Mande um abraço pro seu Adílio

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, reverencia um templo de livros em Bangu, o sebo do senhor Adílio. O paraíso em papel.

“Estar num sebo é sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta.” (Milan Kundera)




(Para Flávio Pimentel, Raul Borges, Mauro Célio e Gilberto Vieira, que dividiram a mesa comigo)


Bangu é um bairro muito peculiar, que tem campo, time de futebol, shopping instalado onde fora uma fábrica de tecidos, igreja que nos faz lembrar daquelas igrejas inglesas, com seus tijolinhos. Tem até presídio, que, se não for em Bangu, é muito perto, tem estação de trem, etc., etc., etc.


Bangu é um bairro quente pra chuchu, com diversos bares para todos os bolsos e gostos, onde se pode tomar uma cerveja e trocar conversas, até conversa fiada. Além disso, tem algo em Bangu que o torna um bairro ainda mais interessante: o sebo do seu Adílio.
Em tempos idos, eu já tinha visitado um sebo lá pras bandas da rua Boiobi com o senhor M. Este no centro de Bangu é uma espécie de ponta de lança daquele.


Nós conhecemos o sebo por intermédio do mais absoluto acaso. No ano passado, houve um encontro, entre mim e Flávio Pimentel, amigo meu e, professor de filosofia. A gente sempre tenta marcar um encontro presencial durante as férias escolares para conversar sobre educação e política, educação da política e política da educação. Como ele mora em Campo Grande e eu na Beija-Flor, Bangu acaba se tornando um ponto intermediário e tendo esse “plus”, o fato de ter um sebo ao alcance dos olhos.

Como o encontro do ano passado foi excelente, pensamos em repetir a cantilena. Mesmo lugar. E deu certo outra vez. Juntaram-se a nós Raul Borges, o senhor M, e Gilberto Vieira.
Se eu estou insistindo nesse papo de sebo, é que para mim se trata de um estabelecimento comercial da mais alta importância, culturalmente falando. De alta importância.

Não se deveria abandonar os livros ao léu, mas ao leitor. Seu Adílio acaba cumprindo a função de irradiar cultura. Não é um sebo muito organizado, mas tem a imensa presença física dele, e é isso que importa.


Eu fico imaginando que esse sebo poderia estar muito bem sendo um sebo volante, para também se aproximar de outros eventos culturais, como o cinema que havia em Bangu, um cinema do tipo que tem hoje atualmente em Santa Tereza, que tem um cinema de rua, passando filmes que só passariam no grupo Estação, por exemplo. Um cinema um pouquinho mais, com perdão da palavra, para um público um pouco mais “sofisticado”, entre muitas aspas. Em suma, tudo isso faz do bairro de Bangu ser o que é: essa possibilidade de recuperação da cultura.


O encontro foi bem bacana, porque também passei ali perto do Bar Tamarineiro, que não sabia onde era, e é bem no centro de Bangu também. Não é tão distante do seu Adílio, e bar está muito bonito, à vera, valendo a visita. É um bar que está procurando dar conta da demanda das pessoas por boa música, por cerveja gelada e acessível.


Voltando ao assunto do senhor Adílio, então, na minha cabeça, pelo menos, eu imagino que o sebo deveria se integrar a outras atividades culturais. O nosso senhor M disse que ali ocorre a feira de domingo e que também é um lugar onde se pode comprar, ou pelo menos ele comprou, além de plantas para casa, alguns objetos de decoração feitos de madeira. Então é um lugar onde se pode comprar essas coisas. Tudo isso contribui para um maior estreitamento e fortalecimento cultural da região.


É por isso que eu tenho que louvar a resistência do senhor Adílio em manter o comércio de pé. É bom ter um lugar onde você possa estar perto dos livros. Quem sabe, você não encontre tesouros. Ontem, por exemplo, quando passamos por lá, uma pessoa tinha acabado de se desfazer de parte de sua biblioteca, e havia inúmeros títulos de Foucault, de Judith Butler, de Spivak, livros novos de autores que estão, creio, na crista da onda. Quer dizer, a coleção quase completa da obra de Foucault, da Martins Fontes, estava ali ao alcance de qualquer um, por um preço acessível com direito a desenrolo.


Por derradeiro, a história desses livros qual é? Quero saber também por que a pessoa em questão está se desfazendo daqueles livros. É por que percebeu que eles acabam tomando muito espaço nas estantes? É por que, com a proximidade da morte, se começa a ficar meio sem saber direito o que se fará com todo aquele viveiro de ácaros e traças?


Tudo isso é um sinal dos nossos tempos ou não é? Eu, por exemplo, acho que o livro ainda é um objeto que cumpre muito aquilo que promete. Não podemos esquecer que ele não precisa ser ligado à bateria nenhuma. É óbvio que o Kindle e afins têm uma praticidade enorme, mas eles precisam de eletricidade, por mais longa que a bateria seja.

O meu, por exemplo, tem desligado assim cada vez mais rapidamente. Mas fazer o quê?
Os livros são esses objetos pelos quais algumas pessoas têm verdadeira paixão. E não podemos nos esquecer que os livros nunca reclamam de nós. Quando nos criticam, o fazem com elegância e, às vezes, até pelo silêncio. São os livros bons que fazem com que a gente olhe para cima e fazem com que a gente reflita.

Agradecendo à gente como o senhor Adílio, eu termino essa crônica.

Imagem do post: Livros Amarelos, 1887, Van Gogh

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município dLivros As (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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