Por Lourenço Paulillo, poeta e cronista, nem um pouco imune a perrengues
Você se esquece de pôr a caneca debaixo da cafeteira e acaba inundando a cozinha.
O sabonete está gasto e escorrega N vezes pro chão durante o banho. Você acaba fazendo ginástica.
A sola da pantufa descola na ponta e você tropeça, por pouco escapa de um tombo.
Distraído, chuta o pote d’água da gatinha ou a galinha de cerâmica tão estimada.
Você vive batendo o cotovelo no batente da porta e o esfolado nunca sara.
Zera a pilha do controle remoto da tv e você não sabe acioná-la direto no aparelho. Claro que não tem pilha reserva.
Some o celular à noite, a casa sem energia. Você está só, não há como pedir pra alguém ligar pro seu número. Pior se ele tiver caído lá fora, numa área bem extensa.
A descarga dispara bem de madrugada!
O bolso do seu casaco está descosturado no fundo. Ao guardar o celular, ele cai de ponta no chão de cerâmica.
Ou na rua, o celular escapa da sua mão e cai…exatamente num dos vãos do bueiro. É dar adeus.
Você compra um belo abacaxi, perfumado de tão maduro. Ao cortá-lo, metade está estragado. Você xinga todas as espécies de bromélias.
Você pega sua única caneta esferográfica pra anotar algo urgente, ela está vazada.
A ventania vira seu guarda-chuva do avesso. Já era, pode ir comprar outro. E depois de encharcado, vá tomar um banho quente.
Seu dedo fica preso ao fechar a escada. Você vê estrelas e…solta aquela sigla que vem de imediato.
Você está com as duas mãos ocupadas e um sedento mosquito pousa no seu pescoço. Solta tudo e reza pra ele ser do tipo lento.
Apressado como sempre, caxias, você corre pela calcada sem olhar pro chão. Esquece que lhe perseguem crateras, grandes raízes salientes, emaranhados de fios largados perto dos postes. Estatela-se no chão.
Sorte que o casal amigo da banca de revistas corre a lhe socorrer, já com um pote d’água, band-aid e faixa da farmácia mais próxima.
Você não se conforma com a discrepância entre a tomada antiga na parede e a bendita engenhoca de três pinos.
Você se segura num galho pra não cair numa vala. Ele é frágil, despencam você e o galho na mão, como uma escultura de Víctor Brecheret.
Vai falar com a vizinha que está na rua, e você aproximando-se da cerca. Escorrega e arranha-se todo no arame farpado.
Você vai descascar uma laranja com a mão. A ponta da unha descola e fica ardendo pra chuchu.
Sem querer, claro, você pisa no rabo do cachorro que dorme. Ele acorda assustado, geme alto, e seu susto é ainda maior.
Não, não pensem que vou falar do ingrato cão que levou um bife da minha perna. Aquele não foi um pequeno perrengue…foi um perrengaço!
Lourenço Paulillo
27 de julho de 2026.
Nem me perguntem se a maioria desses casos ocorreu comigo.
E aposto que vocês contribuirão para o Pequenos Perrengues Parte II.







