Quando Bolsonaro proibiu o Amor

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As palavras censuradas entre 2019 e 2023 desafiam a imaginação – e forçam reconsiderar o voto

Por André Forastieri, compartilhado de seu Blog




Durante a campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro defendeu a extinção da Empresa Brasileira de Comunicação. Era de se esperar.

A EBC foi criada em 2007 por Lula. Concentra todos os veículos de radiodifusão federal, TV Brasil, Agência Brasil, rádios MEC e Nacional e seus sites e redes sociais, inclusive “A Voz do Brasil”.

Natural que os profissionais da EBC recebessem o novo governo em 2019 com um pé atrás. Mas ameaça de extinção não se cumpriu.

Numa era em que toda a imprensa foi considerada inimigo, também natural que a imprensa oficial fosse tratada como inimigo interno. E censurada de uma maneira que é muito, muito difícil a gente hoje acreditar.

Em fevereiro de 2019 assumiu como novo chefe da EBC um nome da casa, o diretor de operações Alexandre Henrique Graziani Júnior. Estava na empresa há três anos, depois de longa carreira na Globo, CNT, TV Senado. Durou seis meses.

Seu substituto foi sinal de alerta: um general, Luiz Carlos Pereira Gomes. Um ano depois, em setembro de 2020, Covid explodindo, assumiu o publicitário Glen Lopes Valente.

Valente dirigia então o marketing da Secretaria de Comunicação do governo. Vinha de longa carreira em bancos e setor financeiro, foi diretor comercial e de marketing do SBT. Ficou até o final do mandato de Bolsonaro.

“O que é esse painelzão da Marielle Franco?”, perguntei para o jornalista da EBC que me guiou na redação paulistana da empresa, dia desses, minha primeira vez lá. Você entra na EBC e é impactado logo na entrada pelo rosto da vereadora assassinada, cercada por palavras escritas à mão, a várias mãos.

“São as palavras que ninguém podia dizer no rádio ou TV na EBC, nem escrever nos sites, durante o governo do Bolsonaro”, me explicou. “Ninguém podia publicar ou falar nenhuma delas.”

Parei ali para ler uma a uma, queixo caído. “Tá falando sério? Vocês tinham censura prévia dessas palavras cotidianas no jornalismo, inofensivas, do dia-a-dia?”

“É. Eles iam mandando de Brasília, pingadinho. Uma semana cortavam uma, outra cortavam outra, a lista foi aumentando. Quando o Bolsonaro saiu, o pessoal aqui fez esse painel.”

A lista das palavras censuradas na EBC parece impossível, inimaginável no mais retrógrado dos regimes. Mas é real, nosso passado recente.

E pode ser nosso futuro próximo, se depender dos muitos eleitores que consideram trazer os Bolsonaro de volta ao poder em 2027.

Quero crer que alguns desses brasileiros e brasileiras vão reconsiderar seu voto ao ler a lista abaixo. Estão no Memorial das Palavras Proibidas:

  • Agrotóxico
  • Fake news
  • Comunicação pública
  • Ditadura
  • Favela
  • Violência doméstica
  • Indígenas
  • Gênero
  • Fome
  • Reforma agrária
  • MST
  • Falta de medicamentos
  • Vacina
  • Direitos humanos
  • Tortura
  • Corrupção
  • China
  • Racismo
  • Letalidade policial
  • Protesto
  • Inflação
  • Trabalho
  • Butantã
  • Assédio moral
  • Tratamento profissional
  • Paulo Freire
  • Marighella
  • Trabalhadores
  • Greve
  • Impunidade
  • Pasquim
  • Fora Temer
  • Floresta
  • 500 mil mortos por Covid
  • Marielle Franco
  • Democracia
  • Liberdade
  • Ciência
  • Educação
  • Amor.

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