Por Luiz Müller, compartilhado de seu Blog
Desde as eleições de 2018 venho refletindo sobre uma afirmação que se tornou quase um lugar-comum em determinados setores da esquerda: a de que o Rio Grande do Sul teria se tornado um Estado bolsonarista.
Os números eleitorais ajudam a explicar essa percepção. Em 2022, Jair Bolsonaro venceu no Rio Grande do Sul com 56,35% dos votos válidos no segundo turno. É um resultado expressivo e que não pode ser ignorado. Tampouco devemos subestimar a presença e a força política da extrema-direita entre os gaúchos.
Mas uma coisa é reconhecer a força eleitoral de Bolsonaro. Outra, muito diferente, é concluir que todos, ou mesmo a grande maioria, dos seus eleitores sejam bolsonaristas.
Essa distinção é fundamental para compreender o Rio Grande do Sul e, principalmente, para quem pretende disputar politicamente a consciência e o voto dos gaúchos em 2026.
Minha convicção, construída ao longo de muitas conversas e da observação da realidade política do nosso Estado, é outra: o Rio Grande é muito mais antipetista do que bolsonarista.
Pode parecer uma afirmação provocadora, especialmente partindo de alguém que fundou e que hoje volta ao Partido dos Trabalhadores. Mas justamente por isso precisamos ter coragem para enfrentar essa discussão sem preconceitos e sem respostas prontas.
A sociedade gaúcha possui fortes componentes conservadores. Isso tem raízes históricas, culturais, econômicas e religiosas. Mas ser conservador não significa necessariamente ser bolsonarista, muito menos fascista.
Esse é um erro conceitual e, também, um grave erro político.
Há uma direita democrática que defende valores conservadores, propriedade privada, responsabilidade fiscal, segurança pública mais rigorosa e menor presença do Estado na economia. Podemos discordar profundamente dessas posições. Mas elas fazem parte do jogo democrático. ultrapassa essa fronteira e passa a questionar a legitimidade das eleições, a alternância de poder e as instituições democráticas; quando transforma adversários em inimigos que deveriam ser eliminados politicamente; quando admite ou relativiza a violência; quando pretende enfraquecer instituições simplesmente porque elas representam limites ao poder.
Autores como Cas Mudde, Steven Levitski e Daniel Ziblatt ajudam a compreender essa diferença. Mais importante do que simplesmente colar um rótulo em alguém é observar seu comportamento diante das eleições, da oposição, do pluralismo, dos direitos fundamentais, da imprensa e das instituições de controle.
Se utilizarmos esses critérios com seriedade, perceberemos o enorme equívoco de considerar automaticamente todo eleitor de Bolsonaro um extremista.
Será razoável imaginar que dezenas de milhões de brasileiros sejam fascistas?
E, mais importante: de que maneira pretendemos dialogar com essas pessoas se começamos a conversa dizendo que elas são fascistas, ignorantes ou “gado”?
A esquerda também precisa ter coragem de discutir outro fenômeno: o antipetismo.
Ele é particularmente forte no Rio Grande do Sul e não nasceu de uma única causa.
Durante muitos anos, especialmente a partir do chamado mensalão, passando pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff e chegando à Operação Lava Jato, setores importantes da mídia construíram uma narrativa extremamente negativa sobre o Partido dos Trabalhadores.
Essa história deixou marcas profundas.
Mas seria confortável demais atribuir toda a responsabilidade aos nossos adversários, à imprensa ou à direita.
Precisamos olhar também para nós mesmos.
Existe uma parcela da sociedade que guarda ressentimentos em relação ao PT e à própria militância de esquerda. Muitas vezes, em vez de tentarmos compreender as razões pelas quais alguém não vota em nossos candidatos, preferimos desqualificar essa pessoa.
Quem votou em Bolsonaro vira “gado”. Quem é conservador vira “fascista”. Quem questiona determinadas posições da esquerda vira “extremista”. E
quem não vota em Lula passa a ser tratado, em alguns ambientes, quase como alguém moralmente inferior.
Que capacidade de convencimento teremos se tratarmos dessa maneira justamente as pessoas que precisamos conquistar?
Política democrática não é conversar apenas com quem concorda conosco. É principalmente construir pontes com quem pensa diferente.
Esse problema aparece de maneira muito clara na relação de setores da esquerda com os evangélicos.
É evidente que existem lideranças religiosas profundamente identificadas com o bolsonarismo. Mas transformar essas lideranças em representantes de todos os milhões de brasileiros evangélicos é desconhecer uma realidade muito mais complexa.
Recentemente participei de um encontro promovido pela CUT com sindicalistas evangélicos de esquerda. Ouvi deles algo que deveria provocar uma reflexão profunda em nosso campo político: muitos cristãos se sentem injustamente rotulados pela esquerda.
Precisamos compreender melhor esse fenômeno.
Enquanto partidos progressistas foram perdendo presença cotidiana em muitas periferias, igrejas evangélicas ocuparam esses espaços. E não apenas através da religião.
