O bonde e a esperança

Compartilhe:

E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos transporta ao passado dos bondes e outros meios que hoje são somente imagens românticas de um tempo que não tinha pressa.

O Bonde de São Januário
Leva mais um operário
Sou eu
Que vou trabalhar




(Trecho de O Bonde de São Januário, Wilson Batista e Ataulfo Alves)*

“De vez em quando aparecem para mim no doutor FB fotos antigas, algumas até colorizadas, da cidade com seus ônibus, automóveis, transeuntes. A mim me encanta como as pessoas se deslocavam pela cidade em tempos idos.


Sei que a cidade é esta e que não há tempo a perder. Sei que estamos em trânsito. Mas, afinal, como eram os meios de transporte no Rio de Janeiro na década de 1970?
Vamos começar pelo bonde, porque lembra o poema do Drummond: Perdi o bonde e a esperança.


Em alguns cantos de subúrbio, ainda era possível ver os trilhos do bonde, que estavam sob o asfalto, escondidos por trinta anos de urbanização. Formava-se uma série de camadas geológicas após humilde escavação: asfalto, paralelepípedos, trilhos, terra batida. Debaixo daquilo tudo, o mar? Será?


Ainda falando de bondes, quem passa pela Vila Militar do Rio de Janeiro, verá estacionado, ainda hoje, um pequenino “trolley” verde oliva, que talvez fosse puxado por animais quando em funcionamento. Aparentemente trata-se de uma peça de museu exposta ao ar livre. “Pequenino” não é um modo de dizer, é a verdade. Em comparação com o verdinho, o bonde de Santa Tereza, ainda em funcionamento, parecerá enorme.


Os ônibus também eram menores que os de hoje. A tarifa não era única. Cobrava-se o preço de acordo com o trajeto percorrido. Para fazer tal controle, havia na frente do ônibus uma caixa de vidro com uma ranhura em cima onde se colocavam fichas de plástico. Um fiscal fazia o controle de tudo. As fichas deram lugar a tíquetes, mas o funcionamento era semelhante.


Um passageiro poderia se distrair lendo os itinerários dos ônibus, pois havia duas placas próximas ao teto contendo todas as ruas por onde o ônibus passava. Assim ia se conhecendo a cidade.


Para alguns destinos, havia o “Frescão”, ônibus com ar-condicionado. Era bem mais caro que um ônibus convencional. O da Viação Redentor ia do Castelo a Jacarepaguá pela estrada Grajaú-Jacarepaguá. Da janela, via-se parte da cidade.


As barcas de hoje são climatizadas*. Silenciosas até. Das barcas antigas não se esperava tal conforto. Era o sol na cara, barulho da Casa de Máquinas, cheiro de óleo diesel, bóia de pneu de caminhão. Em compensação, as janelas permitiam a entrada do vento da Baía de Guanabara, livre como um vôo de gaivota.


Nestes tempos de Antanho não se prezava tanto assim pela segurança. Tanto que muitas pessoas se amontoavam na proa. Crianças nela se sentavam, com as perninhas de fora, como se estivessem sentadas em bancos de praça. Foram os pais que as colocaram lá. Também se usava Coca Cola como bronzeador…


E para passear por Paquetá, poderia se pegar uma charrete. O cheirinho de bosta de cavalo se juntava ao aroma das flores, do vento, da terra batida, das portas das casas da ilha. Agora se vai de EcoTáxi, veículo movido a eletricidade e de quando em quando à força das pernas do condutor.


O trem era da cor de prata brilhante. Via-se a multidão descer do trem na Estação Maracanã para ir a um Fla-Flu no maior estádio do mundo. O desembarque dava a impressão de que as pessoas, como se feitas de óleo, se espalhavam pela plataforma.
Na Rodoviária Novo Rio, os ônibus traziam a esperança de aventuras em lugares distantes.

O gosto esquisito do copo de plástico de água mineral ainda estala na boca só não sentiu quem não bebeu. O horário de saída escrito a giz com letra caprichada. Os motoristas e fiscais de camisa de botão com uma plaqueta com nome e sobrenome. Despachar as malas. Destacar o canhoto do tíquete de embarque. Aguardar.


O vaivém nos saguões, as tralhas, o biscoito de polvilho, os gibis. Acima de tudo, brilhavam soberanos os ônibus da Viação Cometa.


Para quem nunca tinha voado, havia um avião no solo em algum lugar do Aterro do Flamengo. E assim se brincava de voar pela Varig. Não é a mesma sensação, mas valia a pena.


Dos carros? Eram muitos os fuscas. Em algumas cidades, os motoristas de praça retiravam o banco do passageiro para que houvesse espaço para um bagageiro improvisado. Em alguns táxis, havia uma corda de nylon, daquelas de varal, amarrada à maçaneta da porta do passageiro para que esta fosse fechada sem que o motorista precisasse sair do lugar.
E o metrô fez um buraco enorme na Praça Saenz Pena, ali pertinho da Loja Sloper. A praça durante algum tempo virou um canteiro de obras.


Com licença, motorista, motorneiro, chofer, timoneiro, me deixa no próximo. O pensamento voa. Daqui eu vou a pé, como as palavras.

*Nota do Editor – O editor pega o bonde andando para ressaltar que nem todas as barcas de hoje são climatizadas. A maioria das que vão para Paquetá são caldeiras lentas. Um inferno! Parafraseando Tennessee Williams, ainda sonhamos com uma barca chamada desejo, climatizada e rápida.

*Uma paródoa atribuída a Wilson Batista, um dos autores da música, zoa desta forma: “O Bonde São Januário leva um português otário pra ver o Vasco apanhar”

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Categorias