Se tentarmos repetir o Exército do Lula, é porque nada fizemos

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Por gnueverton, compartilhado de seu Blog

O Exército do Lula, mesmo como alternativa emergencial, revelou nossa força, mas também evidenciou nossas fragilidades. Se, daqui a quatro anos, o PT e as esquerdas precisarem recorrer a algo semelhante, será porque negligenciamos mais uma vez e falhamos em construir a organização política permanente, por meio de tecnologias soberanas e governança participativa, capaz de existir, atuar e se fortalecer para além dos processos eleitorais. Nossa dependência da Meta é, em si mesma, uma derrota política.




Mas essa derrota não se resume à dependência de uma plataforma tecnológica autoritária. Ela revela um problema mais profundo: ainda não conseguimos transformar nossa capacidade de mobilização em uma estrutura permanente de organização política, social e cultural, com base na economia solidária, com presença nos territórios, nas cidades e nos bairros. Continuamos sem plataformas digitais próprias, livres do controle das big techs, sem domínio coletivo sobre nossos dados e sem infraestruturas tecnológicas independentes.

IMPORTANTE: Venha debater esse tema na Organica.Social -> https://organica.social/@gnueverton/117543639567486776, que é uma plataforma de mídia social de/para/com brasileiras(os), hospedada em território nacional, em datacenter soberano, livre dos algoritmos tóxicos das big techs, sem anúncios comerciais. Desenvolvida com o software livre Mastodon, a Organica.Social faz parte do Fediverso (pop.coop/fediverso), uma tecnologia que permite a comunicação entre pessoas de diversas plataformas e servidores independentes.

É por isso que precisamos compreender a dimensão do problema e sistematizar o nosso aprendizado dessa experiência. Se insistirmos em uma solução emergencial e, daqui a quatro anos, precisarmos repetir o Exército do Lula, será porque não aprendemos com o que aconteceu e, sobretudo, porque não fizemos aquilo que já deveríamos ter feito há muito tempo.

Para entender essa fragilidade, precisamos olhar para além da plataforma utilizada e observar as prisões que nos impõem à nossa organização, ou que nos impedem de qualificar a participação política das pessoas. O problema não é apenas depender de uma plataforma controlada por uma big tech cujos donos estão alinhados ao fascismo. É reunir milhões de pessoas em uma iniciativa política sem lhes oferecer condições para se conhecerem, estabelecerem relações, comunicarem-se e organizarem ações autonomamente, enquanto a Meta concentra informações sobre cada uma delas.

Essa contradição se torna ainda mais evidente quando analisamos a gestão dos dados. Janones, criador do Exército do Lula, não tem condições de saber, de maneira estruturada, quem são essas pessoas, quais são efetivamente ativas, quais apenas se inscreveram, quais só observam, quais só reagem sem compartilhar, onde vivem, onde atuam ou sobre quais temas gostariam de dialogar e se envolver. Tampouco consegue identificar os conhecimentos, os interesses e as capacidades de mobilização existentes entre os participantes.

Mas essa limitação não diz respeito apenas à capacidade de coordenação de quem criou a iniciativa. Ela atinge também os próprios participantes, que não dispõem de instrumentos para estabelecer relações, desenvolver iniciativas, conhecer uns aos outros ou construir formas próprias de organização.

É justamente aí que aparece o limite político desse modelo. Estamos falando de 10 milhões de pessoas dispostas a agir contra o fascismo e pela democracia, mas que dependem de um comando central para saber o que fazer. Não lhes é permitido articular iniciativas em suas cidades, construir redes estaduais ou organizar ações a partir de suas próprias realidades. Estão reunidas em uma plataforma que concentra informações sobre elas, mas sem os meios necessários para transformar essa presença em autonomia política nos territórios.

Temos, portanto, uma contradição absurda: milhões de pessoas mobilizadas, mas sem condições de transformar essa disposição em organização permanente, para além da execução de tarefas determinadas por um coordenador central. A mobilização existe, mas não se converte necessariamente em relações, iniciativas e estruturas capazes de continuar atuando por conta própria.

Enquanto essa capacidade coletiva permanece limitada e controlada pela lógica de uma empresa, acontece exatamente o movimento inverso do outro lado da plataforma: a Meta acumula informações sobre quem são essas pessoas, o que pensam, seus interesses, hábitos, relacionamentos e potenciais de mobilização. Conhece seus horários, suas cidades, suas redes de contato, o que publicam e com quem interagem. Dispõe de um volume de informações sobre cada indivíduo que, em muitos aspectos, ultrapassa aquilo que a própria pessoa conhece sobre si mesma.

