O necessário “Cheiro de Diesel”, construído de dentro para fora.

Compartilhe:

Por Celso Sabadin, compartilhado de Planeta Tela

Há alguns dias fui ver “Rio 40 Graus” na tela grande do cinema, coisa que nunca havia feito, embora já tivesse visto o filme várias vezes em tela pequena. Saí da sessão ao mesmo tempo maravilhado pela qualidade da obra, e entristecido por perceber que quase nada mudou na questão social brasileira de 1954 até hoje.




Pouco tempo depois, assisti a “Cheiro de Diesel”, em cartaz em cinemas desde o último 2 de abril. E saí da sessão novamente com a tristeza e o desconsolo que se abateram sobre mim após (re)ver “Rio 40 Graus”.  Sim, ambos os longas expõem – cada qual à sua maneira – a chaga social da favela. Da mesma forma que ambos também acabam explicitando como o poder público pouco ou nada se importa com isso desde sempre até hoje. E, quando se importa, é pelas vias da exclusão e da violência.

Vencedor de dois prêmios no Festival do Rio, “Cheiro de Diesel’ denuncia violações de direitos humanos em comunidades ocupadas pelas Forças Armadas a partir de decretos presidenciais de Garantia da Lei e Ordem (GLOs). Dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário ecoa o grito da favela contra a violência do Estado no Rio de Janeiro, registrando os traumas deixados pela ocupação de favelas e morros do Rio pelas Forças Armadas a partir de 2014 — período dos preparativos para a Copa do Mundo — e voltaram a acontecer entre 2017 e 2018. Ao longo do filme, moradores denunciam violações de direitos humanos, ameaças constantes, torturas e todo tipo de abuso do poder.  Moradores das favelas da Maré e da Penha, na zona norte da capital, e do Morro do Salgueiro, em São Gonçalo, relatam a rotina de medo e tensão durante a presença de soldados armados com fuzis e tanques de guerra nas ruas.

“O cotidiano foi de invasão às escolas, aos postos de saúde, às casas, revistas constantes, assassinatos e a censura dos comunicadores comunitários. Sofremos muitas violações. A Maré foi laboratório para o que ocorreu no Rio de Janeiro em diversas favelas durante o governo de Michel Temer, em 2017 e 2018”, afirma, Gizele Martins, jornalista comunitária da Favela da Maré, e codiretora do longa, ao lado de Natasha Neri.

Ao trazer essas histórias para o centro da narrativa, o filme se constrói a partir de dentro, acompanhando quem viveu e segue lidando com os efeitos dessas operações.

Urgente e necessário, “Cheiro de Diesel” deixa no ar a incômoda sensação de perpetuamento da injustiça congênita do país, potencializada agora pelos desdobramentos da renúncia compulsória do governador carioca Cláudio Castro às vésperas de um julgamento que poderia cassá-lo.

Apenas mudam as moscas.

Quem dirige

Natasha Neri é jornalista, cineasta, mestre em Antropologia e em Direitos Humanos e pesquisadora em Justiça Criminal. Dirigiu o longa Auto de Resistência, ganhador do É Tudo Verdade (2018), qualificado para o Oscar de Melhor Documentário e indicado ao Prêmio de Direitos Humanos do IDFA, além de mais de 20 curtas de impacto.

Gizele Martins, nascida e criada na Favela da Maré, é jornalista, Doutora em Comunicação, comunicadora comunitária e defensora de direitos humanos. Vencedora do Prêmio Vladimir Herzog (2024), é autora do livro “Militarização e Censura – A luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”. CHEIRO DE DIESEL é seu primeiro filme.

Dirigido por Gizele Martins e Natasha Neri, o documentário parte da ocupação militar do Complexo da Maré, em 2014, para acompanhar as marcas deixadas no cotidiano de quem vive no território e as formas encontradas por moradores e comunicadores comunitários para registrar, lembrar e denunciar essas experiências.

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Compartilhe:

Categorias