Por Luis Pimentel, jornalista e escritor
Gilberto Gil, orgulho e glória da Bahia, do Brasil e da música universal faz hoje 84 anos, com esse mesmo olhar de quem apenas contempla a passagem dos anos, dos meses, dos dias, dos aniversários que nos passam.
Parabéns, Gil, pois se existe um brasileiro que merece diariamente ser parabenizado – pelo conjunto da obra, da vida e dos anos – é esse bom e hoje velho baiano, cujas canções são trilha sonora em nossas vidas há algumas décadas.
Um dia, descendo a Ladeira da Preguiça, em Salvador, pensei em Gil. A via (que já foi crucis e hoje é ponto turístico) era triste como os escravos que a subiam carregando sacos de mercadorias nas costas, do porto para a cidade alta. A ladeira que a inspirou está bonita e enfeitada, graças ao trabalho de grafiteiros que encheram paredes sombrias com imagens tão alegres e coloridas quanto o povo baiano.
Lembrei-me de Gil porque, ao ver a placa de rua, comecei num impulso a cantarolar os seus versos que dizem “Preguiça que eu tive sempre de escrever para a família / E de mandar conta pra casa que esse mundo é uma maravilha”. E me dei conta de que precisava escrever para a família. E de contar que, maravilhoso ou não, o mundo também me recebeu um dia longe de casa. E me dei conta, também, do quanto as canções de Gil eram (foram e são) marcantes em minha vida. Nas nossas, provavelmente.
Naquele momento, meados da década de setenta do século passado, o baiano do interior aqui vivia na capital, que para mim era o mundo. O baiano Gil também estava nos braços do mundo, enfrentando o exílio londrino. Eu arrumava as malas para seguir pro Sudeste maravilha, cantarolando “O Rio de Janeiro continua lindo”.
Então segui, e temos seguido, com Gil na trilha sonora dos sonhos (o seu sonho preferido por mim é aquele em que ele se encontra “Num congresso mundial, discutindo economia”, defendendo a “Ampliação do espaço cultural da poesia”…).
Na trilha dos dias revi Gil sorrindo ao falar de música, chorando ao lamentar a perda de um filho, indo aos céus para exaltar a vida e descendo até “Debaixo do barro do chão da pista onde se dança”, para falar de dificuldades com a saúde.
Na trilha de uma vida tocada a Gil sobrevive a alegria de existir no mesmo tempo e espaço em que ele, pisar o chão onde ele pisa, respirar o ar que ele respira, ser contemporâneo de sua música e de sua poesia.







