E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, recorre à poesia para retratar o momento político atual. E traz Leminski sobre a luta de classe. Na imagem do post, o poeta fotografado pelo grande amigo Américo Vermelho, cuja vida se dissipou também em poesia.
Beija-Flor, 18 de novembro de 2026.
En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas
O poema acima foi publicado por Paulo Leminski, no livro “Caprichos e relaxos” em 1983. Neste atual estado de coisas, em um contexto de eleição presidencial acirrada, senti o desejo de atualizá-lo. Para tanto, contudo, é preciso entendê-lo, olhá-lo de perto, rodeá-lo. Por que ele está escrito em espanhol? É um poema de esquerda, não é? A quem se dirige?
Por que esta disposição quase de um haicai? Por que são armas para a luta de classes as pedras, as noites e os poemas? Será que eles estão em pé de igualdade?
Por que tudo soa tão bem neste poema tal qual num belo slogan? Por que as palavras são tão simples? Por que rimar “buenas” com “poemas”?
É comum rimas consoantes em espanhol? Por que o idioma de Fidel Castro e não o de Castro Alves?
Quantas ressonâncias têm nas palavras “lucha” e “noche”? Como escolher as palavras para que evoquem a luta? As “piedras” serão lançadas contra as Brigadas etc? As “noches” quando o pau come etc.
Que recado este poema manda aos dias atuais? O que é luta de classes?
Corte para o nosso tempo:
A luta de classes pode ser dentro do mesmo país ou entre países. Não há por que negar: os Estados Unidos de Trump quer nos subjugar para levar nossos recursos minerais a preço de banana. Os ianques não vão baixar seus tanques por aqui, pelo menos por enquanto. Eles têm seus aliados internos, que estão dispostos a se tornarem cupinchas ricos. Não se trata somente de uma parte da classe política, mas também do Judiciário e da mídia corporativa.
E não se deve deixar de lado o poder das Big Techs. Metas e tais detém o monopólio da comunicação e da transmissão dos dados dos algoritmos.
Já conquistaram muito terreno. Avançaram. A cereja do bolo é a presidência. Simbolicamente falando. Eles querem vencer o Lula.
Para que não percamos as conquistas da redemocratização, nós, da esquerda e da direita, temos lutado tanto digital quanto presencialmente. Todos os dias. Sem descanso. Não passarão.
De acordo com uma reportagem na Folha de São Paulo, foi cunhado um termo para o fenômeno a que fomos acometidos: surto eleitoreiro. A meu ver, os dois termos que formam a expressão são ruins, pejorativos.
Eu não quero apenas vencer a eleição. Eu quero proteger a soberania do país em primeiro lugar. Trata-se de se defender uma posição com as armas que se têm.
Em la lucha de clases
Todas las armas son buenas
Telas
Calles
Posts
É, eu não tenho como (re)criar um poema leminskiano à altura dos acontecimentos. Serei poeta depois desse falimento? Sim. Poesia é uma viagem ao desconhecido – a partir de certo método, que fique claro. Amanhã recomeço.
Por que será que tenho necessidade enorme de reinventar minhas palavras, minha escrita? Logo eu, que não gosto nem de miojo nem de emojis. Tento dar uma resposta no próximo parágrafo.
Tenho pensado que esta eleição representa uma passagem de bastão. Vejo minha geração de cabelos grisalhos, cinquentona. Não totalmente cansada, ainda muito aguerrida, impressionantemente aguerrida. Sem nada de caviar. Se tanto, um feijãozinho bem temperado.
Mas vejo também a juventude com suas mumunhas, aspirações e características pedindo passagem. E as novas cadelas no cio, para aludir a um trecho de Brecht, segundo o qual as cadelas nazistas estão sempre no cio.
E vejo viejos de fierro en las calles inolvidables.
É penoso ficar o dia inteiro no celular. Para a nova geração, talvez não. Para eles o celular já é um meio de extensão do ser humano à maneira de um Marshal Macluhan com pimenta. O meio é a mensagem.
Neste momento especial, estamos juntos na mesma guerra, dividindo a mesma trincheira, as mesmas esperanças, espantando os mesmos ratos. Vamos precisar de todo mundo.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