Chegamos, assim, a uma situação profundamente paradoxal: quem organiza uma iniciativa política com milhões de participantes não consegue conhecer as pessoas que a integram, enquanto uma empresa privada estrangeira, alinhada a interesses políticos que incluem os de Trump e da extrema direita mundial, dispõe de instrumentos para conhecê-las profundamente. Essa assimetria não é apenas tecnológica. É principalmente política, porque significa que nossa capacidade de organização depende de estruturas sobre as quais não temos controle e que regram mudam a qualquer momento.

É importante reconhecer que essa crítica não diminui o papel desempenhado pelo Exército do Lula. A iniciativa não foi a única experiência de mobilização, mas cumpriu uma função relevante em um momento decisivo da política brasileira. Como desenvolvo no texto “O Exército do Lula cumpriu um papel, mas não será possível repetir o mesmo modelo” (pode ler aqui: https://movimento.softwarelivre.tec.br/noticias/o-exercito-do-lula-cumpriu-um-papel-mas-nao-sera-possivel-repetir-o-mesmo-modelo/ ), essa estratégia não poderá ser simplesmente reproduzida nas próximas campanhas. Isso se deve tanto às mudanças na conjuntura política e tecnológica quanto às reações que serão impulsionadas pelas próprias big techs a partir da única derrota que sofreram em eleições, imposta por nós, brasileiras e brasileiros, sob a liderança do presidente Lula.

Há, ainda, outro elemento fundamental que torna impossível simplesmente reproduzir essa experiência: a própria liderança de Lula. Ele é um fenômeno político, forjado em outra conjuntura histórica, com uma trajetória singular e uma capacidade de mobilização que não pode ser reproduzida artificialmente. Não será possível formar, em apenas quatro anos, outra liderança com a mesma dimensão política e capacidade de mobilização.

Se a experiência não pode ser simplesmente reproduzida, precisamos compreender também por que chegamos à situação em que ela se tornou necessária. O surgimento do Exército do Lula foi, em parte, consequência de nossas próprias limitações. Uma delas foi a dificuldade do PT e das esquerdas em compreender a importância das plataformas tecnológicas independentes como instrumentos estratégicos de organização política e social. A emergência dessa iniciativa mostrou uma lacuna que já deveria ter sido enfrentada muito antes: a ausência de uma infraestrutura própria para organizar, conectar e mobilizar as pessoas de forma permanente.

Essa lacuna não é apenas tecnológica. Ela revela um equívoco na maneira como compreendemos o próprio papel da tecnologia na transformação social. Não entendemos plenamente que software livre e soberania digital não são apenas questões técnicas. São instrumentos para organizar pessoas, construir relações, compartilhar conhecimentos, formar consciência política e mobilizar a sociedade em torno de um projeto de justiça social.

Como consequência dessa incompreensão, deixamos de adotar plataformas que já existem e podem ser adaptadas às necessidades de nossas organizações e movimentos. Nossa incapacidade de fazer isso nos tornou dependentes de estruturas controladas por grandes empresas de tecnologia alinhadas ao fascismo. Perdemos o domínio sobre nossas ferramentas, nossos dados e nossos meios de comunicação, comprometendo uma parte fundamental da nossa capacidade de organização.

O problema é que só percebemos a dimensão dessa fragilidade quando já estávamos diante de uma situação de emergência. Havia o risco real de perder as eleições para um candidato fascista, integrante de uma rede internacional de forças de extrema direita. O medo e o desespero abriram espaço para a busca de soluções emergenciais que nos permitissem enfrentar um cenário tenebroso. O Exército do Lula cumpriu seu papel nesse contexto, mas não podemos confundir uma resposta circunstancial com um projeto estratégico de organização.

É justamente essa confusão que precisamos evitar daqui para a frente. Não podemos transformar uma solução emergencial em nosso modelo permanente de atuação política. Nosso desafio não é insistir em uma experiência como o Exército do Lula, mas construir uma organização política, social, cultural e tecnológica a partir dos conceitos da economia solidária e do desenvolvimento solidário, para não depender de iniciativas emergenciais nem das big techs para mobilizar milhões de pessoas a cada eleição.

Para isso, precisamos desenvolver nossas próprias plataformas, exercer controle coletivo sobre nossos dados e construir infraestruturas tecnológicas independentes. Mas a tecnologia, por si só, não resolve o problema. Sobretudo, precisamos criar condições para que as pessoas se conheçam, estabeleçam relações, compartilhem conhecimentos, tomem iniciativas e se organizem autonomamente nos territórios.

Esse é o sentido estratégico da transformação que precisamos realizar: utilizar as tecnologias livres para transformar mobilização em organização, participação em protagonismo e disposição para lutar em capacidade permanente de ação coletiva.


Everton Rodrigues – Agente Territorial da Economia Solidária do Programa Paul Singer, ativista do movimento software livre desde 2000 e colaborador da Rede de Economia Solidária e Feminista (RESF) Contato: ev@pop.coop // https://organica.social/@gnueverton

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