Por Lourenço Paulillo, poeta e cronista
Foi em fevereiro de 2004 que conheci a cidade de Sabino*. Fomos para o.casamento do nosso filho Márcio com a Josiani. Lá conhecemos os pais da noiva, Antônio e Iracema.
Antônio Pereira de Souza e Iracema Sanches Garcia. E a vasta família: Ceminha por exemplo, tem muitas irmãs: Lina, Mariquinha, Marly, Célia, Edna. Também os jovens padrinhos, Mariela e Juninho.
A partir de então, têm sido várias voltas a Sabino, seja para as festas de fim de ano ou em períodos de férias. Algumas vezes eu lá chegava de ônibus, que parte de Lins e faz o trecho final da viagem. São apenas vinte e nove quilômetros, rodeados de verdes pastos, corujinhas buraqueiras no topo dos mourões das cercas.
Sabino nasceu à beira de um braço represado do rio Tietê, uma longa ponte nos leva à entrada da cidade. A casa fica bem perto da ponte. Antônio sempre me aguardava na calçada, enquanto a varria com uma vassoura de palha de sorgo, aquela amarelinha. Porque o chão vivia repleto das perfumadas flores brancas do arbusto “cafezinho” que sombreava o portão.
Antônio era madrugador. À primeira claridade do dia, dirigia-se ao barracão de madeira do quintal. Era seu espaço. Ligava o rádio para ouvir música sertaneja raiz. Sabia de cor todas as letras. Quando sozinho, as cantarolava junto.
Na juventude, cantava com seu irmão, mas agora a voz havia enfraquecido. Daquele tempo guardava um violão, meio escondido, talvez com ciúme.
Ele era apaixonado por Tonico e Tinoco, e a música preferida Moreninha Linda. Certa vez, o primo da Ceminha, Cidão, lhe disse que Tinoco viria se apresentar na cidade. Influente, funcionário da Prefeitura, ele conseguiria trazê-lo para uma visitinha à sua casa. Papo e café. Antônio mal acreditou, mas vieram mesmo! Ele não se continha de tanta alegria. E passou a exibir a todos, sorridente, a foto que eternizou o raro momento.
Nas manhãs e à tardinha, horas de temperatura mais amena, sentava-se na cadeira de fios, os demais ao redor, e trazia curiosas histórias dos velhos tempos. Trabalhava carpindo café nas fazendas da região e dizia: fizesse sol ou chuva, era preciso carpir toda semana as carreiras de café, religiosamente, porque o café não suporta mato em volta.
Cansados no final da tarefa, ele e os companheiros caminhavam até a beira do rio para se refrescar. Deparavam-se com frondosas jabuticabeiras e goiabeiras nativas e faziam a festa. Não faltavam os diversos casos envolvendo cobras, estes um tanto assustadores.
O barracão era o ateliê do artesão Antônio. Exímio na execução de peças trançadas em couro, selaria, arreios, rédeas. Raro remanescente desta arte, era procurado por cavaleiros que vinham de longe.
Comprava ou ganhava o couro inteiro do boi, limpava-o cuidadosamente dos resíduos, esticava-o num quadro de madeira, onde iria secar ao sol. Quando pronto, recortava-o em tiras, para a confecção das peças. Prontas, enfeitavam as paredes internas do barracão à espera dos clientes.
Num canto do rancho pendurava os pesados cachos verdes de banana nanica.
No seu prato, feijão e arroz eram sagrados. Mesmo nos fartos almoços de Ano Novo, em que é tradição a grande família, porque incluindo muitos parentes, todos com filhos e netos, se reúnem no Sítio Nossa Senhora de Lourdes, do José Ciocca e Edna.
Um festival de pratos salgados e doces trazidos pelos participantes. Todos de mãos dadas para rezar o terço antes do festivo almoço. E depois as longas conversas sob a sombra das mangueiras.
Outro prazer de Antônio: notando a presença do caminhão de melancia perto da ponte, ia logo em busca da fruta mais doce, conhecedor que era. E voltava todo feliz, carregando-a como se fosse um troféu. Logo começava a reparti-la em generosas “fetas”, palavra que eu estranhava. Ele não falava ” fatias”. Só há pouco vim a descobrir que “feta” vem do italiano “fetta”.
Esse era o mundo de Antônio: a Sabino em que nasceu. Veio poucas vezes a São Paulo. Com Iracema, os levamos a conhecer a Catedral, o Pátio do Colégio, semente da qual germinou e cresceu a atual metrópole. Ainda, a Avenida Paulista, com direito a foto à frente do MASP. Rodízios de churrasco e pizza, com suas infindáveis opções, que os impressionava pelo excesso.
Antônio nunca vira o mar. Ao levá-lo a Santos certa vez, de tudo o que viu, não deixava de admirar a enormidade dos navios, não cansava de observá-los em seu lento movimento nas proximidades do porto.
Tanto mais poderia recordar de Antônio. Simples, muito inteligente. Filósofo, sempre com frases impactantes. Ele dizia: “Seja o que for que fizermos, é preciso muito cuidado, muita atenção, para não corrermos riscos. Até para apanhar um copo d’água.”
A bondade personificada, sempre bem humorado, narrando calmamente os “causos”, com uma xícara ou um copo de café à mão. Às vezes sumia no fundo do quintal. Logo surgia com algumas romãs ou com um balde cheio de mangas. Outras vezes, com vários cocos, que abria e ralava, passando a bacia pelo muro à parente Vilma, que no dia seguinte trazia deliciosas cocadas.
Com toda certeza, Antônio deve estar encantando as rodas de conversa do “povo de Deus”, lá no céu.
Há 8 anos, no dia 8/8/2018, de repente, Antônio partiu…como partem as pombas asa branca que ainda enfeitam seu telhado e que, assustadas com a súbita rajada de vento, alçam voo, velozes, até desaparecer no horizonte.
Lourenço Paulillo
8 de agosto de 2026.
*Sabino é uma cidade encantadora e que dista 463 km de S Paulo. Com 5.185 habitantes (IBGE/2024), está localizada no Oeste de SP, à 130km de Baurú e 136 km de S. José do Rio Preto (ou 90km via balsa). Tem o privilégio de estar à margem do Rio Tietê, pertencendo à Região “Coração do Tietê”.
É conhecida como Terra das Hortaliças. Tornou-se Município de Interesse Turístico em junho de 2017. Lá está uma das mais belas praias de água doce do interior paulista. (do Instagram de andancas.e.viagens)







