Lula foi eleito para seu quarto mandato presidencial aos 80 anos. Sua disposição emociona porque enfrenta o preconceito que transforma o envelhecimento numa espera pela despedida. Nele, a velhice continua fazendo planos, disputando caminhos e desejando o futuro. Sem contar sua vitalidade espantosa.
Por Alexandre Machado Rosa, compartilhado de Brasil 247
Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

LulaCrédito: Ricardo StuckertNewsletter
Trabalhando o sal
Pra ver a mulher se vestir
E ao chegar em casa
Encontrar a família a sorrirPlay Video
Filho vir da escola
Problema maior, estudar
Que é pra não ter meu trabalho
E vida de gente levar – Canção do sal — Milton Nascimento, 1967
O trabalhador da canção de Milton carrega no corpo o peso do trabalho e, no coração, a esperança de encontrar a família sorrindo. Quer ver o filho estudar, escapar do sofrimento que conhece tão bem e levar uma vida de gente. Seu suor tem o gosto do sal e a medida do amor e da esperança.
É algo profundamente humano: o desejo. Trabalhar, voltar para casa, abraçar quem se ama e acreditar que amanhã a vida poderá ser melhor. Talvez esteja aí uma das forças que ajudam a compreender Lula. Um menino pobre que envelheceu sem abandonar a esperança de mudar o destino principalmente dos seus iguais.
No Brasil, a expectativa de vida dos homens ao nascer era de 73,3 anos, segundo as Tábuas de Mortalidade de 2024 do IBGE. Mas a média é só uma média e não pode ser confundida com uma sentença. E a mesma média se altera quando os homens chegam aos 60 anos, aumentando a esperança de vida para mais 20,8 anos. Se chegar aos 80, ela vai pra mais 8,3. A existência não obedece a um prazo de validade.
Obviamente, viver mais depende de condições materiais. A moradia, alimentação, segurança, saúde, transporte digno, descanso e lazer são alguns determinantes. Mas depende também de encontrar acolhimento, de ter com quem conversar, de sentir que nossa presença importa. O afeto participa da vida, embora nenhum amor possa substituir a comida no prato ou o atendimento de saúde.
Lula foi eleito para seu quarto mandato presidencial aos 80 anos. Sua disposição emociona porque enfrenta o preconceito que transforma o envelhecimento numa espera pela despedida. Nele, a velhice continua fazendo planos, disputando caminhos e desejando o futuro. Sem contar sua vitalidade espantosa.
É nessa presença que reconheço o cuidado de si e do outro. Cuidar do próprio corpo, preservar o desejo de viver e encontrar razões para seguir adiante ganha outro sentido quando esse movimento se volta também para quem sofre. Na política, o cuidado precisa chegar à mesa, à escola, ao posto de saúde, à casa de quem ainda espera por uma vida digna.
Lula sempre recorda Dona Lindu. A mãe permanece como memória de proteção em meio à pobreza, como alguém que sustentou a possibilidade de continuar. Há pessoas que atravessam nossa existência dessa maneira, que, mesmo ausentes, seguem nos ajudando a ficar de pé.
Quem foi cuidado conhece a força de uma mão estendida. E pode fazer dessa lembrança um compromisso com os outros. Talvez por isso a experiência da fome tenha tanto peso quando Lula fala de comida, e a infância sem oportunidades reapareça quando fala de educação.
Sua vitalidade não pode ser exigida de todos os homens com 80 anos mais. Há quem chegue à velhice exausto, adoecido, ferido pelo trabalho e pelo abandono. Essas pessoas também precisam ser amadas, protegidas e reconhecidas. Uma sociedade se humaniza quando cuida de quem já não consegue acompanhar sua pressa.
O trabalhador de Milton queria que o filho tivesse uma vida melhor. Lula nos lembra da força política desse desejo tão íntimo. Afinal, nossa luta por sobrevivência carrega também a vontade de sorrir, de pertencer, de amar e ser amado.
Viver vale a pena. E cuidar do outro é lutar para que ele também possa sentir isso.







