Quando jornalistas se pretendiam revolucionários

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Durante a ditadura, surgiram vários jornais ditos alternativos, que não fingiam neutralidade, faziam oposição real à ditadura, denunciavam a tortura e as prisões arbitrárias

Por Mouzar Benedito, compartilhado de Fórum




- Exemplos de jornais alternativos - Foto: Associação Brasileira de Imprensa

Tabloide, na Inglaterra e alguns outros países, era sinônimo de jornal sensacionalista cheio de fofocas, manchetes apelativas e de conteúdo não confiável, por distorcer os fatos.

No Brasil, durante a ditadura, com a grande imprensa se calando (em alguns casos, era calada) diante dos abusos dos militares, da corrupção, da violência… Não dava para acreditar muito nela, em relação a certos assuntos. Havia alguns bons jornalistas neles, mas os donos faziam parte do sistema, se sujeitavam (ou eram sujeitados) ao que os milicos mandavam. Surgiram, então, vários jornais ditos alternativos, que não fingiam neutralidade, faziam oposição real à ditadura, denunciavam a tortura e as prisões arbitrárias, apoiavam as causas operárias, criticavam a política econômica… enfim, davam as notícias que a grande imprensa não dava, e tomavam posição.

Como quase todos os mais importantes jornais alternativos eram em formato tabloide, os jornalões falavam deles como “jornais nanicos”, em tom de desprezo, mas escondendo inveja. Que ironia! O Estado de S. Paulo, conhecido como Estadão tornou-se um nanico e a Folha de S.Paulo também!

Houve depois de 1964 uma imprensa alternativa de pouca duração. Pif-paf, editado por Millôr Fernandes, foi o jornal alternativo mais famoso, neste período inicial do pós-golpe e durou poucos números. Um mais literário, mais alternativo no sentido existencial, circulou no Rio de Janeiro em 1967 e 68, chamava-se “O Sol”, que mereceu citação numa das mais belas músicas de Caetano Veloso, “Alegria, Alegria”, mas a maioria das pessoas não sabia disso, pensava que ele se referia ao sol mesmo no trecho em que diz: “O Sol nas bancas de revistas / me enche de alegria e preguiça…”.

O começo da fase áurea da imprensa alternativa foi com o Pasquim, criado em 1968 e, segundo se diz, inicialmente despretensioso, meio voltado para o público de Ipanema, bairro do Rio de Janeiro cheio de intelectuais, humoristas, jornalistas… Era um jornal de humor, sim. Mas crítico também. Pegou bem, conseguiu leitores pelo Brasil inteiro. Em São Paulo, vi o número 2 nas bancas, comprei, li e fiquei encantado. Foi um jornal tão importante que influenciou toda a imprensa brasileira, mudou a linguagem.

Depois foram surgindo outros menos “de humor” e mais políticos no sentido tradicional, mas também com humor: Opinião (RJ), nacionalista de esquerda (embora fundando por um empresário, Fernando Gasparian); Movimento (SP), liderado por Raimundo Pereira, que já nasceu sob censura, fundado por dissidentes do Opinião, com militantes de esquerda… E assim foi indo, foram surgindo jornais alternativos combativos em quase todos os estados, como o Varadouro (Acre), Posição (Espírito Santo), De Fato e Jornal dos Bairros (MG), Coojornal (RS), Versus e Em Tempo (SP), Chapada do Corisco (PI), Jornal da Amazônica (AM) etc. etc. e muitos etc. Tinha nas capitais e no interior também. Havia jornais com clara identidade ideológica, como o anarquista O Inimigo do Rei, os ligados a movimentos operários, como O Batente (Osasco-SP), feministas, Nós, Mulheres; Brasil Mulher e Mulherio; o de homossexuais, O Lampião da Esquina; o de lésbicas Chanacomchana…

Gosto de me lembrar de alguns com características bem próprias, como um da pequena cidade de São Gotardo (MG), chamado Paca, Tatu Cotia Não. Em 1964, o dono de uma enorme fazenda do município ficou contra o golpe e logo veio a rebordosa: o governo Castello Branco, defensor dos latifúndios, resolveu fazer a reforma agrária num único e exclusivo lugar: na fazenda do latifundiário que se opunha à ditadura.

