Por Lourenço Paulillo, poeta e cronista
Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
Argumento
Mas fico sem jeito calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei
(Trecho de Resposta ao Tempo, Aldir Blanc e Cristóvão Bastos)
Sempre que muda o mês, viramos a página da folhinha.
Se ela contiver mensagens, vamos lê-las pra conferir se trazem boas dicas ou se apenas chovem no molhado.
Caso se trate de um livro largado sobre a mesa, o vento irá virar suas páginas. Ao retomá-lo, estaremos em outro trecho da história.
Entretanto, do livro da vida não há como pular páginas. Temos que percorrê-las uma a uma, sejam doces ou amargas.
Num dia chuvoso resolvo abrir meu livro da vida ao acaso.
Na primeira vez que abro, me vejo aos quatro anos, chutando a porta de entrada da escola, aos berros. A diretora tenta apaziguar minha mãe. Diz que esse fato é normal no
primeiro dia de aula.
Na segunda, eu entro num terreno baldio, cheio de mato, indo atrás de
um pé de laranja. Um cachorro bravo corre e avança em minha direção e saio correndo. Até hoje consigo ver a marca de um dente na panturrilha da perna direita. Nunca revelei
esse episódio em casa, pra não levar uma surra.
Em outra página, eu já crescido, despenco de uma varanda, com cadeira e tudo. Caio de barriga no caule lenhoso de uma
roseira. O casal de primos, antes de me acudir, cai na gargalhada. Quase sem dormir, com dor a noite toda, na manhã seguinte me levam ao pronto-socorro da pequena cidade de Silveiras.
Nova página, estou na Praia Grande, então bem tranquila. Saio dirigindo o carro do meu pai até a praia, com dois amigos. O carro enguiça e logo começa a ser engolido pela maré. Apavorados, ficamos acenando por socorro. Após intermináveis minutos, uma picape decide nos ajudar. Puxam o carro com uma corda.
A chuva continua e o vento vai virando as páginas do livro:
O dia em que me atinge o olho uma lasca
Outro em que engulo o fruto com a casca
O dia do escorregão na horta
E o de dar com o nariz na porta
O dia de rezar o Credo
E aquele de ficar com medo
A mãe preparando o almoço
As crianças em alvoroço
A correria pra vencer a gincana
A roupa manchada de banana
A noite dormida na cabana
Com pastel e caldo de cana
O dia de fugir das abelhas
E das caras sujas de groselha
Os dias com catapora
E o tempo de colher amora
A tarde de curtir o céu azul
A noite de procurar o Cruzeiro do Sul
O dia de cantar no coro
E o primeiro dia de namoro
A ocasião de aprender a dançar
E pisar no pé do par
O dia de falar besteira
A noite de pular fogueira
O dia de muita sorte E o de chorar a morte
O livro guarda uma vida
Os dias de sol e os de chuva
As viagens, as paisagens
Ele faz recordar os amigos
Os prêmios e os castigos
Os dias de festa e os de luto
Com o tempo o livro envelhece
De muita coisa a gente esquece
Tudo perde a nitidez
É o tempo da escassez
Mas, como a chuva que vai e volta
Fazendo ruído no telhado
O vento também vira de lado
Fazendo retornar o passado
Colorindo o velho livro desbotado.







