Um idoso precoce, vaidoso e aniversariante

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, falando das agruras de ser professor, desabafa sobre uma atitude sua e como é visto e se sente “quase senhor! Ah, este quase senhor comemora seus 55 anos neste 17 de junho. Parabéns, grande César. E vamos usar aqui uma frase atribuída ao Picasso. Chamado de velho, o gênio da pintura teria dito: “Velho não. Sou jovem há mais tempo do que você!”

Perdoem-me o texto de cunho pessoal, mas cronista é assim mesmo. Adora falar de si. Ou melhor, fala de si o tempo inteiro, chegando a ser repetitivo. O cronista é aquele que julga que sua vida vale um texto.





Falando em texto eu iria começar este aqui me perguntando se posso me considerar idoso ou não. A bem da verdade, ainda não tenho idade para ser idoso, mas estou caminhando a passos largos para chegar a tal “terceira idade”. A passos largos, não, que sou mais comedido. Estou indo e espero chegar até lá, pois a outra opção não me agrada muito.


Eu sou idoso? É a pergunta a ser feita, mas o que isso significa? Eu já me imaginei meus netos passando as costas das mãos nas bochechas para secar a baba que deixei com meus beijos. Sempre achei a imagem boa, engraçada e muito próxima da realidade.


Se ainda me faltam dez anos para ser um idoso oficial, há certos aspectos da minha vida que contribuem para um envelhecimento precoce. Um deles é a insalubridade invisível do meu trabalho. Ser professor não tem sido fácil, não. Há muitas alegrias, mas também tristezas profundas, frustrações, tão dolorosas quanto pedras nos rins e nos sapatos.


E se pensarmos bem, bem mesmo, envelhecer não significa o mesmo que amadurecer.
Eu gostaria de me portar como um professor veterano, aquele que conhece o caminho das pedras, aquele que contém sabedoria para fazer de sua aula um espaço para a aprendizagem, para o respeito, para alegria. Eu sou daqueles que não concebem a profissão sem amor e humor.

Na verdade, eu sei que algo está ficando difícil quando percebo que não consigo extrair da situação um grão de sal de riso que seja. Porque saber rir das coisas é entendê-las mais a fundo do que quem leva tudo tão a sério a ferro e fogo.


Na semana passada, eu fechei a porta na cara de uma professora. Os alunos ficaram em choque, como assim? Sim, fui deselegante, grosseiro, talvez tome um gancho. Ocorre que, no exato momento em que eu queria falar com a turma sobre comportamento, ela, se aproveitando da porta estar entreaberta, decidiu que poderia continuar a soprar as suas ordens para uma aluna. Eu percebi e fechei a porta com um “stump”, uma palavra onomatopéica da língua inglesa que reproduz bem o som que se ouviu.


Na hora da acareação na Sala da Diretora ela me disse que eu era quase um senhor, talvez para me repreender, para me dizer que eu não deveria ter agido daquela forma, como se senhores não pudessem ser grosseiros.


Eu sinceramente acho que não deveria ter agido da forma que agi, mas também tenho que extrair alguma lição de realidade a partir do meu tresloucado gesto. Não é só porque eu não gosto dela ou por pura implicância. É que existe um espírito de rixa operando clandestinamente nas relações entre os professores.


Quem é PI* da prefeitura do Rio sabe do que estou dizendo. Eu não sou exceção à regra. Sou um quase senhor dando aulas de inglês com um material que não ajuda nem o aluno nem o professor.

Um quase senhor que é visto como um estepe para que os professores regentes tenham o bendito tempo de planejamento. Eu não posso escrever o que penso aqui às claras, porque é caso de este quase senhor aqui tomar outro gancho.

Tentarei ser indireto: eu me sinto como Plácida, personagem do romance “Brás Cubas”, de Machado de Assis. Parece que a minha única função na escola é servir ao professor regente. Em algumas ocasiões, eu acho graça; em outras, me sinto um tanto descartável, sujeito de pouca importância, uma babá que ensina o beabá do inglês enquanto os verdadeiros heróis do exército de Brancaleone planejam a lição seguinte.


A lição apreendida do episódio é um duro choque de realidade. Se é assim que ela me vê, como um quase senhor que descumpriu suas funções, imaginem os meus alunos. De vez em quando sai um vô em vez de tio quando um aluno me chama. Eles se ligam mais nos meus cabelos brancos do que na minha calça Levi´s, do que no meu All Star vermelho, símbolos de jovialidade (da década de 1980!).


Eu já testemunhei muitos alunos humilhando professores da forma mais cruel possível, em casos explícitos de etarismo. Em alguns casos, cheguei a intervir. Não há respeito pelos velhos numa sociedade infantilizada. Sabe por quê? Porque gente velha cheira a xixi e a morte.


O incidente com a professora ocorreu a menos de uma semana do meu aniversário e mexeu com meu emocional. Quando este texto for publicado, já terei completado cinqüenta e cinco anos. Tomara que eu esteja a dar risadas de alguma coisa que ocorreu em sala de aula. Tomara, meu Deus, tomara.


P.S. O livro “Ulysses”, de James Joyce, calhamaço de mais de 1000 páginas publicado em 1922, se passa em um dezesseis de junho de 1904. Uma grande preparação para o dia dezessete, dia do meu aniversário.

*Na rede municipal, o Professor I (PI) é o profissional com habilitação em licenciatura específica, focado em determinadas disciplinas do Ensino Fundamental.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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