Mas a reforma agrária dele não tinha nada que merecesse esse nome: entregou a fazenda à Cooperativa Agrícola de Cotia, de São Paulo, como se isso fosse reforma agrária. Essa “cooperativa” merecia aspas: funcionava, a partir de certo momento, como uma grande empresa. Na fazenda que recebeu de mão beijada, os trabalhadores moravam nela, muitos trabalhadores. E o que ela fez? Expulsou todos, que tiveram que ir para a cidade viver precariamente e trabalhar como boias-frias para ela. Daí, surgiu um ódio local contra a dita cooperativa, e jovens da cidade criaram o excelente jornalizinho (pelo formato: este nem era tabloide, era do tamanho de revistas tipo Luluzinha ou Pato Donald), com o título altamente político inspirado na brincadeira infantil em que se pedia para alguém falar rapidamente “paca-tatu-cutia não”. A resposta era falar apenas “paca-tatu”, pois “cutia não”.

Jornalistas & Revolucionários

Um dia desses eu me lembrei de um livro de Bernardo Kucinski sobre a imprensa alternativa, chamado “Jornalistas & Revolucionários”, publicado em 1991. Eu tinha um exemplar dele, mas doei para alguma biblioteca pública e queria ler de novo. Comprei outro, num sebo.

Um detalhe curioso: na contracapa tem dois textos pequenos, assinados por… Fernando Henrique Cardoso e por mim. Na época, os editores consideravam FHC um “dos nossos”. Ele era senador, muitos ainda confiavam nele.

Pois bem… O livro é muito bom, dá uma visão geral da importância da imprensa alternativa no Brasil nos tempos da ditadura. Mas na época comentei com Bernardo Kucinski que podia ser melhor ainda se ele tivesse entrevistado não só os caciques dos jornais, mas uns índios também. Isso não desmerece o livro nem o autor. Bernardo Kucinski é um jornalista e escritor dos melhores.

Aí fiquei me lembrando de por que estudei jornalismo e comecei a praticar a profissão. Como já disse, tinha ficado fascinado pelo Pasquim e depois passei a ler todos os jornais alternativos a que tinha acesso. Já em 1970, fundei um jornalzinho chamado O Órgão (dos estudantes de Geografia da USP), que acabou sendo praticamente só meu. Quase não havia colaboradores, e um dos motivos era a repressão braba, que tinha como um dos alvos preferenciais o Centro de Estudos Geográficos da USP. Existia na época o Grêmio da Faculdade de Filosofia, e em cada curso tinha um “centrinho” próprio. O nosso era esse. Depois do AI-5, quase todos os centrinhos praticamente deixaram de existir.

Uma exceção foi o centrinho de Geografia, praticamente único a manter-se ativo em 1969, apesar de várias invasões policiais e militares. Parte da diretoria, depois de algumas prisões, se mandou para o exílio, mas mantivemos o centrinho funcionando (eu era da chapa perdedora das eleições, mas trabalhava nele como se fosse um dos diretores). Os milicos baixavam lá, arrebentavam tudo… e dizíamos: vamos ser mais chatos do que eles. Limpávamos tudo, colocávamos uma mesa de pingue-pongue, umas mesinhas com tabuleiros de xadrez, um toca-discos com meia dúzia de LPs… E eles arrebentavam de novo. E mantive meu jornal, custeado por mim mesmo (impresso em mimeógrafo, custo quase zero). Algumas pessoas me aconselhavam a não aparecer como “editor” do jornal, ou “dono”, pois a repressão era braba mesmo. E eu respondia: “Se eu tentar manter o jornal como clandestino, o Dops vai saber que é meu de qualquer jeito, e achar que eu faço outras coisas… seria pior pra mim”.

Como entrei nessa

Quando terminei o curso de Geografia, estava correndo muitos riscos. Muitos amigos tinham ou estavam sendo presos, outros exilados… Via que estava chegando a minha hora. Podia ser preso ou morto, pois exilado eu não seria: não era ligado a nenhuma organização de esquerda que pudesse me apoiar no exterior, e não teria como sobreviver. Além disso, havia entre os grupos de exilados suspeitas justificadas sobre algumas pessoas que tentavam se juntar a elas. No Chile, por exemplo, policiais brasileiros se infiltravam nesses grupos. “Já que não dá pra ir pro exterior, vou pro interior. Quem sabe esquecem de mim”, pensei quando apareceu a chance de prestar um concurso no Sesc, para trabalhar numa unidade móvel que promovia atividades de lazer, esportes e cultura no estado de São Paulo.

Depois de dois anos no interior, voltei para São Paulo no início de 1974 e resolvi cutucar a onça, entrando numa faculdade da USP com a pretensão de participar de um improvável ressurgimento do movimento estudantil. Entrei em chinês, no Departamento de Letras Orientais. Na época, pensavam que eu tinha ligação com o PC do B, que era maoísta, defensor do modelo de revolução chinesa. Mas minha escolha foi porque eu queria entender como funcionava uma língua sem alfabeto. E, para completar, fiz como matéria optativa o curso de tupi. Mas só um semestre.