Elas construíram redes de solidariedade e pertencimento. Estão presentes quando alguém perde o emprego, quando falta comida, quando aparece uma doença, quando uma mãe enfrenta problemas com os filhos ou quando uma família atravessa momentos de desespero.
Na maioria desses lugares, o pastor conhece pelo nome quem está sofrendo. Isso tem uma força social extraordinária.
A esquerda, que historicamente construiu sua identidade justamente através do trabalho de base, das comunidades, dos sindicatos, das associações de moradores e dos movimentos populares, precisa perguntar a si mesma: quando deixamos de estar presentes nesses territórios?
A institucionalização e a burocratização da política cobraram seu preço.
Não recuperaremos esses espaços atacando a religião das pessoas ou tratando milhões de evangélicos como se fossem todos seguidores de uma determinada liderança conservadora. Recuperaremos esses espaços com presença,
respeito, trabalho social e diálogo.
Existe uma ideia simples que precisamos recuperar: democracia significa reconhecer a legitimidade de quem pensa diferente.
Posso considerar determinadas ideias profundamente equivocadas. Posso combatê-las politicamente com toda energia. Posso disputar eleições contra seus representantes. Mas preciso reconhecer o direito dessas pessoas de participar da democracia.
Da mesma forma, criticar o Supremo Tribunal Federal não transforma automaticamente alguém em extremista. Defender mudanças no funcionamento do Congresso ou da Justiça Eleitoral não torna ninguém antidemocrático.
A fronteira é ultrapassada quando a crítica se transforma em tentativa de destruição dos mecanismos de controle; quando somente a vitória do próprio grupo é considerada legítima; quando a derrota eleitoral deixa de ser aceita; quando a violência passa a ser tolerada; quando o adversário deixa de ser adversário e passa a ser tratado como inimigo a ser eliminado.
Essa distinção é indispensável. Sem ela, conceitos importantes da Ciência Política transformam-se simplesmente em instrumentos de agressão eleitoral.
Se a minha interpretação estiver correta, e estou convencido de que está, existe uma consequência política muito importante para 2026.
Milhares de gaúchos que votaram em Jair Bolsonaro em 2022 não são necessariamente bolsonaristas.
Muitos são conservadores. Outros são liberais. Há aqueles que votaram motivados por questões religiosas, econômicas ou relacionadas à segurança pública. E existe uma parcela expressiva que votou em Bolsonaro fundamentalmente porque não queria votar no PT.
Essa diferença muda completamente a maneira como devemos fazer política.
Se classificarmos todos como integrantes da extrema-direita, estaremos entregando milhões de brasileiros definitivamente aos nossos adversários. Se, ao contrário, compreendermos suas razões, ouvirmos suas críticas e reconhecermos nossos próprios erros, poderemos reconstruir pontes.
Isso não significa abandonar princípios. Não significa renunciar à defesa da democracia, dos direitos humanos, da justiça social, dos trabalhadores, das
mulheres, das crianças, dos idosos ou das minorias.
Significa compreender que política também é convencimento. E ninguém convence alguém a partir do desprezo.
Conheço o Rio Grande do Sul. Conheço sua gente. Conheço suas diferenças regionais, culturais e políticas.
O gaúcho pode ser conservador sem ser autoritário. Pode defender valores tradicionais sem rejeitar a democracia. Pode ter críticas profundas ao PT sem defender ruptura institucional. Pode ter votado em Bolsonaro e estar disposto a votar em outro candidato.
É justamente aí que existe um enorme espaço para a política.
Por isso, mais do que perguntar por que tantos gaúchos votaram em Bolsonaro, talvez devêssemos perguntar: por que tantos gaúchos deixaram de votar em nós?
A primeira pergunta procura encontrar culpados. A segunda nos obriga a refletir sobre nossos próprios erros.
Precisamos voltar às comunidades. Precisamos conversar com trabalhadores, pequenos empresários, agricultores, jovens, idosos, católicos, evangélicos e pessoas sem religião. Precisamos ouvir inclusive, e principalmente, aqueles que discordam de nós.
O caminho para derrotar a extrema-direita não é transformar todo eleitor conservador em extremista. É exatamente o contrário.
É separar democraticamente o conservadorismo da intolerância; a direita democrática do autoritarismo; a crítica legítima às nossas posições da tentativa de ruptura das instituições.
O Rio Grande do Sul não pertence a um partido, a uma ideologia ou a um líder político.
O Rio Grande não é bolsonarista. O Rio Grande é plural.
E é reconhecendo essa pluralidade, ouvindo as pessoas e reconstruindo o diálogo que poderemos abrir novos caminhos para o nosso Estado e para o Brasil.
*José Fortunati – Fundador do PT (1980), Deputado Estadual Constituinte (1987-1990, Deputado Federal (1991-1994 e 1995-1996), Prefeito de Porto Alegre (2010-2012 e 2013-2016), Presidente da FNP – Frente Nacional dos Prefeitos (2016)
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