O Globo não consegue ser um jornal, só um panfleto

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Publicado em O Tijolaço – 

No dia em que o Presidente da República confessa que esteve na reunião onde um ex-executivo da Odebrecht diz que se sacramentou um negócio de propina de US$ 40 milhões (R$ 126 milhões) ,  O Globo dá como manchete garrafal que Lula ajudou a Odebrecht (sem qualquer referência a “vantagem indevida”) a negociar com trabalhadores da empresa em greve na Bahia.

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Sim, e daí? O que deveria ter feito? O que se espera de um dirigente sindical, em relação a sua e a outras categorias, senão que ajude a resolver impasses?

Malandramente, na chamada, Isso é “misturado” a doações de campanha às candidaturas do petista e, pior ainda, a uma suposta cobrança de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, para negociar com trabalhadores “em troca de apoio financeiro”.




Traduzindo, em hierarquia jornalística: o jornal troca um fato imediato, gravíssimo, envolvendo a mais alta autoridade da República, admitido em parte pelo próprio acusado de público – através de um vídeo – por um comentário que, a rigor, não tem serventia senão compor o ambiente de um livro sobre a história do país.

É evidente que meus colegas de O Globo sabem disso e são capazes de fazer o correto do ponto de vista profissional.

Mas a vocação do jornal para ser um panfleto da direita os constrange –  a alguns, nem tanto – a produzir esta antológica deformação do jornalismo.

O Globo não se destina a noticiar fatos – tanto que ultrapassa o impensável limite de nem mesmo dar uma pequena chamada ao episódio dos US$ 40 milhões supostamente abençoados por Michel Temer, ainda que seja para reforçar a versão (cara de pau) do ocupante da Presidência. É silêncio total no jornal que importa: o que fica pendurado nas bancas de jornais, onde cada vez menos são comprados.

É, sem demérito para os ótimos profissionais que ali trabalham e que – como frequentemente aqui se cita – produzem boas e importantes reportagens, um panfleto.

Tudo o que faz está marcado pelo compromisso maior de destruir Lula e suas possibilidades – para eles, aterradoras, embora de seus governos não lhe tenha vindo qualquer agressão, ao contrário.

O ódio de O Globo a Lula – que só foi adulado quando poderia servir de anteparo a outra fobia marinhesca, Leonel Brizola – é acima e além de qualquer ponderação racional. É visceral, instintivo, figadal e vem da própria compreensão de que este país, se alcançar mesmo a democracia, é incompatível com seu monopólio de manipulação.

Ou melhor, que destruir seu monopólio é uma montanha que se terá de transpor para termos uma sociedade livre e autodeterminada.

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