Mais uma Copa pro Professor Alfredo

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, escala o Professor Alfredo para sonhar com a Copa do Mundo. Apita árbitro:

Quem vai ganhar a Copa? Eis a pergunta que o professor Alfredo Urizzi lança em sua hipotética sala de aula. Ele tem nas mãos um já tanto desbotado globo terrestre, o seu oráculo. O mundo não é chato. O mundo é uma bola.





Não adianta consultar os fios de ouro do pássaro azul. Ou adianta? Em eventos deste naipe, vale a imagem de Walt Whitman: a canção da estrada aberta. Tudo pela frente a se conhecer. Os fios de ouro vão sendo habilmente tecidos pelas mãos caprichosas do destino. Os deuses do futebol gostam de pregar peças, mas até certo ponto.


Por enquanto, ele diz, só dois continentes foram campeões: a Europa e a América do Sul. Será que desta vez um time africano chega até a final? E um time da Ásia? E da Oceania? E da América do Norte? A saber.


O professor Alfredo de vez em quando se deixa percorrer os campos da memória. Revê e reescreve alguns jogos, impondo-lhes arbitrariedades. Em 1982, por exemplo, de vez em quando o Brasil empata o jogo contra a Itália. De vez em quando perde. Em 1950, o Brasil perde. Em 2014, também, mas não por sete a um, devido ao expediente do cooling break e de uma providencial substituição: Alfredo troca Felipão por João Saldanha. É o suficiente para não sermos humilhados. Perder jogo na prorrogação dói, mas choro e ranger de dentes fazem parte da aprendizagem de qualquer Copa.


Alfredo também mexe seus pauzinhos em relação às vaias da burguesia a então presidente Dilma. Ele não se esqueceu. O estádio se cala quando ela dá uma resposta à altura dos acontecimentos aos covardões que acreditam que têm tudo só porque têm dinheiro. O que adianta ser campeão do mundo e não parar no sinal vermelho habitual? Não dá para desejar as duas coisas?


É curioso constatar que os jogadores se exibem ainda melhor na minha imaginação, pensa ele. Alguns jogos monótonos continuarão da mesma forma. Sonolentos. Paquidérmicos. Pouco inspirados. Rabos de vaca. Outros serão a pura expressão do gozo, ou melhor do gol. Vareios de bola. Viradas espetaculares. Defesas impossíveis.


O mais engraçado é que ele assiste aos jogos das arquibancadas. No máximo de “sombrero”, enrolado na bandeira do Brasil. Uma matada de bola leva uma eternidade. Um chute rente à trave é a criação do mundo que não se deu. A bola dominada por Exu hoje foi lançada por um Gérson amanhã.


O sol. O sol. O sol. Sabe-se lá o que é entrar em um ônibus em pleno México depois da eliminação do Brasil em 1986? Um estrangeiro em uma cidade estrangeira. Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar. Ir pra não chorar. Sabe-se lá o que é ver Maradona driblar meio time duas vezes? Porque não foi só contra a Inglaterra, não. Foi contra a Bélgica também.


A tecnologia presente nos jogos de hoje não o atrai. O VAR, por exemplo, é demasiadamente desinteressante, muito certinho, se fosse aluno, sentaria na frente, e corrigiria o professor; se fosse jogador, teria cintura dura. Ajuda na interpretação? Sim, claro. Mas a graça do jogo está também nesta possibilidade de uma interpretação mais aberta, por vezes até resistente à realidade. Fazer o quê?


Se fosse para apostar com o coração, Alfredo cravaria na final Brasil e Inglaterra mais uma vez. E daria Brasil. Desta forma, ele afastaria as duas seleções que lhe pareceram favoritíssimas após os jogos da primeira rodada: a Argentina, de Leonel Messi e companhia, e a excelente seleção francesa, de MBappé e companhia.


Por derradeiro, depois de ter lido uma reportagem no domingo de um 21 de julho qualquer sobre um gremista que foi à Copa de fusquinha, Alfredo ficou matutando a possibilidade de viajar o mundo no seu blue beetle, que é um verdadeiro pássaro azul de seu destino.

Ele ri para dentro quando se dá conta que tem algo em comum com Pepe Mujica. A sobriedade é uma das estradas abertas da vida.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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