Por Claudio Lovato Filho, jornalista e escritor
Um relato ficcional sobre estes nossos tempos de egos inflados e culto à arrogância.
Era o meu terceiro dia naquela cidade na fronteira entre o Brasil e o Uruguai. O meu terceiro dia naquele bar.
Eu já estava sem paciência para checar as mensagens no celular. Nada de informações que me ajudassem a realizar o intento que me levara até aquele lugar. Falta de paciência (sobretudo com editores incompetentes) foi um dos motivos para a minha demissão dos jornais em que trabalhei. Isso e mais algumas coisas. Mas eu sabia que tinha talento, e isso era o que importava. Eu tinha essa convicção. Humildade? Ah, por favor! Que isso ficasse para os inseguros.
Sete horas de Porto Alegre até aquela cidade num carro alugado, e o dinheiro da última rescisão se esvaindo. Mas não havia o que fazer, porque aquilo tinha se tornado uma obsessão, que eu precisava transformar em resultado prático.
A obsessão se chamava Fernando Bautista “Lancero” Gómez, centromédio de muita técnica, marcador implacável, fustigador de craques, que, entre a segunda metade dos anos 70 e a primeira dos 80, levantou taças no Centenário, no Maracanã, no Camp Nou, no San Siro e, por fim, de volta ao Uruguai onde tudo havia começado, novamente no Centenário, para, então, sem que ninguém entendesse o porquê, encerrar a carreira aos 29 anos recém-completados e desaparecer no mundo.
O resultado prático seria a publicação do meu livro sobre ele – uma biografia que, assim eu projetava, seria uma obra de referência.
Cheguei àquela cidade fronteiriça com a colaboração de alguns ex-colegas de jornal. Informações garimpadas aqui e ali, obtidas a muito custo. Houve ocasiões em que o Lancero me pareceu ser um personagem de ficção. Mas não era. Foi muito real para torcedores como o meu pai.
O dono do bar o conhecia. O gerente do hotel o conhecia. Os motoristas de táxi do ponto da estação rodoviária o conheciam. Mas ninguém queria falar sobre ele. Parecia haver um acordo na cidade: ninguém fala dele para forasteiros.
Ao entardecer daquele terceiro dia, um sujeito entrou no bar, fez um aceno para o dono e, sem pedir licença, sentou-se à minha mesa. Era alto, magro e calvo. Apresentou-se como Aureliano Gómez, filho do Lancero.
“Meu pai não queria falar com você”, ele disse sem rodeios. Falava um bom português, com inflexão castelhana. “Mas vai falar, em respeito à sua persistência”. Fez um cumprimento de cabeça, levantou-se e foi embora.
Às onze da manhã do dia seguinte, naquele mesmo bar, acompanhado do filho, Fernando Bautista “Lancero” Gómez falou comigo. Pela última vez em sua vida, ele conversou com um jornalista sobre a carreira que tivera, a qual considerava medíocre e beneficiada por uma sorte da qual ele sequer se sentia merecedor e a qual não ajudara outros tantos (tantos!) jogadores de sua geração que considerava muito (muito!) melhores do que ele havia sido.
Assombrado, eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Foi uma entrevista curta.
Dirigindo para Porto Alegre, naquele mesmo dia, pensei na capacidade que algumas pessoas têm de subestimar seus feitos e naquelas que, por outro lado, superestimam qualquer coisa de sua autoria. Com angústia crescente, temeroso da resposta que posso vir a encontrar, sigo pensando sobre em que categoria me enquadro. Talvez eu ainda tenha salvação para Dunning e Kruger*. Talvez meus editores não fossem tão incompetentes. Talvez eu seja, fundamentalmente, um sujeito que recebeu muito mais do que merecia.
Mas ainda não estou convencido de nada disso. Não mesmo.
*O efeito Dunning-Kruger é o viés cognitivo pelo qual pessoas com baixa habilidade em uma tarefa superestimam sua habilidade. Alguns pesquisadores também incluem em sua definição o efeito oposto para as pessoas de alto desempenho: sua tendência a subestimar suas habilidades (Wikipédia).
Foto do post: Washington Luiz de Araújo







