Uma vez definida a lógica desse “congresso”, os textos passaram a fluir com mais facilidade, contou o escritor ao jornalista do GGN
Por Haroldo Ceravolo Sereza, compartilhado da Alameda Casa Editorial
A origem do livro O congresso dos desaparecidos não está em um arquivo secreto nem em uma revelação tardia, mas em uma cena concreta. Bernardo Kucinski conta, em entrevista a Luís Nassif, que a ideia surgiu quando participou, em Brasília, de um congresso organizado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, reunindo familiares de vítimas da ditadura. Diante daquele encontro, veio a pergunta que daria forma ao livro: se há um congresso dos familiares, por que não imaginar um congresso dos próprios desaparecidos?
A partir dessa intuição, Kucinski começou a elaborar uma concepção literária própria sobre a presença dos mortos. Pensou longamente em como esses desaparecidos poderiam existir no plano da ficção: se teriam aparência, se falariam, se moveriam objetos, se manteriam vínculos entre si. A espiritualidade do livro, explica, não nasce de uma doutrina religiosa, mas da necessidade de dar corpo narrativo a vidas interrompidas e jamais encerradas pela história oficial.

Na entrevista, Kucinski afirmou que o trabalho de imaginação veio depois de muita reflexão. Uma vez definida a lógica desse “congresso”, os textos passaram a fluir com mais facilidade. Os capítulos foram se encadeando como vozes que, silenciadas pela violência de Estado, finalmente encontravam espaço para falar — não como alegoria abstrata, mas como presença incômoda e persistente.
O autor também relembrou sua trajetória no jornalismo dos anos 1970, período em que atuou como correspondente do jornal The Guardian no Brasil. Era um tempo de censura, repressão e alinhamento estrutural da grande imprensa com o regime militar. Esse passado profissional, marcado pelo contato direto com informações sobre a máquina repressiva, atravessa sua literatura, ainda que transformado pela linguagem da ficção.
Questionado sobre o jornalismo na era das redes sociais, afirmou que a imprensa não morreu. Ao contrário, reciclou-se, adaptou-se ao ambiente digital e segue desempenhando um papel fundamental na denúncia de autoritarismos, violações de direitos humanos, corrupção e tortura. O risco, apontou, está na uniformização dos discursos e na repetição acrítica de enquadramentos.
A conversa também tratou de um tema duro da memória da ditadura: a Guerrilha do Araguaia. Kucinski classificou a operação como um projeto desastroso, mal planejado e conduzido de forma clandestina até mesmo dentro do próprio Partido Comunista do Brasil. Jovens militantes, escolhidos entre os quadros mais preparados, foram enviados à selva sem apoio real e acabaram caçados, presos e assassinados pelas Forças Armadas.
Assista à entrevista completa:







