Ministro transfere participação após questionamentos sobre contratos milionários e reunião com Daniel Vorcaro
Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí
André Mendonça e Daniel Vorcaro
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça decidiu deixar a sociedade do Instituto Iter, instituição privada que ajudou a fundar há cerca de dois anos e que passou a chamar atenção por seus contratos milionários com órgãos públicos e por uma reunião realizada em sua sede com o então banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Mendonça transferirá todas as suas cotas aos demais sócios, enquanto o Iter deverá passar a funcionar como entidade sem fins lucrativos. Segundo interlocutores, o ministro afirmou que tomou a decisão para “evitar ruídos”.
A saída ocorre justamente quando aumentam os questionamentos sobre a expansão financeira da instituição.
Dados divulgados inicialmente apontaram que o Iter havia obtido R$ 4,8 milhões em contratos públicos apenas em 2025, pouco depois de iniciar suas atividades. Levantamentos mais recentes apontam que o volume acumulado de contratos com entidades públicas já alcança aproximadamente R$ 11,4 milhões.
Nesta quinta-feira (3), a revista Fórum informou ainda que o faturamento da instituição teria ultrapassado R$ 10 milhões.
A questão, porém, vai além dos contratos públicos.
André Mendonça diz que nunca recebeu lucros do Iter
Críticos do ministro apontam a possibilidade de conflito de interesses e questionam contratos celebrados com órgãos públicos, inclusive casos realizados sem licitação.
Mendonça contesta as acusações e afirma que nunca obteve lucro pessoal com o instituto.
Segundo sua versão, o Iter teria registrado prejuízo durante o primeiro ano de funcionamento e alcançado resultado positivo próximo de R$ 200 mil no ano passado. A assessoria da instituição também sustenta que nunca houve distribuição de lucros aos sócios.
Mendonça declarou anteriormente que qualquer resultado financeiro obtido por sua família com o empreendimento teria destinação religiosa, educacional e social.
Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou:
“Tudo o que vier, possivelmente, a dar de lucro e resultado, eu vou separar 10% para o dízimo e os 90% restantes serão investidos em obras sociais e educação.”
Agora, ao deixar formalmente a sociedade, o ministro determinou que eventuais valores relacionados à sua participação também permaneçam destinados a iniciativas sociais e educacionais.
Iter conseguiu autorização do MEC para oferecer pós-graduação
Além dos contratos com governos, prefeituras e empresas, o Instituto Iter ampliou rapidamente sua atuação no mercado de formação jurídica.
Em janeiro, o Ministério da Educação autorizou a instituição a oferecer cursos de pós-graduação lato sensu, modalidade de especialização.
A velocidade da autorização chamou atenção de profissionais do setor, integrantes do próprio Ministério da Educação e conselheiros e ex-conselheiros da área.
Naquele momento, centenas de pedidos semelhantes permaneciam aguardando análise.
Com a autorização, o Iter ganhou condições de ampliar significativamente sua atuação comercial no ensino jurídico, área diretamente relacionada à trajetória profissional de seu fundador.
O que ainda não se sabe sobre os contratos privados do Iter
Os contratos públicos do Instituto Iter podem ser rastreados porque negócios celebrados com entidades governamentais precisam deixar registros oficiais.
Por isso já é possível identificar milhões de reais em negócios envolvendo a instituição.
O problema está no que não aparece.
Até agora, pouco se sabe sobre os clientes privados do Iter.
E essa informação ganhou importância ainda maior depois da revelação de que Daniel Vorcaro esteve pessoalmente na sede do instituto para uma reunião com André Mendonça.
O caso Banco Master mostrou justamente como relações envolvendo instituições públicas e contratos privados podem se cruzar.
Por isso, os negócios privados do Iter merecem atenção especial.
A reunião de Daniel Vorcaro com André Mendonça
Há uma primeira pista importante.
A reunião de Daniel Vorcaro com André Mendonça na sede do Instituto Iter, em São Paulo, aconteceu em 14 de março de 2025.
A cronologia conhecida é bastante precisa.
No dia 13 de março, o deputado Cezinha de Madureira informou Vorcaro sobre o encontro marcado para as 17 horas do dia seguinte.
Em 14 de março, às 16h37, Vorcaro avisou que estava a caminho.
Seis minutos depois, às 16h43, Cezinha respondeu que o ministro já estava esperando.
Às 18h40, Vorcaro comunicou ao motorista que estava deixando o endereço.
Portanto, não se trata apenas de informação genérica sobre um encontro: há registros que permitem estabelecer horário, local e duração aproximada da reunião.
37 notas fiscais em apenas três dias
É aí que aparece uma segunda informação que merece investigação.
No dia 11 de março de 2025, três dias antes da reunião com Vorcaro, o Instituto Iter emitiu a nota fiscal de número 189.
No próprio dia 14 de março, quando ocorreu o encontro, já havia sido emitida a nota fiscal número 226.
A diferença entre as sequências indica que até 37 notas fiscais podem ter sido emitidas nesse intervalo de apenas três dias.
As notas podem corresponder a matrículas individuais, cursos, pacotes contratados por empresas ou outros serviços oferecidos pelo instituto.
Mas há uma pergunta simples que ainda não foi respondida:
quem eram esses clientes?
André Mendonça pode encerrar as dúvidas abrindo as contas do Iter
É justamente neste ponto que a decisão de André Mendonça de deixar a sociedade do Instituto Iter não encerra o assunto.
Ao contrário.
Se o objetivo declarado é “evitar ruídos”, a maneira mais eficiente de afastar suspeitas seria dar transparência às relações comerciais da instituição durante o período em que o ministro participou de sua estrutura societária.
Isso inclui especialmente revelar quem contratou o Iter nos dias próximos à visita de Daniel Vorcaro.
A sequência das notas fiscais oferece um caminho objetivo para investigação.
Quem foram os clientes das notas emitidas entre os números 189 e 226?
Alguma empresa ligada a Daniel Vorcaro, ao Banco Master ou a pessoas relacionadas ao banqueiro aparece entre elas?
Houve contratação anterior, simultânea ou posterior à reunião de 14 de março?
O Iter afirma que André Mendonça nunca recebeu lucros e que sua atuação sempre esteve vinculada a objetivos educacionais e sociais.
É justamente por isso que a abertura das informações comerciais poderia encerrar qualquer suspeita.
Se não há nada a esconder, as 37 notas fiscais são um excelente lugar para começar a esclarecer.