Em julho, pensei: já tenho um diploma universitário que não me dá possibilidade de trabalhar, vou arrumar outro? Gostava e gosto muito de geografia, mas emprego como geógrafo praticamente não havia. Dar aulas, além de não gostar, sou incompetente nisso.

Já que gostava da imprensa alternativa e via nela uma forma de militância contra a ditadura, fui estudar jornalismo na Cásper Líbero. O curso era fraco, até hoje acho que o curso de Geografia me valeu mais do que o de jornalismo para praticar a profissão. Mas teve uma coisa interessante. A profissão de jornalista havia sido regulamentada havia poucos anos, e para quem já praticava a profissão teve um prazo de dois anos para regularizar a situação. Só que muitos jornalistas não acreditavam que essa lei ia pegar, e não regularizaram. Terminado o prazo, os patrões cobraram deles: ou arrumam um diploma ou vamos ter que demitir… Estando na faculdade já tinham como manter o emprego até se formarem.

O curso de jornalismo durava quatro anos, menos na Cásper Líbero que na época era só três. Então esses profissionais optavam por ela. E havia muitos deles, competentes. Pra variar, eu era encrenqueiro, até nos trabalhos escolares fazia textos provocativos. Um dia, um colega, Marcos Wilson, que trabalhava no Estadão, me disse: “Falei de você pra um colega do Jornal da Tarde que está fundando um jornal, ele topou te aceitar no grupo”. O tal fundador era Marcos Faerman, o Marcão, jornalista famoso, competente.

Eu era um bagrinho no meio dos jornalistas famosos e intelectuais desse grupo. O Marcão, inspirado na revista argentina Crisis, editada por Eduardo Galeano, propôs que o jornal se chamasse Versus. Depois de meses de reuniões, chegamos à conclusão: o jornal estava pronto pra sair. Seria bimestral. Tinha matérias, gente se propondo a colaborar, tudo que precisava, menos dinheiro para soltar a primeira edição. Como conseguir? Os intelectuais e os jornalistas famosos não se dispuseram a soltar grana. Fui ao banco e rapei meu saldo, entreguei ao Marcão. Não era muito, talvez um quarto ou um quinto do valor necessário. O Marcão pôs o resto da grana. Daí em diante, com o dinheiro da venda de uma edição, bancávamos a seguinte. E como o jornal teve uma aceitação muito boa, passou a ser mensal. A edição não era grande, começamos com dez mil exemplares e chegamos a trinta mil, mas circulava em boa parte da América Latina, com colaboradores como Gabriel García Márquez, Julio Cortazar, Ariel Dorfman, Mario Benedetti e o próprio Galeano.

Além do custo, a distribuição era outro problema. Existiam apenas duas distribuidoras e elas eram cheias de exigências. Alguém conhecia um aposentado que tinha uma Kombi e ele virou distribuidor em São Paulo, ficando com uma porcentagem das vendas. O pai do Marcão distribuía em Porto Alegre. Como eu trabalhava na época como pesquisador de cultura popular no Sesc, viajava muito e me dispus a arrumar grupos ou amigos para distribuir em vários lugares, como Santos, algumas cidades do interior paulista, Salvador, Belém e Manaus. E também arrumava alguns colaboradores, como o escritor Marcio Souza, de Manaus, e o xilogravurista Rubem Grilo, mineiro que morava no Rio.

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Praticamente anônimo

Revendo o livro “Jornalistas & Revolucionários”, reparei numa coisa que não me incomodava: fui sempre quase anônimo nos jornais em que colaborei. No próprio livro, meu nome aparece uma única vez, como um dos jornalistas de “estilo alternativo, do qual muitos jornalistas nunca mais se desfizeram” (ver foto da página).  Realmente, nunca me desfiz. Nas faculdades de jornalismo aprendemos que devemos ser sem opinião, meros narradores de notícias, mas principalmente no Versus nos colocávamos como participantes da matéria, dentro dela, tínhamos opinião e deixávamos isso claro.

De uns tempos para cá, começaram a me dar muito valor pela participação na imprensa, principalmente alternativa, e passei a pensar um pouco na minha trajetória, que não é de destaque, e resolvi agora, depois de reler o livro, lembrar de algumas participações, por mero exercício de memória, nada de querer ter tido um papel importante. Tenho receio de parecer pretensioso.

