E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, se mostra um “rato de bilbioteca”. Não é que o mesmo, feito um espião mental, descobriu todo o pensamento durante o “encaixotamento” de meus poucos livros para uma mudança?
“Coube ao senhor W a organização dos livros para a mudança. O senhor W, sujeito obediente, temente a Deus, e mais ainda à senhora C, disse para si mesmo que missão dada era missão cumprida e agiu conforme o figurino, atirando-se à tarefa.
Ah, o cheiro dos livros se misturava ao odor da maresia da casa azul de frente para as águas da Baía. Livros que guardam tesouros que nem sabíamos mais que existiram. Lotes de fotos antigas, cartões postais, rosas ressequidas, marcadores; volantes de loteca, recibos de tintureiro, santinhos de todos os tipos, a caligrafia caprichada dos pais, contas em cruzeiros. Ah, livros, ò livros: as traças hão de comer vossas mal traçadas linhas se dermos sopa.
Como se sabe, certas atividades nos conduzem ao devaneio. O senhor W, ao lado do seu cão, o velho e bom fiel escudeiro Açaí, começou a folhear os livros, em vez de encaixotá-los. Aquele Eduardo Galeano, quantas vezes lido. E aquele Jorge Amado e aqueles Erico Verissimo. E o Graciliano e o Guimarães Rosa. E o Hemingway e o Gabriel Garcia Marquez. E o Marx. E aquele outro, de Ignácio Loyola Brandão. Tesouros da juventude. Coleção Vaga-Lume. Os cubanos. Os chilenos. Os argentinos. Os mexicanos. Por que ufano deste país. Manuais de jornalismo no tempo em que tudo era feito na marra, quase que à mão. Truman Capote. E a biografia do Lula. Um. E dois?
A passar os dedos por entre os volumes das Barsas da vida ainda dava um arrepio pela espinha. As lombadas, com e sem dourado. O amor. Pequeno livro. Sonetos de Camões. Capa dura. Azul. Com uma fitinha para marcar a página e com ilustrações de faunos e flores entre as páginas.
Livros a mancheia. E o vento do mar adentra a casa azul, a casa que lembra a de Neruda em La Isla Negra.
Espanar a poeira dos livros, encaixotá-los. Cuidado, muito cuidado. Livros são objetos frágeis. Guardemos também os cinzeiros, também as revistas, também os recortes de jornal, as pilhas velhas, as grandes lembranças, os grampeadores, os clipes, as moedas antigas que já não têm valor, os retratos três por quatro.
Cavoucando o fundo das estantes, encontraremos as pastas a tiracolo, as capangas de couro cru, os relógios sem bateria, os copos azuis, as abotoaduras, os crachás. O pequeno pilão de cobre que veio do Chile, o galo de Portugal que veio de São Paulo. Guardar depois, quem sabe, todos os cachecóis de times de futebol.
Pode-se pensar na curta vida de um homem a partir dos livros que ele tem na estante, dos livros e das coleções que ele comprou, dos Nerudas que ele tomou de alguém e nunca leu. O ser humano é aquela criatura que lê.
É impossível, humanamente impossível, ler tanto, duvida? Livros até o teto, livros de capa dura, livros que pertenceram a outros, livros que pertenceram a avôs do tempo de Antanho, livros, livros, livros a nos proteger das intempéries. Livros, barris de rum e barricadas.
Notícia urgente: o senhor W acaba de descobrir onde estava a caneta Parker Rollerball, aquela verde que ele tanto procurou, por anos a fio, aquele objeto que ele julgava perigoso.
Depois, na casa nova, na casa dos crisântemos e das sempre-vivas, na casa das rosas e dos morcegos e das mangueiras, onde todos os gatos nos passam por debaixo das pernas e os gambás se equilibram nos muros, talvez Clarice fique perto de Fernando Sabino, e Otto Lara Rezende finalmente reencontre Nelson Rodrigues. Quem sabe?
Os Vinicius de Morais ficarão ao lado de Noel Rosa. E toda a coleção de Luís Fernando Viana, mestre quando o assunto é música. A ordem alfabética não leva em consideração as teias afetivas que os unem.
Esta crônica foi interrompida por uma crise alérgica. Terríveis espirros que mais parecem trovoadas. Ah, bem que a senhora C, precavida como é, já havia dito que era para ele usar luvas e máscara, que a estante estava cheia de ácaros, de poeira e de umidade, que o trabalho iria resultar no fim das contas em nebulização.
Já um pouco piegas, melancólico, de tanto conhaque ou de tantos ácaros, depois de assoar o nariz uma centena de vezes, o senhor W começou a cismar que a vida é um livro aberto mas nem sempre, que a vida nunca é uma página em branco, que a vida é um eterno virar de páginas, à espera de escrita e de exegese.
Açaí apenas o olhava com seus olhos úmidos de cão, nem entendendo nem desentendendo. E o vento lá fora balançava a casa azul, aquela que vagamente lembra a casa de Neruda em La Isla Negra.”
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







