois além dos países mencionados, não há cobertura sobre o criminoso e genocida cerco que Trump está fazendo a Cuba e nem qualquer referência ao sequestro e prisão pelos Estados Unidos do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa a deputada Cilia Flores, que já dura cinco meses.
Se o JN pudesse, apagaria a América Latina do mapa e transferiria o Brasil para a América do Norte, para “melhor” se integrar aos Estados Unidos.
Mais do que viralatismo e subimperialismo, estamos diante de um caso de realidade paralela que historicamente vem nos custando muito caro.