Além do Versus, participei também da fundação do Em Tempo, que surgiu de uma dissidência do Movimento. Era uma frente de esquerda. Um problema era que grupos políticos tinham uma visão difícil do que seria fazer parte de uma “frente”. Para testar como funcionaria, resolvemos editar um número zero, que não iria para as bancas. Havia umas desconfianças entre as tendências participantes. Cada representante de um determinado grupo tinha que ler todas as matérias para que não tendessem para um outro grupo. E os ditos-cujos viam defeitos em todos os textos: um trotskista achava que uma palavra numa matéria qualquer tinha um tom maoísta, um outro via uma palavra como típica de trotskista numa outra matéria… Não adiantava discutir com eles que o leitor não daria a menor bola pra isso. Gastamos três semanas para editar um jornal que seria semanal. Desisti. Uns tempos depois, morando no Rio de Janeiro, consegui autorização para visitar presos políticos e me propus a fazer matérias sobre eles para o Em Tempo. Depois, consegui visitar presos políticos de São Paulo e fazia matérias sobre eles também. Sempre com pseudônimo.

O Movimento e o Versus tinham ações comuns, mas publiquei nele apenas uma matéria. Nesse trabalho de pesquisa de cultura popular do Sesc, estive em Goiás e conheci uma poetisa idosa até então desconhecida fora de lá. Gostei, dali uns tempos entrevistei Cora Coralina. O pessoal do Versus não se interessou muito e levei pro Movimento, onde a editora de cultura era Maria Rita Kehl. Foi a primeira matéria com Cora Coralina publicada num jornal de fora de Goiás.

Volto ao Pasquim, em que colaborei em 1976 e depois de alguns anos de novo. Na página 2 do jornal, Ivan Lessa, com o pseudônimo Edélsio Tavares, editava as cartas dos leitores e desancava muitos deles, gozava… Um dia resolvi mandar duas matérias pra lá, por carta, mas em vez de mandar pro jornal, mandei pro Jaguar. E usei um pseudônimo, para o caso do Jaguar entregar a carta com as matérias pro Ivan Lessa. Não queria ser gozado por ele. Mas o Jaguar publicou as duas matérias, ocupando uma página e aí passei a mandar matérias com meu nome mesmo. Na época da volta dos exilados, 1978/79, voltei a colaborar ativamente. Uma entrevista que fiz (com a participação de amigos) com Manuel da Conceição foi recordista em tamanho: onze páginas. Uma outra que o Carlos Tibúrcio e eu fizemos com o Paulo Schilling, pai da última presa política brasileira, Flávia Schilling, que estava num presídio do Uruguai, saiu numa edição que foi apreendida pela polícia, não por causa dessa entrevista, embora o Jaguar tenha me dito que ela influenciou.

Na imprensa feminista, conhecia as fundadoras do Nós, Mulheres, que usaram a sede do Versus para se reunirem para a criação do jornal, mas não colaborava nele. Tinha o Brasil Mulher, criado por Terezinha Zerbini, para a defesa da anistia aos presos políticos. Houve um racha, ela saiu e o jornal foi assumido por militantes da AP (Ação Popular). Elas não tinham muita prática de edição de jornal e me chamaram para colaborar. Depois, surgiu o Mulherio, algumas das jornalistas do grupo me conheciam e me convidaram. Participei também.

Para terminar, lembro do Jornal dos Bairros, criado por jovens militantes de esquerda no bairro industrial de Barreiros, em Belo Horizonte, e na cidade de Contagem. Era um pessoal sem dinheiro também, tinha que economizar o máximo possível. Já falei dele em matérias publicadas na Fórum. Era quinzenal. Uma gráfica de São Paulo, a PAT, localizada no bairro de Pinheiros, era a mais barateira e preferida por muitos jornais alternativos, o pessoal do Jornal dos Bairros optou por ela e me contatou para ter uma participação diferente nele.

Compunham as matérias, diagramavam e faziam o que se chamava past-up (os textos compostos colocados nas páginas) em Belo Horizonte, antes de mandar para imprimir na PAT. Mas na gráfica de BH não tinha “letras grandes” para os títulos das matérias, então devia fazer isso aqui, além da colocação de fotos e legendas. Eles mandavam as páginas com os past-ups para mim, eu levava para a PAT e lá colocava os títulos e as fotos, acompanhava todo o processo de impressão, o que durava a noite toda, e de manhã amontoava os jornais num carro velho que eu tinha e levava para uma transportadora na Vila Maria, torcendo pra minha “condução” não quebrar no caminho. Fiz isso até ter que mudar pro Rio, por não conseguir emprego em São Paulo, devido à perseguição política, mas arrumei um amigo que fazia esse trabalho, também de graça.

Enfim… Já está um texto extenso demais, nem sei se interessa aos leitores. E tem livros sobre isso, como esse de Bernardo Kucinski, que vale a pena procurar nos sebos e ler.

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