Por Angela Carrato, jornalista
Na ânsia de tentar derrotar Lula, o JN está se enterrando e enterrando o tal ” “jornalismo profissional’ que diz colocar em prática.
Se Lula, com este magnífico discurso na ONU, fez história, esta edição do JN também vai entrar para a história. Só que pela porta dos fundos, como material para aula sobre manipulação jornalística.
Qualquer estudante de primeiro período de Jornalismo sabe que a principal chamada do Jornal Nacional, na edição desta terça-feira (22/9), deveria ter sido para o discurso do presidente Lula, na abertura dos trabalhos da ONU.
Nos meios políticos, nacional e internacional, a fala de Lula estava sendo muito aguardada, porque representava um momento de confronto da posição multilateralista e em defesa da soberania nacional com o autoritarismo e o imperialismo expressos por Donald Trump.
Apesar de ter feito um discurso exemplar, abordando a falência do atual modelo da ONU, em que algumas potências possuem o anacrônico poder de veto, de reafirmar a soberania nacional -“o Brasil não cabe no quintal de ninguém” – de criticar, sem citar nomes, os Estados Unidos pelas guerras em várias partes do mundo e pela ingerência na América Latina, os editores do JN, do alto de sua subserviência à família Marinho, decidiram que o assunto que deveria abrir a edição era a morte do cantor sertanejo Rick, num acidente de helicóptero.
Morte de artista em acidente é sempre notícia, mas ela poderia ter sido dada no segundo, terceiro ou mesmo no último bloco do JN, como foi feito com a morte do consagrado jornalista Zuenir Ventura.
Ao abrir a edição desta forma e, na sequência, dar destaque para a mirabolante defesa do ministro André Mendonça no sentido de que o STF não acolha o pedido de investigação contra ele feito pelo também ministro Alexandre de Moraes, o JN deixou patente a sua posição: minimizar a importância de Lula, como se seu discurso fosse algo de rotina, e transformar o ministro “terrivelmente evangélico”, em novo “salvador da pátria”.
O problema é que Mendonça deve muito mais explicações envolvendo seu relacionamento com o corrupto ex-banqueiro Daniel Vorcaro do que o próprio Moraes.
Isso, claro, o JN simplesmente esconde dos telespectadores.
Essas foram algumas pirotecnias contra o discurso de Lula, mas estavam longe de dar conta de toda a manipulação colocada em prática nesta edição do JN.
Ao invés de mostrar a enorme repercussão e acolhida do discurso de Lula junto aos presidentes e líderes políticos presentes na sessão, como indicam os aplausos que recebeu, o JN diluiu o fato numa chamada insossa e burocrática do tipo: o primeiro dia na agenda de reunião da ONU.
E a manipulação não parou ai.
Ao invés de mostrar o discurso de Lula na ordem em que aconteceu, após apenas o do secretário geral da entidade, Antônio Guterres, que se despediu do cargo, o JN se deu o direito de divulgar o discurso de Trump, que foi após o de Lula, antes do de Lula.
Para quem não acompanha política internacional, a inversão pode ter passado despercebida, mas foi gravíssima.
Ficou parecendo que Trump pautou o discurso de Lula, quando foi exatamente o contrário.
Lula, com elegância, deixou nítida a prepotência e o imperialismo de Trump em relação ao Irã, a Venezuela e a Cuba e, sobretudo em relação ao próprio Brasil.
Criticou a tentativa de ingerência nas eleições em outubro, reafirmou o compromisso democrático do seu governo e a excelência de nosso sistema eleitoral.
Ao discursar após Lula, Trump gastou 40 minutos – o dobro do tempo sugerido pelo evento – atacando meio mundo, dizendo que faz e acontece e insistindo em designar facções criminosas como o PCC e o CV como terroristas semelhantes à Al Quaeda.
Na maior cara de pau, César Tralli, Renata Vasconcellos e alguns repórteres dedicaram minutos e mais minutos para explicar a nova relação de Trump com a Groenlandia, mas não falaram absolutamente nada sobre a pressão de Trump sobre as eleições brasileiras.
Pressão que a própria Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) vê risco de aumentar.
Não é nenhuma novidade o grupo Globo atuar contra a democracia e contra os interesses da maioria da população. Antes isso demorava a vir à tona, mas agora, com as redes sociais, é algo imediato.
Se depender da família Marinho e da maior parte da classe dominante brasileira, um preposto de Trump, como é o caso do lesa pátria e corrupto, Flávio Bolsonaro, pode entregar o Brasil de porteira fechada para o Laranjão, desde que ela continue vivendo nababescamente.
Ainda bem que Lula resolveu se confrontar a esta turma, ao denunciar o fascismo que ronda a nossa democracia.
Ele é o único dentre os candidatos à presidência da República, que não quer privatizar, que é pela ampliação das políticas públicas e entende que riquezas, como petróleo e terras raras, devem ser exploradas em benefício da maioria da população.
Como a família Marinho não quer nem ouvir falar nestes assuntos, não foi feita qualquer repercussão com políticos, empresários, líderes sindicais ou lideranças sociais. Repare que o JN acertadamente repercutiu as mortes de Rick e de Zuenir, mas impôs repercussão zero ao importantíssimo discurso de Lula.
Dito de outra forma, o JN está fingindo que cobre o governo Lula e a campanha eleitoral. Fingimento que se estende à tal “agenda dos candidatos”.
Neste espaço no JN, os candidatos de oposição falam qualquer coisa e não há contraditório.
Jornalismo não é isso. O fato de ser candidato não isenta a pessoa de ter compromisso com os fatos.
Em nenhum telejornal minimamente sério, por exemplo, Flávio Bolsonaro diria que quer ampliar o ensino tecnológico, sem ser perguntado como fará isso cortando verbas públicas para a educação, como sua equipe de campanha já deixou claro.
O mesmo em relação à proposta de Zema no sentido de pedagiar todas as rodovias brasileiras para melhorá-las. A péssima situação em que se encontram as rodovias mineiras, depois de dois mandatos seus, indica o desacerto da proposta.
O papel da mídia é mostrar isso para o cidadão e não apenas dar espaço para candidatos falarem qualquer coisa e ficar por isso mesmo.
Na ânsia de tentar derrotar Lula, o JN está se enterrando e enterrando o tal ” “jornalismo profissional’ que diz colocar em prática.
Se Lula, com este magnífico discurso na ONU, fez história, esta edição do JN também vai entrar para a história. Só que pela porta dos fundos, como material para aula sobre manipulação jornalística.







