E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva a uma pelada de futebol dos tempos da infância. Valendo!
Beija-Flor, 5 de abril de 2026.
O comboio de dois Fuscas e uma Brasília, apinhado de crianças, chegou cedinho na manhã do domingo a um campinho de futebol em Jacarepaguá. Parecia coisa de cinema. Era jogo contra o Jaqueira.
Bamba chegou quase dormindo. Benedito, diferentemente do amigo, mal tinha pregado os olhos a noite toda, era todo apreensão. Vandeca Meleca parecia o mesmo, isto é, não parecia se importar com nada. Para ele, era um jogo como outro qualquer, só que tinha que jogar de Kichute em vez de descalço.
Dom estava uma pilha só, dava para ver os lábios roxos da cor do açaí de tanto cagaço. Será que o juiz lhe permitiria jogar de óculos? Rico iria finalmente estrear o seu par de chuteiras da Adidas. Jacinto, Rogério, Luiz Paulo, Beto, Bijão, CasaMalte estavam por perto, provavelmente sabendo que seriam banco, pelo menos em um primeiro momento. Mas tio Ivo não deixaria de colocar toda a criançada para jogar, porque afinal é jogando que se aprende.
Benedito estava apreensivo porque não conhecia o time adversário. Quem era o craque? Quem era o goleiro? Quais as melhores soluções para se chegar ao gol? Como o Cotegipe F.C. deveria se defender? Toque só de primeira. Movimentação. Ser duro sem ser desleal. Cuidado para não levar cartão vermelho. Como organizar a defesa em um escanteio? Empurra-empurra pode ou não pode?
Ele era do tipo que gostava de fazer anotações mentais a respeito dos adversários. Vai ver que o Bené queria ser o tio Ivo quando crescesse, pensava o Bamba, o que antevê jogadas, provocando o amigo. A saber.
Depois de entregar as camisas (bonitas, de faixas azuis e verdes), tio Ivo fez uma rápida preleção. Disse basicamente que a bola deveria chegar no Vandinho (tio Ivo nunca o chamou pelo apelido) ou no Bamba ou no Bené. Disse que não era para ter medo, mas para jogar como se estivessem na rua, pois confiava no talento de cada um de seus jogadores.
Os meninos do outro time eram mais fortes, mas não eram melhores. Não conseguiram parar aquele menino de cabelos crespos e de pernas quase tortas que jogava pela ponta-direita. E o 10? Como jogava bola! Teve moleque do time adversário que quase levou cascudo porque queria pegar autógrafo do 10 antes do jogo acabado!
O menino mulato e franzino, o 8 de pernas finas e meias mais ou menos arreadas também jogava muita bola. Era engraçado vê-lo jogar, ele jogava como se estivesse em outro ritmo, como se fosse impossível alcançá-lo, como se ele tivesse uma espécie de imã que atraísse a bola para seus pés.
Ele fez um gol, um em uma jogada simplesmente linda. Cruzamento do 7. Aparada no peito e rolada do 10. Chute no ângulo do 8. Os nomes? O técnico do time adversário quis saber: Vanderson. Edvaldo. Benedito.
O jogo terminou 3 a 1 para o Cotegipe F.C. O primeiro foi de Bamba, de pênalti. O segundo de Bené, com bola na gaveta. O terceiro foi de CasaMalte, aproveitando o rebote da defesa. O time da Jaqueira fez o gol de honra com Luiz Henrique, batendo falta. Dom nem viu a bola. Rico só ficou feliz quando tirou a chuteira da Adidas que lhe apertou o mindinho durante o jogo inteiro. Que alívio. Não jogou mal para um jogador cujo pai é amigo do dono do campo.
Depois do jogo-contra, a meninada foi jogar bola do jeito que a gente gosta, isto é, não valendo nada ou valendo apenas o Baré Cola. A de fora é minha. Em jogos assim, valendo a alegria, o Vandeca Meleca simplesmente aplica em quem lhe vier pela frente uma profusão de dribles tão desconcertantes quanto inimagináveis. Dá gosto de ver.
Em jogos assim, Bamba não pode computar seus gols, ele que quer chegar ao milésimo o quanto antes. Na cabeça dele, ele diz para si mesmo que só vai valer se ele fizer gol com a perna direita ou em arrancada ou de cabeça.
Nestas peladas, se estiver de fora, Bené gosta de ficar perto do Tio Ivo, de fazer observações. Desta vez, entretanto, Bené apagou, dormiu sem contar embaixadinhas. O sol lhe batia as pálpebras e ele chegou a sonhar alaranjado. Teve que acreditar no que ouviu: que o Vandeca fez gol de bunda depois de ter driblado todo mundo – o Dom foi driblado duas vezes!
Quando começou a dar mosquito, a meninada entrou nos carros e voltou para casa, de alma lavada e camisa por lavar, feliz da vida, cantando todas as músicas que aprenderam ouvindo as torcidas que colorem o estádio do Maracanã.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







