Si o senhor não está lembrado
Dá licença de contá
Que aqui onde agora está
Esse edifício arto
Era uma casa velha
Um palacete assobradado
(Trecho de “Saudosa Maloca”, Adoniran Barbosa)
E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, traz mais um episódio da série “Mas Será o Benedito?”. Desta vez para falar da “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, fazendo com que a mente das crianças tenha em seus arquivos saudades de concreto e de quem nele morava. Uma bola de ferro entra em campo no lugar da bola de capotão.
Beija-Flor, 18 de maio de 2025.
Bem, nós ficamos tristes, tristíssimos, com a notícia. Quando a gente viu a legião de traidores tratores derrubar a pensão onde o Vandeca Meleca morava só faltou chorarmos. Tudo aconteceu à luz do dia, debaixo de nossos narizes, sem que nós tivéssemos sido notificados com antecedência.
A bem da verdade, Tio Ruivo disse para a gente, sim, só que nas entrelinhas: ele já tinha dito em uma de suas preleções que talvez Vanderson não ficasse mais no Cotegipe, talvez fosse para outro lugar, talvez para a Baixada Fluminense ou então para a sua cidade natal, ou melhor, para a cidade natal de sua mãe, no interior de Minas Gerais.
Ainda assim, nada nos preparara para o impacto. Como destroem rápido, como arrancam a nossa infância rapidamente. Ali, aquela pensão de dois andares, quase um palacete. Certo, tudo bem, carcomido pelo tempo, tendo visto dias melhores. Mas precisava derrubar? Que progresso era aquele? Era onde o nosso amigo, o melhor ponta-direita do nosso time, morava. Era assim que nós o conhecíamos.
O Benedito voltou para casa com cara de poucos amigos. Não adiantou o pai chegar e dizer que o ocorrera era em virtude da tal da mobilidade social. Que virtude é essa? Era culpa da especulação imobiliária, que aquele terreno ali, em plena Praça Sete, valia ouro e no lugar da pensão modesta poderia ser construído um arranha-céu de não sei quantos mil andares mais alto do que o próprio Cristo Redentor, ou coisa que o valesse.
Também não adiantaria de nada a reza das mães-de-santo, os passes, as imagens. Nada disso, nada disso o consolou. Ele trancou no quarto e pôs-se a chorar. Ele não acredita mais em adultos, exceção feita ao tio Ruivo.
Dizem que o tempo cura todos os males, mas certas coisas não voltam ao normal. Passar pela Praça Sete e olhar a pensão que já não existe não é algo normal. Pelo menos para Benedito não era. Bamba o consolou, eles foram brincar na casa do Rico, tomar banho de piscina, bancar o Ricardo Prado.
CasaMalte fez suas graças, mas não era a mesma coisa, os truques não convenciam. Jogo de Atari, chato pra cacete. Miguel Liar contou suas inúmeras histórias de pescador, que até engraçadas eram, mas qual o quê, de pouco adiantava.
Em casa, no desassossego de seu lar, um botão do Botafogo, o número 7, começou a ser chamado de Vandeca Meleca, VM. E assim, Benedito homenageava o amigo, o amigo que perdeu. Vandeca chegou à artilharia do campeonato em segundos.
Passou-se não sei lá quanto tempo, nas férias de dezembro Vandeca apareceu mais forte, mais disposto, como quem estivesse se entupindo de leite puro e de doce de leite. Ele estava em Minas. Eu senti que por lá tinha campo de futebol e que ele continuava sendo bom. De tão bom de bola que ele era tinha recebido a 10 e a faixa de capitão, ia treinar para ser profissional e para voltar mais uma vez para o Cotegipe, onde encerraria a carreira.
Doeu. Nos jogos contra, Tio Ruivo testou LP na ponta-direita: não funcionou. Depois Casamalte: também não funcionou. Casamalte não sabia nem driblar nem cruzar a bola. Impossível jogar pela ponta-direita, pensou com seus botões Tio Ruivo. O jeito foi improvisar Benedito na ponta. Uma hora, o Benedito. Outra, o Bamba. E assim foi se levando.
O Benedito, de vez em quando antes dos jogos, pensava entrar no Quarto dos Santos da mãe para pedir que ele incorporasse o espírito de Vandeca Meleca. Mas depois ele caía em si e dizia para si mesmo que talvez o craque não tivesse desencarnado. Talvez Vandeca Meleca estivesse muito do vivo, driblando todos os laterais esquerdos que aparecessem à sua frente.
Por um instante, Benedito pensou em algo inusitado. Passou em revista as escolas onde o pessoal estudava. Riquinho, no São José; Benedito, no Equador; Bamba, no Noel Rosa; Casamalte, no Francisco Campos; LP, no Equador e no Martins, e por aí ele ia. Por um instante, ele percebeu que só Vandeca Meleca não estudava. Não estudava em escola nenhuma. E aí ele pensou no seguinte, por que não construir mais escolas? Em vez de destruir pensões como as que Vandeca morava. Quando o VM aparecesse nas férias, o Benedito o perguntaria sobre estudos e escolas. Se tivesse CIEP Vandeca teria ido para Minas?
O jeito era lembrar de Vandeca Meleca o ponta-direita enquanto ele não voltava ao Cotegipe, porque da última vez que ele veio ele disse que talvez voltasse. Sua mãe estava negociando uma casinha lá no pé do morro no Morro dos Macacos. Por que não? Era perto, era só descer umas ruas. Ou a meninada que subisse. O fato é que sua a mãe não conseguia ficar longe de Vila Isabel.
“Ninguém consegue”, pensou Benedito fazendo um pouco as pazes consigo mesmo, com os seus botões, enquanto suspendia a pensão com a força do seu pensamento. Minas não há mais? A Vila Isabel velha de guerra ainda havia.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







