Bets, o jogo da morte também no Exterior

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Por Paulo Faria, jornalista brasileiro morador em Londres, exclusivo para o Bem Blogado

Por quase dois anos trabalhei como analista de mídia para a Samaritans UK, a maior ONG de prevenção ao suicídio do Reino Unido. Ao me oferecer esta conta, minha então gerente me alertou sobre a natureza do que encararia: “Se não quiser não hesite em recusar, o assunto é bem deprimente”. Não demorou para eu perceber uma realidade devastadora que até então desconhecia: a frequência alarmante com que famílias são destruídas pelas bets.




O próprio governo britânico estima que pelo menos um suicídio por dia no país esteja diretamente ligado aos danos psicológicos e financeiros causados por aplicativos de apostas. Ao longo do tempo em que acompanhei essa cobertura, ficou claro como as armadilhas intencionalmente predatórias desta indústria empurram pessoas vulneráveis para o abismo.

A escalada dessa crise vem sendo minuciosamente documentada pelo The Guardian. Em 19 de março de 2019, o jornal reportou um estudo da Universidade de Lund, na Suécia, revelando que viciados em apostas têm 15 vezes mais chances de tirar a própria vida. Naquele ano, isso representaria cerca de 550 casos de suicídio só no Reino Unido (https://tinyurl.com/yc3ernmk).

Os relatórios de inquéritos mostram o tamanho do estrago. Em 14 de junho de 2023, o Guardian noticiou o caso de Luke Ashton, que aos 40 anos desistiu da vida após chegar a fazer até 100 apostas por dia, revelando um quadro de descontrole total sobre o vício. O caso de Luke abriu precedente para que uma empresa de apostas por aplicativo fosse formalmente envolvida em um processo criminal pela primeira vez (https://tinyurl.com/4vnt8sak).

Logo depois foi a vez de Ollie Long virar manchete. Em 2024, após um ciclo de oito anos de vício, recuperação e recaída, Ollie tirou a própria vida aos 36 anos — vítima de bets que veiculam anúncios e oferecem “benefícios” direcionados a pessoas em plena fase de reabilitação, evidenciando o uso de táticas cruéis para explorar indivíduos fragilizados (https://tinyurl.com/37jmuda2).

Estes são apenas alguns casos dos quais me lembro de ter acompanhado, mas estão muito longe de ilustrar a dimensão real da tragédia. Recentemente, o Guardian da Austrália trouxe à tona outra história avassaladora: em 20 de outubro de 2026, o jornal publicou a investigação de um legista que apontou as bets como fator “direto e decisivo” para o suicídio de Kyle Hudson, 22 anos.

Kyle abriu sua primeira conta no dia em que completou 18 anos e perdeu mais de 895 mil dólares australianos — cerca de R$ 3,4 milhões — em apenas quatro anos. Ciente de que cavava para si um buraco cada vez mais fundo, Kyle acionou os alertas internos de risco da Sportsbet 37 vezes. A empresa ignorou todos os avisos e não moveu um dedo para salvá-lo.

Coube a Paul Lawrie, o legista, então desmontar a tese absurda da Sportsbet de que o jovem não corria perigo. Paul Lawrie exigiu o fim da farra publicitária, a obrigatoriedade de exibir o prejuízo real dos usuários nas telas e a criação de uma agência reguladora independente, tirando a fiscalização das mãos de quem lucra com a tragédia alheia (https://tinyurl.com/3f3exhdz).

Esses casos servem como um aviso urgente e pedagógico para o Brasil. O Supremo Tribunal Federal deve manter a proibição definitiva dos aplicativos de apostas para evitar uma catástrofe de saúde pública em um país que já enfrenta problemas suficientes sem a “ajuda” dos jogos de azar. Essas plataformas são concebidas com uma única finalidade: moer vidas humanas.

Os únicos que ganham com essa aberração são empresários, investidores e influenciadores antiéticos, imorais e predatórios que enriquecem às custas do sofrimento alheio.

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