Por Lourwenço Paulillo, poeta e cronista
Medos, tenho poucos.
Lembro-me que na casa em que nasci e vivi até os seis anos, Rua Tabapuã 14, Itaim Bibi, havia um alçapão. Por lá meu pai entrava, quiçá à procura de um fio partido. E eu ficava imaginando o que haveria naquele misterioso espaço.
Três irmãs de meu pai, as queridas Carmem Maria, Hermínia e Elvira Lydia, então solteiras, moravam no casarão da Av. Brigadeiro Luís Antonio, esquina com Rua Maria Paula.
Católicas fervorosas, chegavam a nos amedrontar, a mim e a meus primos. Durante as férias escolares, passávamos sempre alguns dias com elas. E ouvíamos histórias da chegada de iminentes tempestades, de estrondosos raios. As casas deveriam blindar-se com uma cruz de madeira aposta atrás da porta de entrada. Morríamos de medo, nem me lembro se o temporal ocorria.
Bem pequeno, eu tinha medo de uma tia de meu pai, a tia Carmela, que morava na Barra Funda e raramente nos visitava. Eu a achava muito feia, uma bruxa saída das histórias que ouvia. Certo dia, ao vê-la no portão, corri a me esconder num beco ao lado do guarda-roupa. E gritava: Manda embora essa velha feia!
Imagino a vergonha que minha mãe passava.
Filhos pequenos, medo de me distrair, conversar, e a criança desaparecer de vista na multidão da praia. Gelo na barriga.
Muito medo quando ao brincar com os dois meninos na parte bem rasa do mar na praia, de repente afundei numa vala formada pela corrente.
Grito! “Virem-se e nadem bem depressa em direção à praia.”
Todos logo a salvo, mas enorme susto.
Férias no Nordeste, excursão por Natal, Recife e Maceió. Fortes, dunas, coqueiros, cajueiros, velhos mercados, aromáticas comidas. Nós cinco, os três filhos dourados do sol. Primeira vez deles de avião. São Paulo se aproxima, travessia de bombástica tempestade de verão, mil raios iluminando tudo, a aeronave sacudindo como ” espumas ao vento”.
Ufa! Logo tudo passa. Minutos que parecem horas.
Confesso me afastar um pouco de cães mal encarados, desde a inacreditável mordida arranca-bife de 2023.
Me assusto com aranhas grandes dentro de casa e tomo cuidado ao lidar com pilhas de telha ao sol, pois já fui surpreendido por pequenas cobras curtindo o calorzinho.
O maior medo!
Voltávamos de uma semana de trabalho, conferência de Planejamento Estratégico, na República Dominicana. Meus tempos de Avon, eu e o colega Juan Carlos Battaglini, da Argentina. Ambos com filhos pequenos, jovens esposas. Vontade de chegar, abraçar e beijar todo mundo.
Trecho de Santo Domingo a Miami.
Aviso de emergência! O trem de pouso não irá descer. Voltas para esvaziar o tanque. Instruções sobre saída do avião por tobogã. Juan e eu convocados como tradutores.
A sensação de não mais voltar pros queridos. Tão pequenos, os filhos perderão a convivência com o pai. E a esposa, só, a criar os três pequenos!.
Carros de bombeiro, ambulâncias, montes de espuma na pista.
O avião finalmente chega ao destino, todos os “mecanismos” acionados. Suspense, reza, medo. O trem de pouso desce normalmente.
A falha era nas luzes do painel de controle.
Sensação de milagre! Não seria desta vez.
Medo da morte? Por que?
É a única certeza que temos na vida, como se diz.
Vivamos a vida, a cada dia. Façamos de conta que ela não tem fim, extraiamos o suco de cada dia.
Na hora dos grandes medos, lembramos de rezar. Para um, dois, três santos.
Em casa, o santo de toda hora era Santo Antonio. Havia até um nicho com luzinha na varanda.
E as já citadas tias nos ensinavam a rezar para Santa Terezinha do Menino Jesus, pela humildade e sinceridade. E a pedir a bênção, a proteção e a direção do Anjo da Guarda.
Não sou praticante, fundamentalmente teria que frequentar a missa. Entretanto, sempre que me vejo à frente de uma igreja, seja a Catedral, o Mosteiro de São Bento, uma paróquia de bairro ou simples capela de beira de estrada, entro, permaneço um tempo, rezo.
Prefiro encontrá-las silenciosas, pouca gente. Só agradeço e peço saúde a todos, em geral. O mesmo faço ao despertar e ao me deitar.
Com o passar do tempo, motivado por alguma circunstância, fui agregando outros santos às minhas preces.
Santo Expedito, causas urgentes e justas; Santa Edwiges, pobres e endividados; São Judas Tadeu, causas impossíveis, sem saída; Santa Dulce dos Pobres, a Irmã Dulce, caridade ativa e amor ao próximo; Santo Frei Galvão, profunda caridade e entrega; Nossa Senhora Aparecida, humildes, milagres; N.S. de Fátima, apelo ao fim das guerras e salvação das almas; N. S. Achiropita, da imagem que surgiu sem ser pintada por mãos humanas; além dos já citados Santo Antonio, caridoso, casamenteiro; Santa Terezinha, que mora em frente à nossa casa, igreja singela, torre bem alta, desde 1929.
Cada povo com sua cultura, cada um de nós com sua religião, ou nenhuma. Respeitemos.
Quanto a Deus, da mesma forma, há os que acreditam, outros não. Respeitemos.
Entre os que acreditam, quando em situações de difuculdade, costumam dizer:
Só Deus na causa!
Lourenço Paulillo
30 de agosto de 2026.
Dedicado a meus caros primos Alda, André Milton, Nilza Maria, Adalgisa, Eduardo Pedro.
Ao João da Alda, à Maria Célia do Edu, à Denise e à Marise, filhas da Alda e do João.
E Todos esses em especial, por estarem sempre presentes a nossos encontros. Menos o João….que prefere os jogos do Timão…rsrs.







