Por Julio Benchimol Pinto, advogado
O chamado “Mercado” amanheceu inconsolável.
Essa entidade quase sobrenatural, que se apresenta como oráculo da racionalidade econômica, descobriu uma coisa terrível: o povo brasileiro não recebe ordens da Faria Lima.
O pobrezinho apostou suas fichas na vitória de Flávio Bolsonaro.
Alguns empresários despejaram milhões em sua campanha. Investidores compraram ações, venderam dólares e anteciparam os lucros de um futuro que julgavam praticamente assegurado.
Depois do primeiro turno, a Bolsa disparou 7,7%.
Só esqueceram de consultar um detalhe: os eleitores!
Lula venceu.
A Bolsa despencou 13,88%. O dólar disparou 8,25%. Foi preciso acionar o circuit breaker para interromper o pregão.
Uma pena não existir mecanismo semelhante para interromper a arrogância.
Eis o espetáculo: os mesmos iluminados que vivem explicando ao país como administrar riscos aparentemente esqueceram de administrar os próprios.
Mas há algo ainda mais extraordinário.
Por que tanta convicção de que Flávio Bolsonaro seria a solução para os problemas econômicos brasileiros?
Qual demonstração empírica sustentava tamanha fé? Onde terminava a análise econômica e começava a preferência ideológica?
Preocupações fiscais são legítimas; profecias financeiras, nem sempre.
O mercado financeiro conhece o preço de milhares de ativos. Isso não significa que conheça o valor da democracia.
Afinal, a urna não é um terminal da Bloomberg, o eleitor não é um derivativo e a soberania popular não está cotada na Bolsa.
O mais delicioso dessa história é que o “Mercado”, tão acostumado a precificar tudo, descobriu que existe algo que não pode comprar: a vontade soberana de milhões de brasileiros.
Não foi o Brasil que surpreendeu o “Mercado”; foi o “Mercado” que ficou surpreso ao descobrir que o Brasil não lhe pertence.







