Se diz inocente, o ex-ministro dos Ataques às Urnas Eletrônicas

Compartilhe:

Encarregado por Bolsonaro de envenenar a sociedade brasileira contra as urnas eletrônicas, substrato e primeira fase da conspiração golpista, o general Paulo Sergio cumpriu direitinho a missão.

Por Hugo Souza, compartilhado de Come Ananás




Foto: O general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira em abril de 2022, quando era ministro da Defesa (Foto: Alan Santos/PR).

Entre infinitas citações de poetas, pintores e até da sogra, no fim das contas o advogado do general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira na ação penal do golpe baseou toda a defesa do seu cliente diante da Primeira Turma do STF, nesta quarta-feira, 3, num conto de que o general teria sido contagiado com “espírito pacificador” quando ainda era garoto, quando aluno do Colégio Militar de Fortaleza.

“Mal sabia que a vida estava lhe forjando para um momento decisivo da historia nacional”, disse o doutor-trovador Andrew Fernandes Farias nesta quarta, na tribuna dos advogados.

É que, segundo o doutor, a atuação do então Ministro da Defesa durante a trama golpista teria sido tão somente a de tentar demover Jair Bolsonaro do golpe. Se nos bastidores o general aconselhou Bolsonaro a não levar adiante a intentona, não se sabe. O que se sabe é que, à luz do dia, Paulo Sergio fez precisamente o contrário: ajudou Bolsonaro, e com muita competência, justamente naquilo que a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República apontam como o substrato, primeira fase da conspiração, que foi a campanha para desacreditar as urnas eletrônicas.

O general Paulo Sérgio é conhecido na “família militar” como GPS. No dia 14 de julho de 2022, quando juízes eleitorais já nomeavam os mesários das eleições, o GPS levou um coronel da ativa do Exército Brasileiro para o Senado da República, um “coronel técnico”, para o “coronel técnico” dizer, dentro do Congresso Nacional, que talvez houvesse um código malicioso nas urnas eletrônicas pronto para ser acionado no dia da votação.

“Em relação à ameaça externa, a gente considera que há sim um grande nível de proteção. A urna não se conecta à internet. Realmente, em relação a uma vulnerabilidade externa, é muito difícil. No que tange a uma ameaça interna, a uma vulnerabilidade interna, a gente ainda não tem disponível a documentação que nos leve a formar uma opinião conclusiva de que a solução é segura em relação a uma ameaça interna. É possível que um código malicioso tenha sido inserido na urna e fique lá latente esperando algum tipo de acionamento”, disse o coronel Marcelo Nogueira de Souza naquele dia, uma quinta-feira, na Comissão de Fiscalização do Senado, com o general Paulo Sergio bem ao seu lado.

Naquela apresentação do Ministério da Defesa no Senado, o coronel Nogueira disse ainda que, caso as “sugestões” dos militares não fossem acatadas pelo TSE, “um código malicioso” que estivesse “dormente no programa matriz” poderia “ser transmitido e instalado em todas as urnas”. A esta escala de envenenamento da sociedade brasileira às vésperas das eleições, o general Paulo Sergio se referiu a isso, naquele 14 de julho de 2022, dentro do Congresso, como “histórica demanda de transparência das urnas eletrônicas”.

Brasília, 14 de julho de 2022: slide da apresentação do Ministério da Defesa em audiência pública no Senado para “debater as recomendações dadas pelo Ministério da Defesa ao TSE para o aprimoramento do processo eleitoral”.

Quatro dias depois daquela audiência no Senado, apenas quatro dias depois, Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para atacar as urnas eletrônicas e ministros do STF e do TSE perante a “comunidade internacional”. O general Paulo Sergio estava lá, na primeira fila. Em sua denúncia dos golpistas, Gonet classificou aquela reunião no Alvorada como um “passo a mais na execução do plano de permanência no poder, independentemente do resultado das urnas”.

Semanas depois, no dia 4 de agosto, Paulo Sergio assinou um decreto criando formalmente a Equipe das Forças Armadas de Fiscalização e Auditoria do Sistema Eletrônico de Votação, a EFASEV, e nomeou como chefe da equipe o “coronel técnico” transformado em arauto de que “o malware pode estar no chip”.

Composta por três militares designados pelos comandos de cada Arma – três do Exército, três da Marinha, três da Força Aérea -, a EFASEV funcionou em 2022 como ponta-de-lança do assédio militar ao TSE, cavalo de Tróia com o qual o Ministério da Defesa azucrinou a Justiça Eleitoral e ajudou Bolsonaro a difundir suspeitas infundadas sobre as urnas eletrônicas entre aqueles que mais tarde viriam a acampar na frente dos quartéis e, por último, destruir da Praça dos Três Poderes.

Agora, no banco do réus, Paulo Sergio se diz inocente e seu jovem advogado tenta emplacar uma tese estapafúrdia: a de que GPS “atuou ativamente” para botar juízo na cabeça de Bolsonaro, enquanto no duro, no fatos, no comando das Forças Armadas, fazia apenas como o outro, “um manda, o outro obedece”, servindo fielmente a Bolsonaro como ministro dos Ataques às Urnas Eletrônicas, contribuindo decisivamente para lançar o país na paranoia e na insensatez total.

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Categorias